Porto Alegre levará à 30ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém do Pará, um relato de reconstrução, aprendizado e cobrança por mais ação diante da crise climática. Às vésperas da viagem, o prefeito Sebastião Melo detalhou que a Capital apresentará o trabalho realizado desde a enchente de 2024, mas também vai defender uma postura prática e cooperativa entre governos.
A comitiva embarca neste domingo e permanece no evento até sexta-feira (14), com uma agenda concentrada em painéis e encontros de prefeitos de todo o mundo. “Eu não poderia deixar de estar na COP do Brasil, pelo simbolismo de ser aqui e também por tudo que passou a cidade, os enfrentamentos que tivemos, a superação que alcançamos e os desafios que ainda temos pela frente”, afirmou Melo.
O prefeito destacou que, embora já tenha participado de conferências e fóruns internacionais, esta será a primeira vez em que ele comparece a uma conferência do clima. “Porto Alegre levará o enfrentamento que fizemos até agora, os avanços que tivemos e os desafios que temos pela frente”, reforçou.
O prefeito participou, ao longo da última semana, de uma cúpula internacional de prefeitos no Rio de Janeiro, encontro que reuniu gestores de grandes cidades brasileiras e mundiais, como Los Angeles, Londres e Paris. Ele afirmou que a troca de experiências já funcionou como uma espécie de pré-COP, preparando o terreno para o debate que se intensificará em Belém. “Acho que essa questão climática é um desafio do mundo, de todos os governos, mas os governos nacionais e subnacionais têm discutido muito e feito pouco. A minha fala lá vai ser de que chega de falar e vamos fazer”, declarou.
Para Melo, é essencial que os compromissos assumidos nas conferências internacionais saiam do papel. “Todo mundo fala em Acordo de Paris, em reduzir gases de efeito estufa, mas, quando vai para a prática, isso não está acontecendo na maioria das cidades”, disse. Ele defende uma abordagem que combine três pilares: prevenção, mitigação e adaptação. “Tem que ter inventário, saber como mitigar e como proteger. Isso é enfrentar a questão climática na prática.”
Entre os exemplos que o prefeito pretende apresentar na COP30 estão ações já implementadas em Porto Alegre, como o fortalecimento da Defesa Civil, a medição da qualidade do ar e o início da renovação da frota de transporte coletivo. “Hoje nós temos apenas 12 ônibus elétricos, comprados com muita dificuldade no final do primeiro mandato. Agora, por exemplo, está na Câmara um projeto para aquisição de 100 ônibus elétricos para a Prefeitura de Porto Alegre. Isso é uma demonstração clara de compromisso”, pontuou. Ele também citou o aumento do tratamento de esgoto e as medidas de proteção contra cheias como prioridades do município.
Melo destacou que Porto Alegre conta com o apoio técnico do ICLEI, instituição internacional parceira na pauta ambiental, e com a Universidade de Tecnologia de Delft (TU Delft), da Holanda, que desenvolve estudos sobre as áreas das ilhas da Capital. “Eles estão com oficinas em Porto Alegre e vão nos apresentar um estudo sobre o que pode ficar nas ilhas e o que não pode. Mas sou um democrata: ninguém tira ninguém de um território à força. Ou você convence ou não convence.”
Segundo o prefeito, o processo de reconstrução nas áreas de risco é um dos principais desafios e requer cooperação entre os entes federados e as comunidades locais. “A baixa renda sempre sofre mais quando há uma questão climática. Então, essa desigualdade precisa ser enfrentada, porque, sem combater a desigualdade social, também não há solução climática.”
Ele lembrou que cerca de 3 mil famílias já foram incluídas no programa Compra Assistida, com apoio do governo federal, e que novos empreendimentos do “Minha Casa, Minha Vida” estão previstos. “A dor foi grande, mas as janelas de oportunidade aparecem. A gente tem que aproveitar todas para fazer com que a cidade seja melhor”, afirmou.
Durante a COP30, Melo pretende também buscar oportunidades de financiamento para ampliar as ações de adaptação. “Estamos com um volume de financiamento bastante respeitável, na casa dos R$ 6 bilhões, envolvendo quatro financiamentos internacionais, alguns nacionais e parte do PAC. Tudo que for uma janela de oportunidade para conversar sobre recursos a fundo perdido para a questão climática, eu vou sentar e conversar”, disse.
Segundo ele, a comitiva de Porto Alegre será enxuta, composta por seis integrantes, incluindo o secretário de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade, Germano Bremm, e assessores técnicos. “Alugamos um apartamento lá, porque estava tudo muito caro, e vamos cozinhar no apartamento. Vamos ter uma vida simples e participar de tudo o que pudermos participar”, comentou.
O prefeito reforçou que espera levar à COP30 a voz da experiência e da prática, com um chamado à ação global. “A expectativa é que a gente saia do discurso e vá para a vida real. Porque, na vida real, começando pela China, pelos Estados Unidos e pela Rússia, os que mais falam, mas negam isso ao não colocar dinheiro”, criticou. Ele ressaltou, no entanto, que o enfrentamento climático não deve ser pautado por disputas políticas. “Não entro nesse tema com briga. Acho que tem que ser colaborativo”, completou.
Por fim, Melo defende que o enfrentamento da crise climática começa com uma mudança de comportamento. “Tem que ter uma cultura climática. Não se resolve o clima botando lixo na rua, nos arroios, nas bocas de lobo, andando com carros poluentes, não tratando esgoto. Tem que ter investimentos públicos, sim, mas também a parceria da sociedade, consumir menos e fazer uma reserva para o futuro”, concluiu o prefeito.