Os últimos anos do primeiro quarto deste século foram marcados pela aproximação dos eventos climáticos extremos na rotina da população, principalmente no Rio Grande do Sul. Desde 2023, quando uma enchente assolou o Vale do Taquari, os temas “clima” e “resiliência” passaram a fazer parte do imaginário popular, assim como de debates em diversos segmentos da sociedade. Isso porque o risco de novas catástrofes no Estado tem sido cada vez maior.
Publicado recentemente por meio de parceria entre a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Secretaria de Meio Ambiente do RS (Sema), Casa Militar e Defesa Civil do RS e o Serviço Geológico do Brasil (SGB), o Atlas de Risco a Inundações do RS contempla dados importantes para nortear ações públicas e privadas sobre o tema. Conforme o estudo, por exemplo, dos 497 municípios gaúchos, 346 – cerca de 70% do total do Estado – correm risco de sofrerem com inundações ou enxurradas. Destes, 43 foram identificados como em situação de risco muito alto e outros 82 de risco alto.
Apesar disso, o relatório cita que parte dessas cidades já conta com ações implantadas ou em andamento para reduzir o risco, como obras de proteção ou sistema de alerta. De acordo com o Atlas, as inundações registradas no RS em 2024 foram um dos eventos hidrológicos extremos mais catastróficos registrados no Brasil. Em Muçum, por exemplo, a precipitação entre 25 de abril e 15 de maio do ano passado foi de 1.062 milímetros.
Esse risco de novos eventos faz com que a temática do clima siga como protagonista para os debates públicos pelas próximas décadas, principalmente acerca das ações necessárias para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Seja a implantação de infraestrutura adequada ou mesmo a transição para fontes de energias renováveis e ecológicas, tratar sobre os desafios da resiliência e as consequências, caso os resultados não sejam obtidos, se tornou algo essencial para a sociedade em médio e longo prazo, principalmente.
⏩ Da necessária adaptação à realidade do planeta às ações conjunturais
Apesar dos desafios relacionados ao tema, o professor e coordenador do curso de Geografia na Escola de Humanidades da PUCRS, Luciano Zasso, entende que é possível alcançar resultados satisfatórios em termos de prevenção nos próximos anos. Para ele, isso precisa acontecer a partir de um melhor planejamento dos espaços, principalmente os espaços urbanos mais densamente ocupados em áreas inundáveis. “É com sistemas de proteção mais eficientes em termos de diques, casas de bombas, com uma gestão melhor na Defesa Civil, dos avisos a serem divulgados com antecedência maior e maior precisão de acerto que esse avanço acontecerá. Temos que pensar também em uma arquitetura urbana mais sustentável e voltada para que existam zonas de amortização das cheias, evitando canalização de rios, criando mais áreas verdes.”
Estas práticas, conforme ele, além de representarem estruturas de mitigação de danos em caso de enxurradas, ajudarão a reduzir reflexos de períodos de calor intenso. Zasso utiliza Porto Alegre como exemplo de cidade que tem ilhas de calor em seus centros urbanos, demandando a instalação de parques, jardins e canteiros para atenuar os efeitos das altas temperaturas.
Outro desafio é evitar a ocupação de áreas próximas a lagos, rios e canais. “Áreas nas margens ocupadas por vegetação ciliar são essenciais para a prevenção do extravasamento da água. É importante o replantio dessas áreas e evitar a remoção das árvores, pois nos permite uma proteção natural”, diz o professor. Para Zasso, também é essencial para mudar a chave nos próximos anos a educação ambiental, tanto de estudantes como de gestores. “Precisamos entender como funciona nosso sistema hidrográfico e mais sobre os diferentes aspectos do clima e quais fatores interferem na nossa região.”
RESILIÊNCIA
A professora do Programa de Pós-Graduação em Qualidade Ambiental e líder do projeto Laboratório de Vulnerabilidades, Riscos e Sociedade (LaVuRs) da Feevale, Danielle Martins, destaca o processo de reconstrução resiliente e adaptada que o RS vem passando. Ela cita a importância de “reconstruir diferente”, buscando utilizar ao máximo soluções inovadoras, mas também baseadas no uso da própria natureza para auxiliar na adaptação. “Precisamos pensar em estruturas que incluam mecanismos na construção das cidades que consigam fazer elas suportarem eventos extremos, como picos de chuva ou ilhas de calor. Precisamos também olhar para a recuperação de áreas verdes e de proteção, como os banhados, que servem de esponjas naturais e que são soluções que a natureza já nos dispõe”, diz.
Sobre educação ambiental, Danielle ressalta a preparação da própria população frente a possíveis eventos climáticos. “As pessoas precisam estar constantemente preparadas com trabalhos de educação para perceber o clima, ter atuação assertiva em situações que vão exigir deles uma tomada de decisão. Embora a necessidade de aumentar as equipes que trabalham com gestão de risco, a população também precisa ter autonomia nas decisões.”
MEDIDAS ASSERTIVAS
Com relação às consequências de uma não adaptação climática adequada, ambos pesquisadores entendem que o mundo já está vivendo um cenário em que as decisões de décadas passadas estão refletindo em dificuldades no enfrentamento de eventos extremos. “Daqui para frente, vamos ter que nos acostumar com esse tipo de situação adversa”, alerta Zasso. “E as consequências podem ser cada vez piores se nada for feito no sentido de resiliência climática e de ter prevenção que consiga dar conta desses eventos. As consequências podem ser as mesmas verificadas em 2024 e 2023 ou até piores.”
A professora da Feevale entende que, além da frequência, a intensidade dos eventos climáticos também poderá aumentar como consequência da falta do cuidados. “Muito do que observamos hoje deve ser intensificado no futuro se as medidas assertivas não forem adotadas. E essas medidas envolvem contexto local, mas também em nível global, como a redução das emissões de gases do efeito estufa que influenciam no aquecimento global”, completa Danielle.
⏩ Considerada urgente, a transição energética vai demorar
Aquecimento global, resiliência climática, redução das emissões de gases do efeito estufa e outros tópicos que permeiam a temática do clima e da sustentabilidade nortearam os debates da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), realizada em novembro, em Belém do Pará. Apesar dos avanços, principalmente na criação de um fundo para a manutenção de florestas tropicais, o evento ficou marcado pela falta de um compromisso claro no acordo entre os países sobre o fim da exploração dos combustíveis fósseis.
Para o professor da Escola de Humanidades da PUCRS Luciano Zasso, a transição energética para combustíveis renováveis e ecológicos deverá demorar ainda alguns anos em função do modelo estrutural e econômico da sociedade atual, que ainda depende do uso de combustíveis fósseis. Ele explica que ainda falta uma planta energética que consiga abastecer todas as demandas, principalmente a de veículos. “Até a produção de energia, por vezes, utiliza combustíveis fósseis. Temos que tratar da macroestrutura energética sendo entendida como sustentável e que não vá impactar em desequilíbrios climáticos, como estamos percebendo. Acredito que isso ainda vá demorar, no mínimo, mais uma década, para que a gente possa ter uma transição realmente efetiva. Para os países desenvolvidos, talvez demore menos. Mas para nós, aqui como países periféricos e em desenvolvimento, a dependência é ainda maior.”
O pesquisador exemplifica essa dependência de combustíveis fósseis por países como o Brasil com o projeto lançado semanas antes da COP30 pelo governo federal para avançar na prospecção de petróleo na foz do rio Amazonas. “Por esse direcionamento, conseguimos perceber que o processo é bastante lento.”
A professora da Feevale Danielle Martins também entende que a transição energética seguirá demorando por conta da infraestrutura em nível global que é adaptada ao uso, exploração e comercialização de combustíveis fósseis. Para ela, a transformação dessa realidade, aliada ao fomento de matrizes energéticas ecológicas, não será tão rápida por demandar altos investimentos para ocorrer de fato. “A população tem grandes expectativas com esses eventos, como a COP30, para que os governos tomem as devidas medidas, mas compreendemos que isso vai exigir um tempo. Porém, talvez o que ainda não esteja claro é que já vivemos em um cenário de consequências sérias relacionadas ao uso de combustíveis fósseis de forma desmedida. Se as medidas adequadas não forem adotadas com uma rapidez maior, os efeitos das mudanças do clima vão se intensificar”, reforça.
AGRAVAMENTO
Zasso aponta como efeito dessa demora o agravamento dos desequilíbrios climáticos, assim como o aquecimento ambiental. Segundo ele, a temperatura global poderá aumentar em 4ºC até o final do século, refletindo no aquecimento dos oceanos. Ainda citando o projeto de exploração de petróleo na foz do rio Amazonas, ele aponta os riscos ambientais relacionados com possíveis vazamentos no oceano. “Não é algo tão impossível de acontecer nesse novo campo de petróleo. Considerando toda a bacia amazônica, seria um desastre tremendo, com um impacto ambiental jamais visto sobre o que hoje é considerada a grande pérola que ainda temos, que é justamente a Floresta Amazônica.”
Danielle destaca ainda as consequências do aquecimento global na saúde da população. “Temos um comprometimento no desenvolvimento de crianças, na qualidade de vida de idosos, nos processos de aprendizagem escolar e no dia a dia de comunidades que não possuem meios para se proteger das ondas de calor. Os efeitos são inúmeros, partindo da saúde até as questões agrícolas. Temos hoje um setor de produção de alimentos altamente impactado pelas mudanças do clima, causando prejuízos e insegurança alimentar. Tudo isso impacta na economia, fazendo com que governos precisem de fundos para auxiliar as populações e atividades.”
⏩ RS: presente e futuro da reconstrução
Desde que enfrentou as tragédias climáticas de 2023 e 2024, o Rio Grande do Sul vem passando por processos de reconstrução resiliente. A própria COP30 se tornou vitrine para o governo do Estado apresentar as ações promovidas e as oportunidades disponíveis em termos de resiliência. Para a secretária do Meio Ambiente e Infraestrutura, Marjorie Kauffmann, a conferência serviu para, além de mostrar as ações, comprometer o Estado na pauta da redução das emissões de gases de efeito estufa.
Ela também destaca a entrega dos roteiros de descarbonização das cadeias agropecuárias do RS, com sugestão de novas práticas para serem tomadas nos campos para a redução de emissões na cadeia produtiva, como troca de combustível, diferentes adubações, técnicas de manejo do solo e distribuição. E citou a assinatura do contrato entre o governo, por meio do Badesul, e a empresa Be8 para implantação do primeiro posto de abastecimento de hidrogênio verde em Passo Fundo.
PROJETOS
Das ideias, ferramentas, metodologias e projetos em âmbito nacional e internacional para trazer ao Estado, a secretária aponta a cooperação técnica entre o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) para executar projetos de adaptação climática e resiliência urbana nos municípios gaúchos. Entre os programas, estão ações de recomposição de vegetação, restauração de margens de rios, drenagem sustentável e infraestrutura verde para reduzir riscos de enchentes e deslizamentos.
Na COP, também foi detalhado o Plano de Transição Energética Justa para as regiões carboníferas, que é voltado para esses habitantes e que estuda as potencialidades da área para a transição. Segundo a secretária, o aporte energético que o RS teve nos últimos cinco anos foi suprido por energia renovável. Diz ainda que o carvão representa pequena parcela das emissões no Estado. “É a gente gradualmente deixar o uso desse energético que é proveniente de combustíveis fósseis e que tem emissão para outros energéticos e ir fazendo essa transição. O Rio Grande Sul chegou a um patamar que muitos jamais chegarão. O que não significa que a gente não vai querer ampliar mais a matriz renovável, mas nós temos que ir destravando os nós que nos impedem de abandonar esses combustíveis.”