Há dois anos um acidente de trânsito na BR 376, em Guaratuba, no Paraná, atingiu em cheio o projeto Remar para o Futuro, de Pelotas. Na noite de 20 de outubro de 2024, uma van com dez pessoas foi atingida por um caminhão, matando nove ocupantes do veículo. Morreram sete atletas, Samuel Benites Lopes, Henry Fontoura Guimarães, João Pedro Kerchiner, Helen Belony, Nicole da Cruz, Angel Souto Vidal e Vitor Fernandes Camargo, com idades entre 15 e 20 anos, o motorista Ricardo Leal da Cunha e o treinador Oguener Tissot, um dos criadores da iniciativa. Dos ocupantes da van, o atleta João Pedro Milgarejo, então com 17 anos, foi o único sobrevivente.
A tragédia causou comoção no país. O velório foi acompanhado por autoridades, muitos prometeram auxílio para que a iniciativa seguisse com o seu propósito de dar um futuro aos jovens. No próximo dia 25, está prevista a realização de um tributo, para lembrar o acidente.
Para o atual coordenador do projeto, Fabrício Boscolo, os últimos dois anos foram de muita batalha e dedicação. “Desde o início sempre fiquei atrás das cortinas, pois minha função era mais acadêmica, científica, institucional”, relata. Ele prescrevia treinos, avaliações, apresentação de resultados e montava o trabalho que seria realizado com Tissot. “Em função de tudo que ocorreu, acabei trocando de lugar dentro do projeto e isto afetou minha vida e a da minha família de forma bastante profunda.” Boscolo conta que, atualmente, a família praticamente vive em função do Remar.
“Os últimos dois anos foram de dedicação, esforço, empenho, muita batalha cotidiana, mas de muito aprendizado, crescimento pessoal e profissional. Somos motivados a fazer com que o projeto continue o seu propósito.”
As atividades foram retomadas em 2025. “Era um período de reestruturação. Precisamos nos organizar para reestruturar, então criamos uma associação, fizemos toda a parte burocrática para que 2026 fosse de direcionamento.” Boscolo conta que os patrocínios têm sido importantes para o projeto. “Grande parte do que conseguimos realizar é porque temos o apoio dos patrocinadores, que fazem muita diferença no nosso cotidiano.”
O Remar Para o Futuro segue sendo um projeto institucional que envolve Centro Português, Prefeitura de Pelotas e Universidade Federal de Pelotas.
“O Remar está mais vivo do que nunca. Seguimos remando cada vez mais forte, cada vez mais rápido e mais longe, mas sempre juntos. Faço questão de que as pessoas que construíram a história com o Oguener continuem conosco para que o projeto seja um sonho vivido por muitas pessoas juntas”, relata.
Atualmente, a iniciativa conta com 35 jovens entre 12 e 18 anos. Além deles, há outros atletas acima dessa faixa etária. “Isto era um sonho do Oguener. Ele queria trazer os mais velhos de volta para Pelotas e organizar a categoria sub 23. Atualmente temos cinco atletas acima dos 18 anos que treinam conosco. Mesmo estando um pouco acima da idade-alvo, eles são superimportantes no sentido de transferir conhecimento aos mais jovens”, justifica. No total, 40 jovens praticam remo regularmente no arroio Pelotas. Eles são divididos em três grupos, aspirantes, pré-equipe e equipe. Há treinos às segundas, terças, quintas, sextas e sábados.
Para evitar a especialização precoce, as atividades são múltiplas e não há uma iniciação muito especializada. As ações no arroio Pelotas envolvem barcos. Há também a prática de natação no Clube Centro Português e atividades de remo dentro do salão de treino. A parte de condicionamento físico envolve treinamento de força, corrida, exercícios coordenativos de flexibilidade de um modo mais amplo, com o objetivo de fazer uma iniciação esportiva mais generalista.
Boscolo afirma que a maior limitação hoje do projeto são equipamentos, especificamente os barcos. “Historicamente, trabalhamos com embarcações doadas ou com aquelas que eram de atletas mais experientes que compraram barcos e deixaram na sede Aníbal Vidal”, lamenta. O projeto conseguiu adquirir o primeiro barco em 2026, com recursos do Ministério Público do Trabalho. A embarcação recebeu o nome da mãe de Oguener, Sílvia Tissot. “Até o ano que vem a nossa principal demanda é por barcos. Como eu trabalho a longo prazo, em 2028 teremos outros desafios, como conseguir recursos para manter a equipe técnica e o cotidiano”, exemplifica.
Ele tem a meta de incrementar a garagem, para que todos os atletas possam praticar o remo com qualidade e não seja necessário realizar o trabalho de forma improvisada. “Hoje temos cerca de 20 barcos, de diferentes níveis, mas não conseguimos embarcar todos os atletas da equipe no mesmo horário, treinando em boas embarcações. Eles ficam limitados ", lamenta. O barco mais importante no remo é chamado de Oito Com (com oito remadores e o timoneiro). “O nosso, doado pelo Grêmio Náutico União, é da década de 70. Ele tem atendido às nossas demandas, mas nem chega perto do mínimo necessário para que tenhamos uma estrutura. Equipes boas e consagradas de remo têm vários barcos deste tipo.”
Em maio de 2025, o projeto recebeu recursos do governo federal, que ainda ajudam a manter a equipe técnica. Atualmente, o Remar conta com três professores de remo, um para pré-equipe, outro para a equipe e outro para os aspirantes, três preparadores físicos e uma professora de natação, que trabalham de forma remunerada. Além deles, o projeto conta com duas estagiárias de Educação Física e outras três de Psicologia. Três voluntários na área de nutrição esportiva acompanham os atletas, que também contam com o auxílio da equipe de fisioterapia que envolve as universidades Católica e Federal de Pelotas.
Para Boscolo, a principal conquista do projeto é seguir vivo.
“Para mim, a principal conquista é a gente conseguir continuar a entrega de um projeto que é de Pelotas e para a cidade” garante.
Do ponto de vista esportivo, o projeto colocou em 2025 e 2026 duplas de atletas nos Jogos da Juventude, principal evento esportivo jovem no país. O Remar também conquistou o 6º lugar no Mundial de Remo Indoor. “Neste ano, um atleta foi sexto no Mundial Adulto, sendo a primeira vez que o Remar participou com dois atletas. Em setembro participamos do Sul-Americano, na Argentina, com três atletas.” E, na sexta-feira, atletas da associação conquistaram quatro medalhas (2 bronzes, 1 prata e 1 ouro) no Campeonato Brasileiro de Barcos Longos 2026, que ocorre até este domingo no Rio de Janeiro.
Para o futuro, Boscolo espera seguir estruturando o projeto, para que ele fique o mais profissional possível, inclusive no ponto de vista da gestão e administração.
“Queremos que novas gerações de gestores assumam, pois é da cidade. No futuro, a ideia é consolidar estruturalmente o projeto, mas precisamos melhorar a organização interna”, pondera.
Segundo ele falta material, computador para prescrição de treino, vários equipamentos chamados speed coach, para monitoramento dentro da água, além dos barcos. “A parte de dentro está resolvida. Possuímos toda a de treinamento de força, musculação, condicionamento físico, com equipamentos novos. Agora estamos recuperando alguns barcos, que tínhamos deixado de lado.”
PROCESSO JUDICIAL
Tanto o dono do caminhão quanto o motorista envolvidos no acidente que causou a tragédia do projeto Remar Para o Futuro foram denunciados na Justiça por nove homicídios culposos. “O motorista, pela conduta, que teria sido imprudente no momento do acidente, e o proprietário por, de forma negligente, não ter proporcionado a manutenção do veículo. Havia perícias apontando que o caminhão não estava em melhores condições para rodar’, explicou o promotor do caso, Élcio Sartori.
Segundo ele, os dois também foram denunciados por lesão culposa no trânsito, em relação ao sobrevivente. “As testemunhas foram ouvidas e as diligências realizadas. Segundo as mais recentes atualizações, o processo está no cartório e deve ser enviado para a juíza de Guaratuba (Paraná), Marisa de Freitas, que deverá dar a sentença”, relata. Conforme o promotor, pela legislação, após receber o processo, ela terá dez dias para dar a sentença, mas este prazo poderá ser extrapolado devido à complexidade do caso.
FOUR SKIFF
O Remar Para o Futuro completou 11 anos em 2026 e segue dando oportunidade de vida a jovens estudantes de Pelotas. Um deles é João Pedro Milgarejo, 19 anos. Ele foi o único sobrevivente da tragédia que chamou a atenção para a iniciativa e se tornou atleta do Grêmio Náutico União há 10 meses. “A minha vida mudou muito nos últimos dois anos. Fui para o Grêmio Náutico União, onde tenho contrato até janeiro”, relata. Ele conta que ganhou medalha de bronze representando o União no Campeonato Brasileiro de Barcos Curtos, realizado em março. “Foi meio complicada a mudança de clube, pois estava acostumado com os colegas do Remar e tive pouco tempo de treino no Grêmio Náutico para competir, mas foi bom que conseguimos um pódio”, justifica.
A competição é a mesma que disputou e ganhou em 2024, antes do acidente. Para o atleta, o foco no momento é a competição de barcos longos. Tendo a Seleção Brasileira como objetivo, ele pretende treinar e competir para a categoria Skiff, com uma pessoa. “Quero o Skiff para uma vaga no Four Skiff, que marcou minha vida, no qual ganhei ouro com os meus melhores amigos e é um barco que vou amar para sempre, graças também a eles”, afirma. Em 2024, o grupo disputou o primeiro Campeonato Brasileiro. “Havíamos treinado uma ou duas vezes e já deu certo”, recorda. Neste ano, Milgarejo disputou a categoria sub 23. Para ele, tudo o que ocorreu serviu para que as pessoas prestassem mais atenção no remo. “Tem pessoas que, antes daquilo tudo, não sabiam que o remo existia. Foi uma tragédia marcante para todo mundo”, observa. Ele diz que sempre que viaja fica com receio de entrar em qualquer meio de transporte. “Mas vou, até para seguir na busca dos sonhos, que também são dos meus parceiros de Remar Para o Futuro e que não estão mais aqui.”
Milgarejo passou a morar em Porto Alegre em julho deste ano, mas segue em contato com os integrantes do Remar Para o Futuro. “Sempre que viajo à Pelotas para ver minha família dou um jeito de treinar com eles”, relata o estudante do terceiro ano do ensino médio.
O atleta conta que atualmente lida melhor com tudo o que ocorreu. “Antes não conseguia falar que chorava”, lembra. Milgarejo conta que sempre que entra em uma prova, ou alinha o barco com qualquer pessoa, se lembra da vivência com o treinador e os colegas de Remar.
“Quando estou em um barco Four Skiff (de quatro lugares), lembro do João Pedro Kerchiner, do Samuel Benites Lopes e do Henri Fontoura Guimarães, sentados atrás de mim. Eles eram meus parceiros e também melhores amigos.”
Em 2025, o atleta passou um mês treinando na Itália. Ele conta que em 2026 seu foco principal é tentar uma vaga na seleção brasileira de remo, onde esteve no ano passado no Campeonato Sul-Americano. “Não sei como será a seletiva. Quando entramos para a seleção temos um período de treinos para então competir no Sul americano. Quando fui em 2025 foi muito bom representar o país. A convocação veio pouco tempo após o acidente e foi gratificante estar naquele lugar, mas também pensava que eles podiam estar junto comigo competindo”, destaca.
Sobre o julgamento do caso, o atleta diz esperar que a Justiça seja feita.
“Espero que o motorista seja preso e as famílias de todos os que morreram sejam indenizadas. Apesar de não trazer meus amigos de volta, acredito que é o mínimo que o dono do caminhão tem que fazer, além de cumprir a pena dele”, opina.
FAMILIARES SEGUEM PARTICIPANDO
Sílvia Tissot, de 67 anos, enfrentou aquela que, com certeza, é a pior dor de uma mãe: perder um filho. Ao mesmo tempo, ela segue ajudando na construção do sonho de Oguener Tissot, que é o Remar Para o Futuro. “O projeto sempre foi a segunda casa dele. Meu filho admirava e tinha muita paixão por isto aqui.” Sílvia conta que o filho começou no remo aos 12 anos e se apaixonou pelo esporte. “Quando o Oguener tinha 9 anos, o meu outro filho, Robert, que é três anos mais velho, foi convidado, então ele esperou ter a idade certa para começar”, lembra. Para ela, Oguener sempre foi muito determinado. “Quando surgiu a oportunidade, ele começou a trabalhar e se dedicar. A determinação dele sempre foi inabalável. Após, construiu a escola de remo e o projeto que era grande paixão dele. Quando víamos que estava se responsabilizando por um monte de adolescentes, nos preocupávamos e ele sempre garantiu que daria certo”, recorda. “Ele sempre teve jeito de chegar nos outros, de crianças a idosos, e amava e tinha facilidade de comunicação, então sempre resolvia tudo.”
Sílvia diz que, ao ver a evolução do projeto nos últimos dois anos, só sente gratidão pelos envolvidos. “Meu filho iniciou. Era o sonho dele e vendo o tamanho que está, e as pessoas que estão envolvidas, só tenho a agradecer a todos que ajudam, de patrocinadores a apoiadores.” Ela conta que sempre esteve presente no projeto, criado em 2015. “Não remava, mas sempre que podia ajudava, seja em eventos beneficentes, fazendo blocos e cadernos com o tema (ela trabalha com cartonagem e encadernação), ou cuidando do meu neto, que quando era pequeno o acompanhava no trabalho”, confirma. Sílvia conta que tudo que o filho fazia era pelo remo. “Tudo que conseguia ia para o remo, até mesmo na questão financeira. Para mim é um conforto saber que o Remar continuou e está crescendo”, destaca.
Sílvia diz que, quando ocorreu o acidente, teve a dimensão de tudo que o filho tinha feito pelo esporte.
“Ele era reconhecido nacionalmente pelo projeto e por tudo que fez. Eu sabia que era grande, mas não pensei que fosse tanto. Ao mesmo tempo que tinha a tristeza de não poder mais abraçá-lo, acho que não o perdemos, para mim ele está sempre aqui, em cada canto.”
Para ela, ver as pessoas falando de tudo o que o filho fez e como era reconhecido no país pelo seu trabalho a ajudou a enfrentar a perda. Ela lembra que Oguener gostava de treinar e vivia no Arroio Pelotas, que é o local de treinos dos atletas do Remar Para o Futuro. “O sonho dele é ter uma estrutura para manter o projeto, sem precisar mandar os atletas para fora, os mantendo dentro do Centro Português (clube onde segue instalado o Remar Para o Futuro).”
Sílvia acredita que o projeto deve evoluir ainda mais com o tempo, apesar das dificuldades.
“Temos que tirar o chapéu para quem comanda. Ver os meninos ter uma evolução, um futuro que muitas vezes eles nem imaginavam que era possível, é maravilhoso”, destaca.
Além de Sílvia, a então companheira de Tissot, Denise Weber, também segue trabalhando no projeto Remar Para o Futuro. Ela que é contadora e utiliza a sua profissão para ajudar na iniciativa e acredita que hoje o Remar está mais equipado do que há dois anos.
“Alguns sonhos do Oguener saíram do papel, como a rampa, a reforma do galpão, a nova lancha. Tudo está sendo conquistado aos poucos, graças a ajuda das pessoas que estão 100% dedicadas ao projeto e aos patrocinadores que vêm apoiando mensalmente a iniciativa”, observa.
“Infelizmente, quando ocorre algo trágico, é quando a população reconhece. Muitas pessoas não sabiam que existia o projeto. Quando repercute uma notícia trágica dessas, a população se sensibiliza e se mobiliza para ajudar e apoiar”, opina. A contadora acredita que, ajudando o projeto, consegue manter viva a história que viveu. “Vejo a semente que ele plantou, com as pessoas certas, então não tenho como não ajudar. Eu já fazia a contabilidade na época do Remar e também quando abrimos a Associação. Então, além de ajudar na minha área, também sou uma espécie de quebra-galho, e este lugar é um refúgio para mim”, confirma.
A estudante Natália Colella Rodrigues da Cruz, de 15 anos, perdeu a irmã Nicole no acidente. Hoje, ela segue como atleta do Remar Para o Futuro. “Tínhamos uma relação saudável e ela sempre me incentivou no esporte”, afirma. Natália lembra que, no início, tinha medo de água, mas que foi convencida por Nicole a dar uma chance ao remo.
“Chegamos a treinar em um mesmo ambiente. Quando ocorreu o acidente, fiquei em choque e a ficha não caiu, então não sabia se continuaria, mas resolvi seguir, pois também era algo que a minha irmã gostava e nos treinos sinto ela mais perto, pois a Nicole amava remar”, relata a estudante.
Natália treina em torno de três horas e 30 minutos cinco vezes por semana, em turno inverso ao das aulas no Colégio Pelotense. “O projeto cobra os resultados na escola, então não me descuido das notas”, garante a estudante do primeiro ano do ensino médio.
“Pretendo seguir participando, com foco na Seleção Brasileira, pois acho muito importante representar o meu país”, diz ela, que já participou de alguns campeonatos com o Remar Para o Futuro, como o Nacional, o Estadual e o primeiro Jogos da Juventude. “Quero chegar à Seleção por mim e por ela”, projeta.