Na teoria, faltam exatamente 365 dias para as eleições. Na prática, a campanha eleitoral começou no dia seguinte à eleição passada. A um ano de os brasileiros retornarem às urnas, em 4 de outubro, os partidos já iniciaram articulações para a disputa que decidirá presidente da República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais.
Na campanha para presidência, os dois atores da polarização correm suas próprias maratonas. Enquanto o presidente Lula (PT) trabalha para garantir a reeleição, a pressão sobre a escolha de quem será o nome que representará o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) aumenta.
Após um período de baixa na popularidade, Lula viu sua imagem ressurgir como candidato forte. Os fatores que levaram ao aumento na aprovação do governo são múltiplos e incluem desde a taxação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a produtos brasileiros até a condenação de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
Professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Rodrigo Stumpf Gonzalez explica que, ao adotar o discurso de defesa da soberania em resposta à ação de Trump, Lula conseguiu retomar para si a imagem de líder forte, responsável pelas benfeitorias ao país. O ápice foi a aprovação, na Câmara dos Deputados, do projeto de isenção do imposto de renda para quem recebe até R$ 5 mil. Em mais de um momento durante a votação, deputados reforçaram o discurso de que o projeto foi promessa de campanha petista. Além disso, Lula ainda deve colher louros políticos da medida no futuro, visto que, uma vez em vigor, a isenção irá gerar renda extra, aumentando o consumo e, assim, aquecendo a economia.
Gonzalez também pontua duas outras oportunidades para o presidente, a primeira é a possível reunião com Trump. “Mesmo se não der em nada, para ele (Lula), já vai ser uma vitória.” Isso porque a foto ao lado do presidente dos EUA servirá como mensagem de que Lula, diferente do discurso da oposição, também obtém respeito do norte-americano. “Recria a imagem de estadista.” Situação que será reforçada durante a COP30, em Belém, quando todas as atenções estarão voltadas para o presidente.
Com esse cenário, o petista ganha força nas articulações para sua base de apoio e partidos que poderiam deixar o barco recalculam rota. É o caso do MDB, por exemplo. Também entra nesse cálculo as tratativas estaduais, em que Lula negocia troca de apoio.
Oposição em busca de um representante
A soma desses fatores reforça a dificuldade para o outro lado do espectro político, que ainda não tem pré-candidato definido. Inelegível até 2030 e condenado a 27 anos e três meses de prisão, Bolsonaro, até pouco tempo, insistia no discurso de que seria candidato – apostando no projeto de anistia – e, assim, dificultando articulações concretas.
Mesmo que publicamente não assuma que possa concorrer à presidência da República em 2026 e de já ter sinalizado que poderia vir a disputa a reeleição no governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem aparecido nas pesquisas de intenção de votos e bem posicionado. Recentemente, ganhou destaque ao abraçar a pauta da anistia, inclusive se envolvendo nas negociações no Congresso. Ex-ministro de Bolsonaro, ele mantém relação próxima com o ex-presidente.
Mas outros nomes também postulam esse espaço, como o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo). Na última quinta-feira, ele anunciou que deixará o comando do Palácio da Liberdade para concorrer à presidência e, embora não seja o nome mais próximo do bolsonarismo, prometeu indulto ao ex-presidente caso eleito. Na avaliação de Gonzalez, Zema é pouco conhecido nacionalmente, ainda que governe um Estado importante.
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O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), foi o primeiro à direita a lançar sua pré-candidatura ao Planalto, em abril deste ano. Apesar do discurso temeroso de que a direita pode se separar, o que facilitaria uma eleição para Lula, Caiado não parece inclinado a abrir mão de ser candidato em nome de uma unidade, mas também almeja o apoio do ex-presidente, ciente da sua força eleitoral. De olho nisso, também prometeu que, se eleito, daria um indulto a Bolsonaro. Para Gonzalez, o governador de Goiás tem um “jeitão” parecido com o do ex-presidente, o que agrada um eleitorado mais bolsonarista, mas esbarra no quesito de alianças, já que Caiado é um muito ligado ao setor do agronegócio.
Eduardo Bolsonaro, autoexilado nos EUA desde abril, também se apresentou como pré-candidato. Por hora, o deputado federal do PL não pretende voltar para o Brasil, sob justificativa de que “seria preso sem motivo”, mas afirmou que não vê empecilhos em fazer “campanha à distância”. Ele confia ser o único nome possível para suceder o pai, apostando na transferência direta de votos, e considera mudar de partido para viabilizar sua candidatura. Ele saiu desgastado do processo de sobretaxação dos EUA sobre os produtos brasileiros, foi indiciado por coerção e corre o risco de perder o mandato por excesso de faltas na Câmara.
A ex-primeira dama Michelle Bolsonaro também é cotada e ela já admitiu a possibilidade. Ela também figura como nome para a vice numa chapa.
Centro é ‘balão de ensaio para 2030’
“Balão de ensaio para 2030”, assim definiu o professor Gonzalez sobre quaisquer candidaturas que se apresentam como centro, adotando o discurso de “fugir da polarização”. É o caso do governador Eduardo Leite (PSD), que almeja disputar uma vaga ao Planalto. Se decidir, de fato, concorrer, antes precisará disputar dentro do seu novo partido, já que o governador do Paraná, Ratinho Jr., também se apresenta como pré-candidato.
A diferença é que o paranaense não se apresenta como centro. Assim como Tarcísio, Zema e Caiado, Ratinho Jr. também gostaria do aval de Bolsonaro. O governador tem viajado pelo país em uma espécie de campanha antecipada e vai com recorrência a São Paulo para encontro com lideranças políticas e empresários, tentando endossar sua pré-candidatura.