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Perspectivas: os rumos e desafios diante da nova composição etária no Brasil

Aumento crescente da população acima dos 60 anos no Brasil exige ações comportamentais e políticas públicas em saúde e saneamento básico

Melhorias em saúde e saneamento se relacionam diretamente com a qualidade de vida
Melhorias em saúde e saneamento se relacionam diretamente com a qualidade de vida Foto : José Cruz / Agência Brasil / CP

A fotografia do Brasil está mudando. Nos próximos anos, a pirâmide etária brasileira deve ter consideráveis alterações. Isso porque projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que, em menos de cinco décadas, pessoas com mais de 60 anos vão corresponder a cerca de 38% da população brasileira. Essa nova realidade fará com que envelhecer com autonomia e de forma saudável deixe de ser opção e se torne também política de saúde.

Conforme o IBGE, a mudança ocorre ainda na expectativa de vida da população ao nascer, que saiu de 71,1 anos em 2000 para 76,4 em 2023. Em 2070, o índice poderá chegar aos 83,9 anos. O instituto aponta que muitos fatores ajudam a compreender essa nova projeção da composição etária do Brasil, como industrialização, queda da fecundidade e melhora nas condições de saúde, como nutrição e saneamento básico.

O censo de 2022 do IBGE apresenta cenário atual do Rio Grande do Sul e aponta uma projeção para o futuro do Estado com relação à sua população. Cerca de 10,8 milhões de pessoas residiam no RS no ano em que a pesquisa foi realizada. A estimativa do instituto é de que o pico de população será registrado em 2026, com 11,23 milhões. Em seguida, a curva habitacional não cresce mais, segundo o IBGE.

Em 2070, quando a expectativa de vida deverá chegar aos 83,9 anos no Brasil, o RS poderá ter uma população de apenas 9,1 milhões de habitantes, registrando um déficit de mais de 2 milhões em 45 anos. Ainda conforme os dados do IBGE, Porto Alegre registrou queda populacional entre os censos de 2010 e 2022, perdendo cerca de 800 mil habitantes. No interior gaúcho, parte das cidades também contabilizou redução no número de moradores.

POPULAÇÃO GAÚCHA

O economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, compara ainda esse indicativo de queda na população do RS com mapas de regiões mais afetadas por estiagem no Estado. Segundo ele, a queda na população é maior em cidades que mais sofreram com o fator climático nas últimas décadas. Os reflexos da fuga de população economicamente ativa para outras regiões do país é um dos fatores que reflete na falta de mão de obra qualificada no Estado. “Quanto mais estiagem, mais fluxo de saída de pessoas do município. Não estamos falando apenas de economia, mas também das pessoas saírem de suas casas. É um problema demográfico grave. Nós estamos perdendo pessoas. E não são as mais velhas que estão saindo. São jovens que estudaram em boas escolas e em boas faculdades, mas não querem ficar aqui”, lamenta o economista da Farsul.

Além da fuga de jovens e adultos para outros estados e queda nas taxas de fecundidade, o RS vem registrando aumento no número de pessoas acima dos 60 anos. O censo demográfico de 2022 apresentou ainda uma significativa elevação do índice de envelhecimento no Estado. Em 1970, o Estado tinha 14,8 idosos (pessoas com 65 anos ou mais) a cada 100 jovens. Na última pesquisa do IBGE, eram 80,35 idosos para cada 100 jovens no Rio Grande do Sul, o número mais alto do índice no Brasil.

A população na faixa acima dos 60 anos mais que triplicou no Estado nas últimas cinco décadas, passando de cerca de 6% em 1970 para próximo dos 20% em 2022. Tais dados indicam a necessidade de políticas públicas em diversas áreas, principalmente socioeconômicas, mas também aquelas relacionadas à saúde de uma população com uma expectativa de vida cada vez maior.

⏩ Ações necessárias com a nova realidade populacional

Considerando essa projeção de realidade populacional brasileira, o oncologista, epidemiologista e coordenador do Centro de Medicina de Estilo de Vida e Longevidade Saudável do Hospital Moinhos de Vento (HMV), Alexander Daudt, diz que promover o envelhecimento com saúde é uma escolha e uma questão de política pública. Ele aponta que, paralelamente ao aumento da expectativa de vida do brasileiro, cresceu também a mortalidade por doenças crônicas relacionadas ao estilo de vida, como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e câncer.

“O fato de 80% destas doenças serem o resultado ou efeito de como as pessoas vivem e, portanto, passíveis de prevenção através da adoção de hábitos saudáveis, deixa claro a necessidade urgente de uma mudança estrutural da nossa sociedade a começar por nós mesmos. Para alcançar uma longevidade saudável com autonomia para realizar nossos propósitos, precisamos desenvolver a cultura de redesenhar a saúde pública, as cidades e os mercados de serviços em torno da capacidade funcional das pessoas, e não apenas da doença”, explicou o médico.

Para Daudt, as políticas concretas para atender a necessidade de envelhecimento saudável incluem a prevenção e a promoção da saúde ao longo do ciclo de vida da pessoa, com foco nos hábitos saudáveis, investimento em atenção primária e cuidados integrados, promoção de ambientes amigáveis à pessoa idosa, uso de tecnologia e inovação, ações intersetoriais e parcerias público-privadas e o fortalecimento do papel das escolas e instituições de ensino no tema. “Tais políticas podem ser planejadas e medidas em horizontes de médio e longo prazo, com metas mensuráveis como redução de fragilidade relacionadas a óbitos associados às quedas e fraturas, anos vividos com autonomia, taxa de hospitalizações evitáveis, redução da prevalência de sobrepeso/obesidade e depressão”, completa Daudt, que é certificado em Medicina de Estilo de Vida pelo American College of Lifestyle Medicine (ACLM).

O especialista reforça a necessidade de que as próprias pessoas promovam mudanças ou adaptações comportamentais para promover o bem-estar e fomentar a longevidade com hábitos diários. Para isso, ele destaca os seis pilares da Medicina de Estilo de Vida: atividade física regular; alimentação equilibrada; qualidade do sono; redução do sedentarismo; gerenciamento do estresse; e evitar uso de substâncias nocivas. “Essas ações comportamentais, quando adotadas de forma integrada e personalizada, promovem não apenas maior longevidade, mas também autonomia e qualidade de vida na população idosa. Ele destaca que, a partir do desenvolvimento de pequenas metas e acompanhamento continuado, é possível, imediatamente, a adoção de hábitos saudáveis, e, adiante, a prevenção das doenças crônicas ou o melhor desempenho funcional e controle da doença.

FALTA DE POLÍTICAS

O médico reforça ainda que, caso não sejam aplicadas as ações públicas, privadas e comportamentais, as consequências futuras incluem o aumento significativo de doenças crônicas, incapacidades funcionais e dependência, levando a uma piora na qualidade de vida. Tal reflexo poderá levar ainda a uma maior demanda por cuidados de longa duração, sobrecarga nos serviços de saúde e elevação nos custos assistenciais. “A ausência de políticas preventivas e de promoção da saúde acarreta maior incidência de hospitalizações, institucionalizações e complicações evitáveis. O sistema de saúde enfrenta dificuldades para atender à complexidade clínica dos idosos, agravando a escassez de profissionais capacitados e a fragmentação do cuidado.”

Para Daudt, as consequências poderão ser sentidas, principalmente, no âmbito socioeconômico. Ele aponta impactos negativos na produtividade, no aumento dos gastos públicos e privados com saúde e previdência, e no risco de insustentabilidade dos sistemas de proteção social. Além disso, poderão ser sentidos reflexos sociais como maior isolamento, exclusão e vulnerabilidade dos idosos. “A falta de ações integradas compromete não apenas a saúde e autonomia dos idosos, mas também a eficiência, equidade e sustentabilidade do sistema de saúde e da sociedade como um todo”, destacou. Sem políticas e mudança cultural, a longevidade pode transformar-se numa longa dependência de tratamentos de alto custo acessíveis somente a uma parcela da população, socialmente injusta e financeiramente insustentável.”

⏩ Qualidade de vida e saneamento básico

Além de ações comportamentais e políticas públicas de saúde para a nova realidade da pirâmide etária brasileira, outro tema que está relacionado diretamente com a qualidade de vida no presente e no futuro da sociedade é o saneamento básico. No primeiro quarto de século, uma importante política pública sobre o tema foi a implantação do Marco Legal do Saneamento, que prevê a universalização do acesso da população à água e esgoto, com cobertura de 99% do primeiro e 90% do segundo até 2033.

Apesar disso, muitas cidades enfrentam dificuldades em atingir a meta por diversos fatores. Relatório divulgado em 2025 pelo Instituto Trata Brasil aponta, por exemplo, que o índice de tratamento de esgoto em Porto Alegre estava em 42,66% em 2023. Já o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) trabalha com o índice em 52% da cobertura de esgoto tratado na Capital. O índice de esgoto coletado está em 91,76% e o abastecimento de água já foi universalizado.

O próprio Dmae aponta que o principal gargalo para atingir a universalização do tratamento do esgoto em Porto Alegre está na infraestrutura. O desafio, conforme o departamento, é na condução do esgoto até as estações de tratamento, além da separação da água da chuva (esgoto pluvial) daquilo que é, de fato, o esgoto residual (cloacal). “Esse volume de esgoto não chega às estações. O que falta são redes coletoras e separadores absolutos. É preciso instalar novas redes e separar a água da chuva do esgoto cloacal, para que o sistema possa conduzir o material até as estações de bombeamento e, depois, às estações de tratamento”, explicou o diretor-geral da autarquia, Vicente Perrone, em entrevista ao Correio do Povo em outubro.

Antecessor de Perrone no cargo de diretor-geral do Dmae, Bruno Vanuzzi já havia afirmado anteriormente que o projeto de parceirização, que prevê a concessão do serviço de saneamento, é uma das formas de solucionar o desafio. Também em entrevista ao CP, enquanto estava no cargo, ele afirmou que a capital gaúcha já havia “ficado para trás” no tema saneamento em outras oportunidades.

Atualmente, Vanuzzi atua como secretário municipal de Parcerias do Saneamento de Porto Alegre. “A falta de saneamento é também um problema de saúde pública. E a forma como o Brasil inteiro vem endereçando essa solução é com grandes contratos. (a parceirização) É uma decisão que não podemos ficar adiando. Estamos perdendo tempo por discussões que não se sustentam nem no âmbito ideológico. Porto Alegre tem projetos para chegar a 60%, mas definitivamente não até 90%. Precisamos acelerar o processo e essa (concessão) é a melhor forma”, completa Vanuzzi.

Em parte do restante do RS, a Corsan, concedida à iniciativa privada em 2023, tinha apenas 20% da cobertura do esgoto em sua área de atuação quando ocorreu a privatização. Desde então, a companhia, que agora pertence à Aegea, tem uma projeção de investimento de R$ 15 bilhões até 2033 para atender a meta. Até o momento, R$ 3,85 bilhões já foram investidos pela Corsan Aegea.

A previsão é de que o investimento na universalização ainda possa gerar R$ 40,7 bilhões em ganhos sociais até 2040, com impacto positivo em áreas como saúde pública, valorização imobiliária e preservação ambiental. Dos cerca de 11 milhões de habitantes no Estado, a Corsan Aegea é responsável por atender 6 milhões de gaúchos em sua área de atuação.

⏩ Medidas mais urgentes

O biólogo, doutor, especialista em análises toxicológicas e professor do Programa de Pós-Graduação em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale Günther Gehlen aponta a relação direta entre saúde, bem-estar, a nova realidade populacional brasileira e o saneamento básico. Ele cita, por exemplo, as dificuldades que uma população idosa crescente poderá ter vivendo em ambientes não favoráveis. “A falta de tratamento de esgoto contamina os corpos d’água, como nascentes, arroios e banhados. Essa contaminação cria reservatórios de patógenos e bactérias resistentes a antibióticos. Para um idoso, uma infecção gastrointestinal, comum em áreas sem saneamento, pode ser fatal ou deixar sequelas permanentes. Quanto mais poluirmos, maior o risco.”

Ele destaca a necessidade de investir em infraestruturas de drenagem e esgotamento adequados, evitando que a água da chuva e o esgoto se misturem em caso de enxurradas e eventos extremos, cada vez mais frequentes. Para o pesquisador, é preciso mudar a cultura da “engenharia cinza” e partir para um modelo híbrido, onde o saneamento é elemento essencial e integrado à paisagem das cidades, quebrando o entendimento de que esgoto é “dinheiro enterrado”.

CRISES SANITÁRIAS

Caso essas mudanças não sejam feitas no saneamento, o pesquisador aponta a possibilidade de o país enfrentar crises sanitárias cada vez maiores. Ele destaca os dados relacionados às doenças de vinculação hídrica que foram registrados pelo SUS. De acordo com o um estudo do Instituto Trata Brasil, que tem como base dados do DataSUS 2024, no ano passado foram mais de 344 mil internações por Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado (Drsai) no país.

Apenas entre as pessoas com mais de 60 anos de idade foram registradas 80,9 mil internações, ou 23,5% do total de internações por Drsai no país em 2024. Ao todo, o RS contabilizou 12.222 internações por doenças relacionadas com a falta de saneamento básico. Entretanto, no índice de casos a cada 10 mil habitantes, o Estado tem a menor taxa da região Sul e a terceira menor considerando os estados do Sul e do Sudeste.

Os dados apontam que a falta de saneamento custa milhões em internações para os cofres públicos. “Os idosos podem até viver mais, mas doentes. A exposição contínua a ambientes insalubres, como com água contaminada e falta de tratamento de esgoto, gera agravamento e comorbidades, em especial nesse público. E quanto mais carente, maior o impacto”, alerta.

PARADIGMAS

O professor da Feevale afirma que o principal desafio a ser enfrentado é o de romper paradigmas do sistema, que tradicionalmente investe pouco na área. Para ele, o modelo considerado tradicional, com grandes estações de tratamento, pode se tornar insustentável em grande parte, pois tem altos custos para instalação e operação. “Precisamos focar em modelos com uma maior sustentabilidade operacional, revendo as estações de tratamento convencionais que consomem muita energia e produtos químicos e, em geral, apresentam baixa eficiência. O desafio é primeiro mitigar estes custos com sistemas híbridos e gradativamente migrar para modelos de baixa emissão de carbono, menor custo energético e mais integrados à sociedade, ao mesmo tempo que nos alinhamos às metas climáticas globais”, contou.

Gehlen vê que outro desafio está na proteção de mananciais e na captação de água. E diz que um dos motivos que impedem a universalização do saneamento é a visão fragmentada do tema. “Resolve-se a coleta de esgoto, mas não a drenagem.” Entre as soluções indicadas, estão o fortalecimento de tecnologias alternativas e integradas, que considerem as características de cada localidade e o desenvolvimento de usinas modernas, que tratam água e efluentes e ainda transformam resíduos em insumos para serem reutilizados ou gerarem energia.

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