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Projeto com IA busca reduzir devoluções em adoções

Assistente virtual Ágape usa a inteligência artificial para orientar famílias e ajudar a prevenir adoções frustradas no Rio Grande do Sul

Depois de uma devolução aos 3 anos, Esther ingressou aos 7 na vida do casal Everaldo e Elizângela
Depois de uma devolução aos 3 anos, Esther ingressou aos 7 na vida do casal Everaldo e Elizângela Foto : Fabiano do Amaral

No Brasil, nove a cada dez adoções seguem adiante. Mas o um que fracassa costuma deixar marcas profundas. Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), cerca de nove em cada 100 adotados acabam devolvidos — a maioria ainda nas fases iniciais do processo, por fatores como idade, questões de saúde, comportamento e falta de preparo emocional dos pretendentes.

Diante desse cenário, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) passou a apostar também na tecnologia para prevenir adoções frustradas. Uma das iniciativas é a Ágape, assistente virtual desenvolvida com inteligência artificial para orientar quem deseja adotar ou já está vivenciando esse percurso. A ferramenta, que funciona como um chat sigiloso e baseado em fontes oficiais, completou um ano de operação em outubro e integra o Projeto Acolhimento, conjunto de ações do MPRS voltado à proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade.

“A ferramenta auxilia pessoas que pretendem adotar ou as que já adotaram e têm dúvidas. E isso ajuda a reduzir a ansiedade e prevenir adoções interrompidas”, explica a promotora de Justiça da Infância e da Juventude de Porto Alegre, Cinara Vianna Dutra Braga.

Como funciona a Ágape

O projeto foi desenvolvido pelo MPRS em parceria com a empresa WideLabs e a ELO – Organização de Apoio à Adoção e Assistência Social, que, há dez anos, atua em diferentes etapas do processo adotivo no Estado. Baseada no modelo brasileiro Amazônia IA, a assistente opera como um chat virtual, acessível sem cadastro, pelo link adocao.widelabs.com.br.

O conteúdo das conversas é confidencial e as respostas são elaboradas a partir de legislação, protocolos psicológicos e orientações técnicas validadas pelo MPRS e pela ELO. “Muitas vezes, as pessoas sentem vergonha ou receio de procurar os técnicos da área e a assistente virtual pode ser acessada a qualquer momento”, destaca a promotora.

A experiência da ELO foi determinante na organização do banco de dados: dúvidas frequentes, procedimentos, contatos úteis e situações vividas em cursos e acompanhamentos de famílias foram incorporadas à base de informações. “É uma ferramenta inovadora. Ao permitir sigilo, as pessoas se sentem à vontade para perguntar. Lembrando que a ideia não é substituir a interação humana no processo, mas complementar”, afirma o presidente da entidade, Peterson Rodrigues.

Expansão e novos usos

Os dados do primeiro ano de uso ainda estão em análise. Mas, segundo a promotora Cinara Braga, já há uma ampliação importante: a aplicação da IA também no atendimento às crianças acolhidas. “A utilização também é importante para a criança. Então, a gente desenvolveu o Amigo Imaginário, que na verdade é a IA conversando com a criança, sempre com um técnico ao lado, para identificar questões pessoais e formar relatórios que auxiliem no suporte emocional e na definição de perfis de adoção.”

A ferramenta ajuda a compreender histórico, medos, expectativas e particularidades, contribuindo para vínculos mais realistas e para a prevenção de devoluções. Peterson, que também é pai adotivo, acredita que a Ágape pode ter uso ainda mais amplo: “Quanto mais a IA for divulgada, melhor será o resultado dela. Também seria importante a criação de uma versão em aplicativo para smartphone, o que certamente ampliaria o alcance”, sugere. Ele destaca ainda o potencial de apoio às equipes de abrigos e ao monitoramento das famílias após a adoção.

Traumas permanentes

Embora a legislação brasileira defina a adoção como ato irrevogável, o estudo do CNJ identificou desistências inclusive após a sentença definitiva. Em casos extremos, a criança ou adolescente retorna ao acolhimento institucional por decisão judicial, medida adotada para proteção do próprio menor.

O impacto, porém, costuma ser profundo. “Quando uma adoção é frustrada, as crianças sofre traumas. Muitas vezes não querem ser novamente adotadas ou passam a apresentar problemas de comportamento”, relata Peterson Rodrigues.

Para reduzir essas ocorrências, a promotora Cinara Braga defende mecanismos de responsabilização mais claros: “Estamos falando de vidas, de vínculos estabelecidos. A decisão de adotar é muito séria.”

Vida depois da devolução

A realidade dessas marcas aparece na trajetória de Esther Maria da Silva Romeiro, 18 anos, moradora de Gravataí. Ela nasceu já em situação de abrigagem. A genitora, menor de idade e dependente química, abriu mão da guarda. A menina foi adotada, mas devolvida aos 3 anos de idade.

Em 2014, Esther ingressou na vida do casal Everaldo da Silva Romeiro, 63 anos, aposentado, e Elizângela Soares Romeiro, 47, professora. “A assistente social me chamou porque eu iria receber uma aluna prestes a completar 7 anos e com muitas dificuldades. Ali, ouvindo o histórico, senti algo diferente. No meu coração era ela. Era a minha filha!”, lembra a mãe.

“Literalmente pegaram uma trouxinha de roupas e a largaram de volta no abrigo”, recorda Everaldo. Quando chegou à escola onde Elizângela trabalhava, a menina apresentava desnutrição, dificuldade de locomoção e sequelas emocionais profundas.

“Foram quatro meses de convivência e adaptação até a guarda provisória. Já morando conosco, os efeitos do histórico de vida surgiram com força. Ela tinha dificuldade em confiar. Perguntava várias vezes: ‘Algum dia tu vais me devolver?’”, relata o pai.

A jovem precisou tratar dislexia e TDAH em decorrência do trauma vivido. Com acompanhamento psicológico e apoio familiar, superou as crises. Hoje, cursa o segundo ano do ensino médio e sonha com faculdade de fisioterapia ou veterinária. “Gosto muito deles desde o primeiro dia. Tinha medo de ser deixada e sei que não foi fácil no começo. Eles batalharam muito por mim, por nossa família”, diz a jovem. “Vejo-a como uma guerreira. Apesar de tudo que passou, conseguiu superar rápido”, completa a mãe, emocionada. A família tornou-se voluntária da ELO e participa de encontros com novos pretendentes. Everaldo reforça a importância da preparação emocional: “Não tenham vergonha de sentir medo. Busquem ajuda, tirem dúvidas. E sempre é preferível mudar de ideia antes do que desistir depois, causando sofrimento à criança.”

O trabalho da Elo

A ELO – Organização de Apoio à Adoção e Assistência Social realiza os cursos de formação dos candidatos à adoção em 140 comarcas do RS. Em 2024, foram 1.450 preparações. A entidade também mantém atendimento psicossocial a crianças e adolescentes de Gravataí e Cachoeirinha. Hoje oferece 40 vagas e prevê ampliar a estrutura com sede própria, viabilizada por captação de recursos do Fundo de Reconstituição de Bens Lesados do MPRS.

Atualmente, a entidade busca apoio para desenvolver um projeto de autonomia voltado a adolescentes acima de 15 anos, preparando-os para a saída dos abrigos — obrigatória aos 18 anos. Todo o trabalho feito pela ELO é voluntário.

Segundo o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), o índice de devolução é menor em cidades que têm Grupos de Apoio à Adoção (GAAs), como os conduzidos pela ELO. O sistema aponta que em municípios sem grupo de apoio ocorrem 10,7 devoluções a cada 100 adoções, enquanto naqueles com GAAs são 6,2 a cada 100 adoções.

Passos de uma adoção

No processo de adoção legal, o caminho até a formação de uma nova família envolve uma série de etapas obrigatórias. Os pretendentes passam por análise documental, avaliação psicossocial e participam de um curso preparatório, que tem o objetivo de esclarecer responsabilidades e desafios da adoção.

Com a habilitação concedida pela Justiça, o nome dos candidatos é incluído no SNA. A partir daí, inicia-se a fase de vinculação, quando o perfil desejado pelos adotantes é comparado ao das crianças disponíveis nas unidades de acolhimento, sempre respeitando a ordem de inscrição. Até esse momento, não há contato direto entre as partes.

Confirmada a compatibilidade, começa a aproximação monitorada, etapa em que o pretendente passa a conviver gradualmente com a criança, sob acompanhamento da equipe técnica e do Judiciário. As visitas ocorrem no local de acolhimento ou em pequenos passeios, de modo a construir vínculo e confiança.

Quando a convivência se mostra positiva, tem início o estágio de convivência, em que a criança ou o adolescente passa a morar com o adotante. Essa fase é acompanhada de perto pelos profissionais do sistema de Justiça e dura até 90 dias, podendo ser prorrogada por igual prazo antes da sentença definitiva de adoção.