A conclusão é óbvia, mas nunca é demais lembrar o óbvio: se o futebol mudou em função dos avanços de um mundo conectado pela internet, a lógica indica que a cobertura jornalística também mudou. E mudou demais. A começar pelo aspecto técnico. O gramado tomado por cabos e fios dos repórteres antes e ao final do jogo é uma cena que ficou no passado.
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A quantidade de equipamentos diminuiu na proporção inversa à qualidade das transmissões. Hoje é possível transmitir um jogo ou uma entrevista do outro lado do mundo por meio de um celular com um som que pouco perde para um estúdio. A questão técnica é apenas uma das mudanças, mas foi a partir da sua evolução que transformações maiores vieram, com novos conceitos, linguagens e personagens.
As redes sociais inundadas com informações de todos os lados, somada à facilidade atual em se criar um canal no YouTube mudaram o jogo. A divulgação da notícia deixou de ficar restrita aos horários pré-determinados dos programas e passou a acontecer a qualquer momento. Ou melhor, a todo momento. Só que a demanda por novidades não cessa e em muitos casos, não há tanta informação relevante assim. E aí o que antes não era considerado tão importante passa a ser.
“Tudo virou notícia. Até o que não é. Aquilo que a gente muitas vezes discutiu lá atrás e chegou à conclusão que era irrelevante, como uma reunião de conselheiros, hoje alguém vai publicar e fazer com que isso se torne algo que te obriga a falar sobre. Não existe mais o critério, não existe mais a discussão de saber o que é relevante dentro de uma informação”, aponta o jornalista da Rádio Guaíba, Rafael Pfeiffer.
À medida em que o noticiário ininterrupto ganhou força, a briga pelo furo jornalístico viu suas características serem alteradas numa corrida ainda mais rápida contra o tempo. “A gente era bem mais calmo que a geração atual. Hoje tudo é mais apressado e tem muito erro. A gente acertava mais, filtrava, ouvia duas ou três partes envolvidas”, avalia o jornalista e comentarista da Rádio Bandeirantes de São Paulo, Alexandre Praetzel.
Teria a própria noção de furo jornalístico mudado? “Hoje em dia é furo quando um jornalista divulga a escalação minutos antes de outro. É curioso, porque todo mundo vai saber em algum momento. Lá atrás, não era simplesmente dar antes, era descobrir algo que alguém tentava não revelar. Acredito que é muito em função deste imediatismo”, aponta o jornalista Marcelo Barreto, apresentador do canal SporTV.
Para a jornalista e professora de jornalismo da UFRGS, Sandra de Deus, é preciso ficar claro que os conceitos jornalísticos em si não mudaram.
“Notícia continua sendo notícia. Jornalismo é jornalismo, desde sempre com sua função pública. O que devemos considerar é a qualidade das transmissões e coberturas que estão calcadas só no entretenimento com elevado grau de amadorismo e novas formas de monetização”, critica Sandra.
Assim como nas outras áreas do jornalismo, a interatividade também passou a ser essencial no ambiente esportivo. O torcedor deixou de ser apenas um espectador e passou a ter outro papel, comentando não apenas o jogo, como o trabalho do jornalista.
“A grande mudança para quem faz cobertura esportiva é que agora nós passamos a ser cobrados com muito mais força e com muito mais instantaneidade. Hoje, tu faz uma matéria e, se cometer algum equívoco, a rede social te trucida. Esta é a grande mudança para o jornalista: ele é quem atira, mas também é atingido”, analisa o jornalista Leonardo Meneghetti, do Debate Raiz, e dono de um canal no YouTube que leva o próprio nome.