Especial

Portugal: Ensinamentos que vêm do outro lado do Atlântico

País europeu amplia a importância do turismo na economia local, busca a remodelação de produtos e traz inspiração a gaúchos

Foto : Mauren Xavier

É o misturar dos sons de diferentes idiomas na Praça do Comércio ou junto à Torre de Belém, que mesmo em obras atrai olhares, um sinal da diversificação dos turistas na capital portuguesa, Lisboa. É desse setor que vem a força econômica de Portugal. O World Travel & Tourism Council aponta que, após o desempenho recorde em 2024, a estimativa é que 2025 termine também com crescimento. O resultado positivo deve representar 21,5% do PIB.

Mas há detalhes não presentes nestes números. Algumas estratégias e reposicionamentos fazem parte desse crescimento. E, como se espera, não só de pontos positivos, mas desafios.

Após uma severa crise financeira, entre 2010 e 2014, em função da dívida pública, o país passou a investir em outros segmentos e, neste contexto, a inovação ganhou espaço. A transformação digital trouxe consigo estratégias para impulsionar as experiências de comércio e serviços, afetando diretamente os turistas.

O World Travel & Tourism Council aponta desempenho recorde do setor do turismo no país | Foto: Mauren Xavier

Professor da área de tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e integrante da diretoria da Turismo de Portugal, autoridade turística nacional, Sérgio Guerreiro ressalta como a inteligência artificial também tem transformado esse segmento. Isso porque tem alterado os processos de valorização dos clientes, análise de dados e experiências.

“A transformação está apenas começando, mas é preciso valorizar e aproveitar todas as possibilidades quando pensamos em capturar os clientes.” Nessa lógica, aposta no desenvolvimento de estratégias de customização de experiências e de fidelização dos clientes. “Captar novos clientes custa cinco vezes mais do que manter um”, cita, servindo de inspiração a empresários gaúchos, que recentemente estiveram em missão promovida pela Fecomércio-RS.

Sofia Fernandes, chefe de marketing internacional do El Corte Inglés, rede de lojas de departamentos de luxo, apresenta algumas dessas possibilidades. Ela explica que uma das estratégias foi a de adaptação ao comportamento do cliente. Por exemplo, houve o crescimento do e-commerce. Ao ver o consumidor saindo do ambiente físico para o digital, a rede se adaptou. Implementou o aplicativo da loja, estimulando seu uso e, assim, captando os dados de jornada de consumo. “Com a captação dessas informações foi possível pensar nas experiências específicas e direcionadas ao on (site) e off (loja física).”

Outra estratégia foi o desenvolvimento de campanhas temáticas. Por exemplo, compreender o perfil do turista brasileiro, o que compra, quanto gasta e quando visita o país. Uma das adaptações foi a aceitação do Pix na compra, que é um modo de pagamento exclusivo do Brasil. “Temos que oferecer. Ele (turista brasileiro) vai usar? Não sabemos, mas ao oferecer, mostra que conhecemos ele e os seus hábitos”, destaca Sofia. O mesmo é feito com clientes de outras nacionalidades, que também têm hábitos e comportamentos de consumo específicos.

Além disso, no caso de compras feitas por turistas de fora da União Europeia, há benefícios como retorno de parte do imposto pago nas compras, chamado de tax free.

Os desafios também crescem

O crescimento na demanda de serviço atraiu milhares de imigrantes e tornou Portugal um ponto de entrada para a União Europeia. Com menos restrições de acesso, os estrangeiros entravam pelo país e, após conseguirem a documentação de permanência, se mudavam para outros lugares. Esse movimento ainda provoca debates políticos e sociais. Um exemplo foram as recentes mudanças no processo de imigração, o que fez com que as regras ficassem mais rígidas. Um ponto é o ingresso com visto de turista que, após, virava de trabalho. Agora, esses casos serão considerados irregulares.

A imigração acelerada, ou até descontrolada, para alguns críticos, trouxe impactos no mercado de trabalho, mas também sociais, como explica a CEO da empresa Ei! Assessoria Migratória, Gilda Pereira. “É o momento de readaptação do controle”, afirma, em relação ao processo de entrada e permanência no país.

Após crise financeira, o país passou a investir em outros segmentos e a inovação ganhou espaço | Foto: Mauren Xavier

Atualmente, os brasileiros seguem como a primeira maior comunidade estrangeira residente em Portugal, seguida pelos indianos, segundo o governo português. Um dos reflexos é na moradia em Lisboa. Isso porque os preços dos imóveis na região central sofreram alta. Em parte porque as unidades são destinadas a turistas e outra pela ocupação e sublocação de imigrantes. Com os preços altos, o impacto foi imediato, fazendo com que os moradores tivessem que buscar bairros mais afastados.

Há ainda o impacto social. Portugal dispõe de uma série de auxílios à população no caso de dificuldades financeiras, como apoio financeiro aos estudantes ou de alimentação, no caso de famílias. Outro benefício é o transporte público que é gratuito para estudantes.

Valorização da história como ponto de partida

É fácil caminhar pelas ruelas e ladeiras dos bairros Chiados e Alfama, em Lisboa, e ver lado a lado portas de bares e restaurantes que atraem para as suas apresentações musicais. A escolha torna-se difícil, é verdade. Ao entrar, em um primeiro momento, pode parecer um estabelecimento comum para se fazer uma refeição, mas uma rápida movimentação dos garçons e o acomodar dos músicos muda o clima rapidamente e todos no ambiente são tragados para uma nova ambientação.

A luz muda, criando um clima mais intimista, e o ambiente é invadido pelo silêncio total, somente rompido pelo início do cantar, que mescla com facilidade a música que traz consigo força, emoção e, claro, a dramatização. É assim que um visitante inexperiente é levado ao mundo do “fado português”.

O gênero musical normalmente é formado por um cantor ou cantora, com acompanhamento de uma guitarra acústica e uma guitarra portuguesa. O silêncio no ambiente é obrigatório, para permitir que os cantores atinjam a concentração necessária e qualquer barulho é repreendido sem dó. A apresentação, que muitas vezes beira o visceral, é uma forma de o turista mergulhar na alma portuguesa. Não é à toa que foi declarado patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco, em 2011, por fortalecer a identidade portuguesa.

O fado português é um dos exemplos de como a história lusitana é valorizada para impulsionar o turismo e os atrativos turísticos. São produtos ou serviços que ao receberem valor agregado, como componentes históricos, ganham status e tornam-se únicos.

As famosas latas de sardinhas do Mundo Fantástico da Sardinha Portuguesa | Foto: Mauren Xavier

Um case de sucesso são as famosas latas de sardinhas do Mundo Fantástico da Sardinha Portuguesa. Com a recuperação da história lusitana, um produto simples e tradicional virou um item de desejo, sucesso de vendas e souvenir. Esse combo faz com que o ticket médio do produto seja cinco vezes superior a uma lata de sardinha comum. A diretora de Marketing da rede, Sonia Santiago, explica que o produto é resultado de uma estratégia comercial que tem como base a valorização histórica de Portugal. Há coleções de embalagens que valorizam lugares históricos de Lisboa e de outras regiões do país.