Estudo da Secretaria da Educação do RS projeta estabilidade no número de estudantes até 2030, mas alerta para a aposentadoria de quase metade do quadro docente. Já especialistas apontam desvalorização da carreira, perda de atratividade e impactos prolongados da pandemia e das enchentes sobre a aprendizagem das crianças.
O sistema educacional do Rio Grande do Sul atravessa um período de reestruturação. O envelhecimento do corpo docente, a queda no interesse pelas licenciaturas e os efeitos acumulados da pandemia e das enchentes de 2024 formam um cenário de alerta para a rede pública estadual. Com uma população em envelhecimento e menor taxa de natalidade, o Estado enfrenta o desafio de manter o número de professores e recuperar a alfabetização das crianças, duas dimensões centrais para a sustentabilidade da educação gaúcha na próxima década.
O RS tem hoje 52 mil professores na rede estadual, dos quais cerca de 39 mil estão em sala de aula. Segundo projeção da Secretaria Estadual da Educação (Seduc), será necessária a manutenção de 40 mil educadores até 2030, mas 22 mil devem se aposentar nesse período. A secretária adjunta, Stefanie Eskereski, destaca que o número de alunos deve permanecer estável. “Não teremos redução do número de estudantes nos próximos sete anos. Portanto, o número de educadores não pode cair.”
Levantamento do CPERS Sindicato confirma a tendência de redução: entre 2006 e 2022, o número de professores efetivos caiu 57,7%, de 74.163 para 31.309. A queda é atribuída à falta de concursos, à desvalorização da carreira e ao envelhecimento dos profissionais. Além da retração no quadro efetivo, 55% dos professores da rede têm formação em Pedagogia, mas há carência em Física, Matemática e alfabetização. A Seduc reconhece ainda a queda no interesse de jovens pela docência, o que compromete a renovação do magistério.
Para reverter o quadro, o Estado informa que mantém iniciativas de estímulo à formação e de recomposição do corpo docente. O programa Professor do Amanhã, criado em parceria com universidades comunitárias, prefeituras e a Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia, já concedeu 2 mil bolsas de licenciatura. Entre 2023 e 2025, o governo chamou 7,5 mil novos professores concursados, concedeu promoções a 28 mil profissionais, investiu na qualificação de 12 mil educadores e manteve o pagamento do piso nacional do magistério. Stefanie afirma que novas convocações estão previstas para 2026, como forma de garantir a continuidade da rede.
O desafio, porém, não se limita à recomposição. Dados da própria Seduc indicam que, de cada 100 crianças que ingressam na escola, 67 abandonam antes do fim do ciclo, a maioria a partir do oitavo ano do ensino fundamental. “O desafio é manter os alunos até o fim do ciclo escolar, o ensino médio”, diz a secretária ajunta.
Já a doutora em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Ufrgs e pesquisadora na linha de Políticas e Gestão de Processos Educacionais Ângela Chagas avalia que a crise do magistério é estrutural. “Vivemos um apagão da docência, não apenas no Rio Grande do Sul, mas em outros estados. A queda na procura por cursos de licenciatura reflete a precarização da carreira, o cerceamento da liberdade de ensinar e o aumento da violência nas escolas”, analisa. Segundo ela, reformas na carreira do magistério e no IPE Saúde reduziram benefícios históricos e tornaram a profissão menos atrativa. “Há muitos conflitos dentro da escola que afetam o trabalho docente e levam ao adoecimento e à evasão de profissionais”, acrescenta.
Com o envelhecimento populacional apontado pelo IBGE e a queda na taxa de natalidade, o Estado deve ter turmas menores e redes mais concentradas, o que exige planejamento para redistribuir escolas e investir em formação especializada. Especialistas defendem que, mesmo com menor número de crianças, a demanda por professores qualificados continuará alta, sobretudo em áreas técnicas e de alfabetização.
⏩ Desafios na alfabetização
Na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, o maior desafio é recuperar a alfabetização das crianças. De acordo com o Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do RS (Saers), o Estado registrou queda de 5% na taxa de alfabetização em 2024, na comparação com o período anterior às enchentes daquele ano. Em diversas regiões, as escolas ficaram fechadas por mais de três meses, agravando as perdas já acumuladas na pandemia de Covid-19. No mesmo período, a média brasileira subiu 3%.
A Secretaria Estadual da Educação (Seduc) aponta o programa Alfabetiza Tchê como principal instrumento de enfrentamento, ao promover atividades complementares de leitura e escrita e avalia a fluência leitora dos alunos, com apoio de 400 professores dedicados exclusivamente à alfabetização. Materiais pedagógicos elaborados em parceria com os municípios e kits de leitura são distribuídos às escolas.
A meta do Plano Nacional de Educação (PNE) é atingir 70% das crianças alfabetizadas até o segundo ano do ensino fundamental em 2025 e 80% até 2030. Apesar da retração momentânea, a Seduc diz que o Estado mantém indicadores compatíveis com a meta intermediária. Os resultados do Saers referentes a 2025 serão conhecidos no primeiro semestre de 2026. “Temos convicção de que alcançaremos a meta de 80% para 2030”, diz a secretária ajunta Stefanie Eskereski.
Para a pós-doutora em Educação e professora no Programa de Pós-Graduação em Diversidade Cultural e inclusão social da Universidade Feevale Suelen Bomfim Nobre, a retomada da alfabetização gaúcha depende de investimentos estruturais e formação especializada. “Mesmo antes da enchente, 80% dos professores não tinham especialização em alfabetização. É preciso investir pesado em capacitação e ampliar o número de profissionais multidisciplinares. O pedagogo sozinho não dá conta.”
Suelen lembra que muitas bibliotecas foram destruídas pelas cheias e faltam bibliotecários e psicólogos educacionais nas redes. “A formação continuada é um braço importante do processo, mas a alfabetização passa pela merenda escolar, pela valorização do educador e pelas condições de trabalho. Não podemos ter turmas de 30 alunos nem salas sem climatização adequada.”
A pesquisadora também ressalta que avaliar apenas indicadores não traduz a realidade da aprendizagem. “Sem olhar para a estrutura ofertada, qualquer número se torna insuficiente para medir a qualidade do ensino.”
⏩ O impacto das enchentes
Depois das enchentes que afetaram quase todo o território estadual em maio de 2024, a Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul realizou mapeamento dos danos em escolas estaduais. Dos cerca de 2.338 estabelecimentos estaduais, 21 foram classificados com alto grau de impacto, exigindo reconstrução, incluindo obras de novas unidades fora de áreas de risco para acomodar migrações populacionais decorrentes das inundações.
Nesse processo, foram incorporadas práticas como revezamento de turmas, ensino híbrido ou remoto em algumas unidades, a fim de manter a continuidade do ensino mesmo durante fases de recuperação. Na retomada, em termos quantitativos, quase 99,9% das escolas estaduais voltaram às aulas presenciais poucos meses após as enchentes, segundo divulgação oficial da secretaria.
A Seduc informa que, em 2025, instituiu um projeto de formação para planos de contingência escolar voltados a eventos climáticos extremos, em parceria com organizações especializadas e a Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil. Essa formação abrange noções de adaptação à variabilidade climática, elaboração de planos de emergência e mitigação de impactos futuros nas unidades escolares.
⏩ Indicador nacional analisa situação no RS
O Ministério da Educação (MEC) usa o Indicador Criança Alfabetizada, compilado pelo INEP, para medir quantos alunos do segundo ano do ensino fundamental conseguem ler e escrever textos simples e produzir escrita funcional. Essa avaliação é realizada anualmente com dados de todas as escolas públicas por meio de adaptações de exames estaduais, padronizados para fins comparativos. Além de buscar a alfabetização até o 2° ano do ensino fundamental, a iniciativa busca a recuperação das aprendizagens das crianças do 3°, 4° e 5° anos afetadas pela pandemia. No Rio Grande do Sul, o ministério foca também os efeitos da enchente.
O MEC define como alfabetizada a criança que atinge proficiência mínima de 743 pontos na escala nacional em testes que envolvem compreensão de leitura, escrita e produção textual. No caso do RS, os resultados são derivados do Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar (Saers).
Conforme o indicador, o Brasil atingiu 59,2% de crianças alfabetizadas em 2024, abaixo da meta de 60% fixada para o período. O recuo verificado no Rio Grande do Sul foi considerado um dos fatores decisivos para que o país não alcançasse a meta, de acordo com o Ministério. Segundo o levantamento federal, o RS caiu de 63,4% para cerca de 44,7% no percentual de crianças alfabetizadas na idade certa, uma das maiores reduções já registradas em um único ciclo de avaliação.
O ministro da Educação, Camilo Santana, afirma que os resultados gaúchos refletiram a magnitude das perdas educacionais provocadas pelas inundações e a dificuldade de recompor as aulas presenciais após a destruição de escolas e materiais didáticos na catástrofe.
REORGANIZAÇÃO
Projeções do IBGE indicam que o Rio Grande do Sul deve manter uma das populações mais envelhecidas do país até 2040, com queda contínua na taxa de natalidade. Isso significa que o Estado terá menos crianças nas escolas, mas também maior demanda por qualificação continuada e ensino técnico, especialmente para adultos e idosos. Desta forma, será necessária uma reorganização da rede escolar, na visão das especialistas Ângela Chagas e Suelen Nobre, processo que deve estar centrado em planejamento de longo prazo, redistribuição regional de professores e investimentos em infraestrutura.
Ação articulada
- A política de alfabetização em curso no país segue as diretrizes do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, lançado em 2023. Esse programa articula União, estados e municípios na criação de planos locais de alfabetização, com metas graduais de avanço até 2030. O objetivo final é alcançar 80% das crianças alfabetizadas ao fim do 2° ano do ensino fundamental, meta alinhada às novas diretrizes do Plano Nacional de Educação (PNE).
- As enchentes, de acordo com o Ministério da Educação, não alteram a validade das metas nacionais, mas reforçam a necessidade de ações específicas de recomposição e monitoramento regionalizado para garantir comparabilidade justa entre redes afetadas e não afetadas por desastres.
Pandemia e cheias
- Entre 2020 e 2021, a pandemia de Covid-19 afastou estudantes das escolas por mais de um ano. Em 2024, enchentes em 478 municípios voltaram a interromper as aulas, com 95 cidades em calamidade pública. Em algumas cidades, escolas ficaram fechadas por mais de 70 dias e centenas de prédios perderam bibliotecas e acervos didáticos.
- Os dois episódios agravaram a defasagem escolar e interromperam o ciclo de alfabetização em fases críticas do desenvolvimento infantil.
Metas
- Meta em 2023: 63,4% das crianças alfabetizadas até o segundo ano
- 2024: 44,7% (queda de 18,7 pontos percentuais)
- Causa principal: enchentes e suspensão prolongada das aulas
- Meta em 2025: 70% de alfabetização
- Meta em 2030: 80%
- Professores com formação específica em alfabetização: cerca de 20%