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O Brasil após as urnas: quais desafios terá o presidente eleito?

Especialistas analisam os gargalos que vencedor da eleição presidencial terá de enfrentar

Votação ocorre neste domingo, das 8h às 17h
Votação ocorre neste domingo, das 8h às 17h Foto : Fabiano do Amaral

Ganhar a eleição presidencial deste domingo será apenas o primeiro passo de uma gestão que, independentemente do vencedor, será complexa. O desafio já começa no dia seguinte, na negociação por estabilidade. Para governar, o próximo presidente precisará construir pontes com o Congresso e atender às demandas de uma sociedade polarizada. A capacidade de articulação política será decisiva para algum nível de governabilidade.

Sendo Flávio Bolsonaro (PL), tentando o primeiro mandato, ou Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta o quarto mandato, os desafios devem ser os mesmos, ainda que os postulantes tenham propostas diferentes de lidar com cada questão. Para compreender um pouco mais das dificuldades, o Correio do Povo conversou com cientistas políticos e outros especialistas sobre os desafios do próximo presidente da República.

O que a campanha pode sinalizar

A disputa histórica entre PSDB e PT, que predominava desde a redemocratização, deu lugar a um novo confronto a partir de 2018, marcado pela eleição para presidente de Jair Bolsonaro (eleito pelo PSL, que veio a se tornar o PL ao longo do mandato). “Ali se fechou um ciclo, mas iniciando um novo processo de polarização política e social”, pontuou Fábio Hoffmann, pesquisador e doutor em Ciência Política.

O especialista pondera que as campanhas ainda estão passando por adaptações do modelo “analógico” de estratégias para o digital, entendendo como o usuário de determinada plataforma pode ser “capturado” para se tornar potencial apoiador. “A medida que se entende que o eleitor hoje é mais volátil, elas têm se adaptado às demandas do eleitor, ora aderindo a questões da redução da maioridade penal, ora se dobrando a redução das jornadas de trabalho”, pontuou Hoffmann.

Para melhor aceitação da população ao longo do mandato, as redes sociais e a comunicação governamental são colocadas como essenciais. O pesquisador reforça a necessidade de trabalhar com os meios de comunicação tradicionais, como televisão, rádio, jornais impressos, mas compreender também a lógica de funcionamento nas novas mídias e plataformas. “Às vezes, você tem uma boa política, mas ela não é bem comunicada. Além de que o governo eleito tem que falar para toda a população, não tem que falar para um público”, ponderou.

Reforma tributária

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 45/2019, responsável pela reforma tributária, foi aprovada e promulgada em 20 de dezembro de 2023, com leis complementares ao projeto sendo ratificadas em 2024 e 2025. A partir de 1° de janeiro de 2027, a reforma entra na primeira grande fase de transição na prática.

Entre as principais mudanças, destaca-se a extinção do PIS e da Cofins, a substituição do IVA Federal pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), IPI, com alíquota zero (com exceções para produtos específicos da Zona Franca de Manaus) e a criação do Imposto Seletivo (IS) para produtos nocivos à saúde e meio ambiente.

Vale destacar que a transição se iniciou em janeiro de 2026 e deve se estender até 2033, com mudanças graduais. É o caso dos impostos estaduais (ICMS) e municipais (ISS) que seguem operando normalmente em 2027, sendo substituídos gradualmente pelo IBS a partir de 2029.

Para o cientista político Rodrigo Perla Martins, a Receita Federal tem trabalhado no processo, mas acaba sendo algo pouco sentido ou visto pela população até agora. “Em primeiro momento, a mudança na tributação não deve atingir a população, afinal, é simplesmente uma reorganização do sistema tributário brasileiro, que vem sendo pedido desde a constituinte”, comentou.

Hoffmann reforça a complexidade da reforma, mas diz que ela ainda precisa ser trabalhada e ajustada nos próximos anos. “A máquina pública estatal brasileira é complexa, mas bem preparada. Ela é necessária para o ajustamento não só das contas públicas, mas também para tirar o peso das costas do cidadão e dos empresários, principalmente dos microempresários.”

Para o pesquisador, o próximo presidente deverá articular com deputados e senadores para compreender os impactos reais da reforma para o cidadão enquanto a transição ocorre. “A dimensão deliberativa do debate público é essencial, porque desta forma os deputados trazem o debate para suas bases e têm o termômetro do que a população pede. Por exemplo, o microempresário está reclamando que é muito penalizado. Então pode haver alguma isenção ou ampliação de valores para que os MEIs possam atuar”, comenta Hoffmann.

Escala 6x1 e novos regimes de trabalho

Se a carga tributária exige fôlego dos negócios, a relação entre patrões e empregados também passa por transformações. A PEC 221/2019, promulgada como a Emenda Constitucional nº 141/2026, define o fim da escala de trabalho 6 por 1. Promulgada em 16 de outubro, a medida passará a ser válida em 16 de dezembro. Ela extingue o modelo de seis dias de trabalho e um descanso, garantindo dois dias de repouso semanal, sem a necessidade de serem sequenciais.

Há também a redução da carga máxima de trabalho de 44 para 42 horas semanais, sem redução salarial. Passado 1 ano e 2 meses da promulgação, em dezembro de 2027, a jornada de trabalho deve ser reduzida para 40 horas semanais.

Hoffmann pondera que ainda é cedo para compreender os movimentos que se farão necessários em relação à extinção da escala 6x1, mas se desenha tendência semelhante àquela da reforma tributária. “A sociedade quer, então não tem como você fechar os olhos. Vão ter que trabalhar essa questão, pensar em alguma forma de compensação ou regra de transição para que essas empresas não sejam penalizadas ou fechem as portas.”

Martins comenta que a proposta de Flávio, que introduz o pagamento com base nas horas efetivamente trabalhadas, também precisa ser analisada com cautela, seja pelo candidato ou pelos parlamentares. “No Brasil, mesmo com alguns problemas, à contratação CLT ainda é o parâmetro que as pessoas preferem.”

Para Hoffmann, os fatores socioculturais podem dificultar a reprodução de modelos de trabalhos de outros países em território brasileiro. “No Japão se paga por hora trabalhada, mas não tem como trazer o modelo para o Brasil. Lá é um país de primeiro mundo, se paga muito bem e se demanda muita mão de obra. No Brasil, a consequência disso seria uma precarização total do trabalho, como já existe em alguns pontos”, comentou.

Ainda que não coloque como algo prioritário, sem ter a necessidade de ser trabalhado pelo próximo presidente, o pesquisador levanta a necessidade de uma cooperação entre união e iniciativa privada para criação de vagas de trabalho, em virtude dos postos perdidos pela modernização, seja por robótica, seja por inteligência artificial.

Facções e crimes digitais

As campanhas em nível estadual e nacional tiveram a segurança pública, enquanto tema amplo, como uma das bandeiras, com foco, na maior parte das vezes, voltado ao crescimento das facções pelo Brasil. De acordo com uma pesquisa do Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e publicada em maio de 2026, cerca de 41% da população brasileira com 16 anos ou mais (cerca de 68,7 milhões de pessoas) sente a presença e os efeitos das facções criminosas ou milícias no bairro onde mora.

Neste campo, é consenso entre os especialistas que o próximo presidente do Brasil precisará investir em inteligência estratégica, articulando entre União e estados. A professora e pesquisadora de segurança e políticas públicas Letícia Schabbach defende que a estratégia de combate às facções está na cooperação entre instituições e na busca pelas matrizes financeiras dos grupos criminosos.

“Pegar os ‘cabeças’ exige a necessidade de fazer um trabalho articulado entre a Polícia Civil, Polícia Federal e Poder Judiciário para realização de ações conjuntas. Não adianta só olharmos para o ‘crime do varejo’. Atacar a criminalidade menor, peixes pequenos e deixar os grandes soltos”, comentou.

O jurista e criminólogo Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo coloca um ponto de atenção na adoção do modelo das milícias pelas facções, com controle armado de territórios e cobrança de taxas e pedágios de moradores e comerciantes, também reforçando a importância de estratégias de contenção financeira do grupo criminoso. “A resposta exige capacidade de investigação patrimonial, compartilhamento de informações e operações integradas para retirar dessas organizações seus recursos e sua capacidade de domínio sobre a população”, indicou.

Os especialistas reforçam a necessidade de uma melhora no combate aos crimes digitais. Schabbach pede a responsabilização dos bancos, instituições financeiras ou plataformas onde o golpe foi realizado para que a carga do crime não recaia somente sobre a vítima. “Existem leis em outros países colocando que, se alguém é lesado por crime digital, a vítima recebe uma indenização”, pontuou.

Azevedo considera importante a qualificação das Polícia Civil e Federal para atuar nessas situações, além de pedir auxílio para os entes envolvidos pela fraude. “É necessária a cooperação de plataformas e instituições financeiras nos termos da lei e identificar os responsáveis pelos ilícitos, é preciso alcançar os organizadores e beneficiários dessas redes, inclusive quando operam fora do país”, argumentou.

Financiamento da saúde pública

A gestão e o financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS) foram um ponto de discussão presente nas campanhas eleitorais em todas as esferas de disputa. Um assunto que foi pouco mencionado em debates é a inversão da pirâmide etária em todo o território brasileiro, ocorrendo de forma mais acentuada no RS. Nesse fenômeno, a proporção da população idosa (acima de 60 anos) está aumentando, enquanto a proporção da população de jovens (0 a 14 anos) e de adultos (de 15 a 60 anos) reduz. A projeção é de que o Brasil passe plenamente por essa inversão ao longo da década de 2030.

“Onde a população envelhece mais, vai mais a médicos, mais ao sistema de saúde e acabam sobrecarregando esses pontos de acesso, sejam postos de saúde ou hospitais. Então, aí nós teremos um problema de financiamento e distribuição deste recurso”, comentou Fábio Hoffmann.

O especialista coloca que as particularidades regionais e o financiamento convergem com uma dificuldade permanente do SUS, que é a universalização. “Se não tivéssemos um sistema tão complexo e sofisticado como o SUS, não teríamos conseguido vacinar tantas pessoas durante a pandemia. O SUS tem esse lado muito legal de tentar permitir que cada brasileiro tenha saúde pública, mas essas disparidades regionais ainda não permitem", pontuou.

Transição energética e meio ambiente

O Brasil faz parte do Acordo de Paris, de 2015, um compromisso firmado para reduzir a emissão de dióxido de carbono e conter o aumento da temperatura proveniente do efeito estufa. Na mesma linha, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) propôs uma série de metas de redução de emissões até 2035.

Hoffmann salienta as consequências das mudanças climáticas, que já são sentidas por todo o país, como as enchentes de 2024 no RS, reforçando a importância dos incentivos de outros países, como é o caso da participação da Noruega no Fundo Amazônia. “Países que são mais pobres ou emergentes, como é o caso do Brasil, precisam de apoio dos países desenvolvidos para fazer essa transição. O próximo governo vai ter que ter boa relação com países”, reforçou.

No entanto, outros pontos da política podem servir neste processo, ainda que a relação com parceiros seja boa. O cientista político Rodrigo Martins lembra que conflitos como a guerra entre Ucrânia e Rússia ou dos EUA contra Irã podem refletir no preço dos combustíveis, servindo como um freio para o avanço destas metas. “A transição energética e a questão ambiental estão atrasadas e, por um bom tempo, vão ficar em compasso de espera, visto que as guerras e a crise energética tendem a não serem resolvidas tão rápido”, argumentou o pesquisador.