Especial

Por que o futebol ficou tão imediatista?

Foto : Leandro Maciel

O jogo dura 90 minutos. O futebol, contudo, dura muito mais. Não termina quando o árbitro apita o fim da partida. Enquanto os jogadores vão para o vestiário, é a vez de o torcedor comemorar a vitória, lamentar a derrota ou simplesmente planejar o próximo capítulo. E como ele não é uma ilha, a experiência completa só acontece quando essas situações são compartilhadas. É aí que reside a graça da coisa. “O futebol é muito comentado. É o fenômeno que é não porque é visto ou noticiado, mas porque é comentado”, bem define o jornalista Marcelo Barreto, apresentador do canal SporTV.

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Pois bem, agora imagine que, em vez daquele pequeno círculo de amigos reunidos no estádio ou em casa, o alcance dos seus comentários não tem mais fronteiras. Porque foi exatamente isso que aconteceu no cenário do futebol - e de tudo mais - nas últimas décadas a partir de um mundo conectado pela internet e depois anabolizado pelas redes sociais.

“Antes, na época em que só os veículos de comunicação tratavam com futebol, acontecia o jogo e o cara com seus cinco, seis amigos no boteco discutia o que tinha acontecido. Hoje, depois do jogo, através das redes sociais, são milhões de pessoas interconectadas repercutindo uma partida. Tudo ganha mais força, tudo ganha um estofo maior”, afirma o jornalista Fabiano Baldasso, do Canal do Baldasso e do Debate Raiz.

Se em uma conversa de bar, com meia dúzia de envolvidos, às vezes já é difícil saber para onde dirigir a atenção, num mundo interconectado, com todos falando ao mesmo tempo, a dificuldade só aumenta. Com uma grande diferença: todas as análises são feitas em tempo real e quase sempre em caráter definitivo. “As definições de quem é craque, se o técnico é bom ou ruim, tudo vira o melhor time de todos os tempos da última semana”, aponta o jornalista André Rizek, do canal SporTV.

A mudança de marcha tornou a máquina futebol muito mais veloz e com isso todos os passageiros tiveram que se adaptar. “Antes das ferramentas tecnológicas serem tão imediatas, a coisa tinha mais tempo para ser trabalhada, como a repercussão de um jogo ou a construção de uma solução para uma crise”, reflete o ex-presidente do Inter, Marcelo Medeiros.

O futebol ficou instantâneo

O dirigente lembra que no período pré-internet, a discussão sobre o que aconteceu no jogo de domingo, só viria na segunda-feira, nos jornais e programas de debate na rádio. Por outro lado, observa que é tanta informação o tempo todo que as discussões ditas urgentes também passam rápido: “Hoje, o futebol é instantâneo. As crises são assim, é tudo imediato. Mas logo aparece outra crise e aquela anterior passou. Então, claro, tu tem que estar preparado, mas não pode dar tanta importância assim”.

Mesmo para quem cresceu em paralelo à expansão da internet, como é o caso de jogadores mais jovens, o processo nem sempre é fácil. “É um mundo novo, eles já estão acostumados com isso, mas é importante que a gente ensine a lidar com a situação. Antigamente, a crítica chegava no outro dia, no jornal ou na rádio. Hoje ela é instantânea. O que tu faz, em questão de minutos todo mundo está sabendo”, afirma o ex-jogador Diego Barcellos, hoje técnico da categoria sub-13 do Inter e mais conhecido por ter formado dupla com o irmão gêmeo Diogo no Colorado.

Tamanha pressa tem consequências nem sempre tão perceptíveis, mas que estão, pouco a pouco, enfraquecendo uma geração no longo prazo. E pior, se trata de um processo sem inocentes, desde o clube e a imprensa, até o próprio entorno dos atletas.

“Com esse negócio da globalização, é muito fácil que as informações cheguem rápido, só que ninguém mais tem tolerância. Não tem tempo de maturação do garoto, a família quer logo a transferência, o clube quer vender”, alerta Rodrigo Caetano, coordenador executivo geral das Seleções Masculinas da CBF.

De acordo com ele, era mais comum o jovem subir para os profissionais mais perto dos 20 anos, tempo suficiente para correções técnicas e táticas. Hoje, não há tempo a perder. “Tudo é para ontem. Muitas vezes se joga no mercado jogadores que não estão prontos. Não se tem tolerância na questão da formação, o nível de exigência é para ontem. Hoje, um garoto com 16, 17 anos já sobe e é exigido”, afirma.