*Colaborou Fernanda da Veiga, sob supervisão
O ano de 2025 chega ao fim marcando uma era. Um quarto de século se foi desde aquele falado 2000 que previa bug do milênio. O mundo entra em 2026 cercado de desafios, muitos deles em longo prazo. No Brasil, a reforma tributária nos lembra que a mudança na gestão dos impostos nos acompanhará pela próxima década. Algo similar acontece com a Previdência. Alterações nas regras da aposentadoria feitas em 2019 também marcam presença, já que é preciso considerar fatores como “pedágio”, soma de pontos, tempo de serviço e idade. Tudo para equilibrar finanças e arrecadação, um desafio que já está sobre a mesa para este governo e que também vai mexer com os próximos.
A economia de 2026 estará muito mais relacionada ao social, ao dia a dia dos cidadãos. Na própria aposentadoria é preciso considerar que a população acelerou o envelhecimento, conforme mostrou o IBGE nas atualizações de seu último censo. Mudanças mais imediatas também se apresentam e geram expectativa.
O Imposto de Renda ganha uma nova faixa de isenção para as pessoas físicas até R$ 5 mil mensais, além de desconto na cobrança para quem recebe até R$ 7.350. Essa economia no pagamento dos tributos traz esperanças de maior consumo e algumas melhorias na qualidade de vida. Entretanto, para quem for pensar em investimentos maiores dentro de casa ou no empreendimento que administra, há a barreira dos juros que tornam caros os financiamentos de novos projetos de vida. Este especificamente será um outro grande desafio por pelo menos três anos, porque só para o final de 2028 há expectativa de juros abaixo dos dois dígitos. A estimativa é de 9,5% até lá, segundo o Boletim Focus do Banco Central. Atualmente o juro brasileiro é um dos mais caros do mundo. Levantamento do MoneYou mostra que estamos em segundo lugar no quesito juros altos, atrás só da Turquia.
⏩ Reforma tributária no horizonte
Este é um dos capítulos de longo prazo na economia brasileira. Até 2033 conviveremos com dois sistemas no recolhimento de impostos. Segundo o governo federal, com a reforma tributária, o Brasil passará a ter Imposto sobre Valor Adicionado (IVA) Dual, composto pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), federal, e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de estados e municípios. O IVA é usado em 174 dos 193 países reconhecidos pela ONU e tido como “o melhor modelo de tributação do consumo”. Foi adotado originalmente na Europa, e os países que estabeleceram o sistema na década de 1990 costumam chamar o IVA de “GST (“Goods and Services Tax”) ou Imposto sobre Bens e Serviços.
A reforma contempla também a criação do Imposto Seletivo (IS), federal, de caráter regulatório, para desestimular o consumo de produtos que sejam prejudiciais à saúde e ao meio ambiente. Na esfera federal, a CBS e o IS substituirão a Contribuição para o Programa de Integração Social (PIS), a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Nas esferas estadual e municipal, o IBS substituirá o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação, estadual, além do Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS), municipal. O IBS e a CBS terão administração separada, mas com regras harmônicas entre si.
TRANSIÇÃO LENTA
A mudança é vasta, mas deverá ser relativamente lenta, já que para 2026 ainda será pouco perceptível na transição até 2033. A observação é de Tairo Fracasso, conselheiro do Conselho Regional de Contabilidade (CRCRS) e membro do Grupo de Trabalho da Reforma Tributária. Além da transição com utilização dos sistemas antigo e novo, lembra ele, ainda haverá a chamada “prescrição” de cinco anos. No entanto, neste momento mais imediato, em 2026, diz Fracasso, não é para ter efeito financeiro, mas organizacional.
As empresas terão esse período para se adaptar às novidades. “Entra em vigor apenas uma parcela do novo imposto (IBS + CBS), chamada de ‘alíquota de teste’ ou de ‘calibragem’. É um percentual pequeno de 1% (0,9% CBS e 0,1% IBS), cujo único objetivo é permitir que as empresas se adaptem, sem impacto relevante na carga tributária. Existe previsão legal que dispensa o pagamento destes tributos pelo contribuinte, contanto que este cumpra com as obrigações acessórias”, diz o especialista. Entre exemplos dessas obrigações estão manter registros detalhados de todas as transações da empresa, emitir notas fiscais, declarar faturamento e informar o governo sobre a movimentação de estoques.
⏩ Mudança no Imposto de Renda
A mudança nas regras do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF), que vigora a partir de 1° de janeiro de 2026, traz esperanças de que o trabalhador possa efetivamente economizar dinheiro. Para quem ganha até R$ 5 mil mensais passa a valer a isenção no pagamento do IRPF. Essa transformação deverá ser percebida, na prática, no início de 2027, em fevereiro ou março, quando for feita a declaração. Nos salários até R$ 5 mil não será preciso pagar imposto e na faixa até R$ 7.350 está previsto desconto.
A economia relacionada com a cobrança menor de IR para quem ganha menos representada em tabelas calculadas pelo governo é importante, conforme ressalta o economista e professor da Escola de Negócios da PUCRS Gustavo Moraes, mas há ressalvas. “O governo brasileiro agora corrige a defasagem do IR, uma justiça que é feita, não corrige completamente, mas é uma importante correção, até R$ 5 mil, até R$ 7.350 em termos de alíquotas. Isso ajuda demais as famílias brasileiras, é um importante incremento na renda, mas vamos ter cuidado com isso”, assinala. “Reforço, há méritos totais ao governo no sentido de que corrigiu essa defasagem. Fez caber no orçamento essa demanda da sociedade. Boa parte da estrutura de trabalho do Brasil está contida nessas faixas de renda. O salário médio está em torno de R$ 3.200. Temos então um incremento de renda importante. Agora, para onde vai esse dinheiro?”, diz o especialista.
Ele lembra que hoje as famílias brasileiras têm um endividamento significativo. “Imagino que uma parcela representativa desse acréscimo vai ser para renegociação de dívidas e vai repetir talvez um padrão que tem acontecido no comércio”, compara. “As famílias vão priorizar a aquisição de bens não duráveis. Roupas, calçados, artigos de higiene, alimentação. Vamos assistir a uma expansão para esses setores, não tenho a menor dúvida, mas isso não atingiria bens duráveis”, prevê Moraes, fazendo referência ao consumo de eletrodomésticos, eletrônicos, móveis, materiais de construção e automóveis. “Estes dependem de financiamento, e a taxa de juros em dois dígitos limita.” Ele pondera que, se por um lado a correção nos impostos beneficia, por outro os juros altos vigorando no Brasil retirariam essa vantagem.
Valor da renda e o quanto se economizará em IRPF em um ano:
Até R$ 5 mil: isento (R$ 4.365,89)
Até R$ 5,5 mil: desconto de 75% (R$ 3.367,68)
Até R$ 6 mil: desconto de 50% (R$ 2.350,79)
Até R$ 6,5 mil: desconto de 25% (R$ 1.333,90)
Acima de R$ 7.350: tabela progressiva, com alíquotas de 7,5%, 15%, 22,5% e 27,5%
⏩ Crescem expectativas com juro e inflação
Juros e inflação caminham juntos em 2026. Se os preços estão acima da meta estabelecida, os juros são mantidos nas alturas para desestimular o cidadão a pedir crédito para comprar. Porque se o consumo aumenta quando é fácil conseguir crédito, os produtos em geral se valorizam e seus preços aumentam, engordando os índices de inflação. Em 2025, o acumulado em 12 meses da inflação oficial, o IPCA, vinha mostrando resultados acima dos 4,5% estabelecidos como limite pelo IBGE. A taxa Selic chegou a 15% ao ano em 2025, e é ela que regula todos os outros empréstimos feitos nos bancos, taxas do cartão de crédito e demais serviços.
Para o novo ano a perspectiva pode ser considerada boa já que os analistas do Boletim Focus do Banco Central preveem redução da Selic para 12,25% até o final de 2026, já que a inflação estaria desacelerando nas leituras mensais do IBGE. Na de novembro, divulgada em 10 de dezembro, o acumulado de 12 meses do IPCA ficou abaixo do limite de 4,50%, registrando 4,46%. Porém, no mesmo dia em que foi divulgada a inflação abaixo do teto, o Comitê não baixou o juro em sua última reunião do ano, e 2025 fica marcado por uma Selic de 15%.
Especialistas lembram que uma taxa que não desce dos dois dígitos ainda é muito alta e não permitiria um “boom” de crescimento econômico. “Embora o Focus fale em 12,25% até o final de 2026, é importante ressaltar que essa queda vai ocorrer preponderantemente no segundo semestre. No primeiro teremos quedas um pouco mais conservadoras”, diz Gustavo Inácio de Moraes, economista e professor da Escola de Negócios da PUCRS. “O Brasil tem um modelo de crescimento econômico baseado na demanda, sobretudo a decorrente do orçamento público. E nessa situação, de juros altos e demanda dependente do setor público, não vamos muito longe com o crescimento econômico”, ressalta Moraes. “Em 2026 fecharemos abaixo de 2% no crescimento do PIB. Vai ocorrer crescimento, mas bem abaixo do nosso potencial.”
O economista-chefe do Sindilojas Porto Alegre, Rodrigo de Assis, diz que, ao longo de 2026, com a inflação caminhando para dentro da banda da meta, abre-se espaço para um ciclo de reduções do juro. “A expectativa atual é que o Copom possa iniciar cortes já na primeira reunião do ano, mas isso dependerá inteiramente do comportamento da inflação nos primeiros meses”, pondera. “A política monetária continuará condicionada ao cenário fiscal e ao ritmo de atividade econômica”, diz Assis. “De um lado, juros altos e inflação elevada reduzem o poder de compra e a disposição a consumir. De outro, o governo vem adotando medidas que estimulam a demanda, como antecipação de 13°, aumento real do Bolsa Família, liberações de FGTS e, mais recentemente, incentivos ligados às enchentes. Essas medidas funcionam como ‘impulsos’ fiscais, o que cria um cenário paradoxal: enquanto a política monetária pisa no freio, a política fiscal pisa no acelerador.”
Avaliando a conjuntura, Gustavo Moraes lembra que, independentemente de governos e partidos que estejam no comando hoje ou nas próximas décadas, os indicadores ditam iniciativas. “O câmbio vai reagir demais às notícias envolvendo pesquisas eleitorais.”
⏩ Trabalho e aposentadoria na nova configuração da Previdência
O Brasil vive um momento de transição que definirá os rumos de Previdência Social nas próximas décadas. À medida que o país avança no processo de envelhecimento populacional, o sistema está no centro de uma reorganização institucional, econômica e social. Para Adão Rocha, professor da área de Gestão de Pessoas na Fadergs, as aposentadorias atuais, a longevidade e as despesas do INSS continuarão a ser o maior dreno no orçamento dos próximos governos. “Para mitigar isso, a economia se beneficia com os mais velhos na ativa. A partir de 2026 essa relação deverá se intensificar, com a ampliação da participação de idosos na sociedade e no mercado de trabalho”, diz.
Atualmente, fatia de 70% deste grupo recebe um salário mínimo, que passa a ser de R$ 1.621 em 2026. Nesse cenário, prevê Rocha, a combinação entre longevidade crescente e necessidade de adaptação das estruturas previdenciárias formará um novo modelo de funcionamento do pacto social brasileiro, demandando equilíbrio entre proteção, financiamento e bem-estar.
Dados do IBGE mostram que a população idosa passou de 21 milhões em 2010 para 32 milhões em 2022, e continuará crescendo nas próximas décadas. Em paralelo, a proporção entre pessoas em idade ativa e idosos vem diminuindo, transformando a base de financiamento do sistema. Projeções do Ipea apontam que essa relação poderá se aproximar de um ponto de equilíbrio entre contribuintes e beneficiários por volta de meados do século. Esse quadro indica que o Brasil precisará desenvolver novas estratégias para acompanhar a tendência natural de uma sociedade mais longeva, aprimorando a segurança social.
Com o aumento da expectativa de vida e mais idosos com capacidade produtiva, o mercado de trabalho viverá transformações A participação de pessoas com 60 anos ou mais, que cresceu 69% em 12 anos, tende a continuar avançando. O professor lembra que a permanência dos mais velhos no mercado se tornará um elemento estrutural para a Previdência e para a economia como um todo. Segundo ele, o Brasil poderá ver, nos próximos anos, o trabalho mais diversificado em termos etários, com arranjos flexíveis, atividades menos intensivas fisicamente e maior valorização da experiência.
O ELEMENTO RENDA
A renda previdenciária deve continuar sendo elemento central de segurança financeira para grande parte da população idosa, analisa Rocha. A tendência de muitos aposentados dependerem do piso previdenciário deve estimular discussões sobre formas de complementá-lo e ampliar condições de autonomia e bem-estar. Com isso, políticas de apoio social, programas de capacitação e novas oportunidades de trabalho podem ganhar protagonismo. A necessidade crescente de serviços especializados em saúde, convivência e assistência também deve orientar os investimentos públicos, reforçando a ideia de que longevidade ativa é também oportunidade e responsabilidade compartilhada entre Estado, iniciativa privada e sociedade.
Ao desafio de manter orçamento para pagar os aposentados soma-se à mudança nos formatos de trabalho. Quem contribui para a Previdência e engorda esse orçamento é o trabalhador formal, com carteira assinada. Entretanto, a informalidade hoje no Brasil, embora mais baixa frente a anos anteriores, ainda é significativa e alcança 37% da população. E, diferentemente do autônomo ou do MEI, o informal não tem registros ou contribuições à Previdência. Por outro lado, como a população desempregada mostra o menor nível de desocupação, de 5,4%, e há mais pessoas trabalhando, essas contribuições podem melhorar a gestão do orçamento.
Outro ponto a ser observado é a mudança que vem sendo feita desde 2019 com a reforma da Previdência. Em 2026, a idade mínima passará a ser de 59 anos e 6 meses para mulheres e de 64 anos e 6 meses para homens, o que teoricamente também amplia o tempo de contribuições do trabalhador e aumenta o orçamento previdenciário.
O professor Rocha diz que, diante de uma sociedade mais longeva, a integração econômica dos idosos tende a se tornar estratégica para ampliar o dinamismo social e econômico. “A Previdência deverá se consolidar como um sistema articulado com outras áreas – saúde, educação, mercado de trabalho e assistência social –, formando uma rede integrada de proteção.”