Especial

Redes sociais no futebol: agressões afetam jogadores

Foto : Leandro Maciel

Vadio.

Lixo.

Fracassado.

Rezarei todos os dias pelo seu fim.

Você não viverá para ver o time em 2026.

Todas as expressões e frases acima foram proferidas recentemente por torcedores nas redes sociais e dirigidas a jogadores e dirigentes da Dupla Gre-Nal. A pesquisa não durou cinco minutos e foram deixados de fora vários outros termos, bem mais pesados. Essa é a realidade para quem lida com futebol diariamente no Brasil. E é ilusório achar que isso não afeta o desempenho dos atletas em campo.

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“O fato de você estar na rede te aproxima e faz com que tenha relação com pessoas muito ruins. Os jogadores têm acesso a elas. E levam em consideração. Não tem como não machucar. Alguém está falando horrores sobre você”, opina o técnico Mano Menezes, do Grêmio.

Revelado pelo Inter e hoje treinador do sub-13 colorado, Diego Barcellos vai na mesma linha. “(As críticas) Afetam sim. Porque a pessoa acaba consumindo aquilo que vê e por mais que tenha maturidade, é sempre ruim ver uma crítica muitas vezes pesada. Vai impactar no dia a dia”. O ex-jogador lembra que na época em que jogava, o contato com o torcedor era menor na comparação, mas real, e não virtual como agora.

“A rede te encoraja a falar coisas que na sua presença muitas vezes ele não falaria”, afirma.

Não por acaso, há alguns anos o goleiro Tiago Volpi, do Grêmio, decidiu que iria se afastar do Twitter. “Já não eram informações, mas sim agressões. Eu sentia que quanto mais eu via aquilo, mais mal me fazia. Se você fica dentro disso, começa a viver sua vida em uma montanha-russa, questionando quem você é, se é o que as pessoas falam ou o que você acredita ser”, revela ele, que segue:

Se fico muito tempo ali, começo a me enxergar como as pessoas me enxergam. Em uma semana serei bom e na outra ruim, em uma semana estarei feliz e na outra depressivo. Entendi que não era a ferramenta que eu gostaria de utilizar”. O goleiro gremista ainda mantém uma conta ativa em outra rede, o Instagram. Ainda que conte com o serviço de uma assessoria especializada, é ele quem controla o conteúdo e realiza as publicações. Que, como o tempo deixou claro para Volpi, nunca estão dissociadas dos resultados de campo. Uma foto entre amigos ou uma celebração em família, que para muitos é trivial, para um jogador sempre depende se o time ganhou ou perdeu.

“Várias vezes já deixei de publicar. Às vezes, algo simples como um aniversário do filho ou da filha. Se o aniversário cai no dia em que você perdeu um jogo, um clássico, você opta por não fazer nenhuma postagem para não ter incômodos, que sempre acabam surgindo. É meio louco, porque a vida não deveria ser assim”, afirma.

Mais do que apenas o atleta em si, há de se levar em conta que tem muito mais gente envolvida. O jornalista Paulo Vinícius Coelho, dos canais Paramount+ e Uol Esportes, lembra que jogadores mais experientes podem até lidar bem com as críticas agressivas das redes, mas o seu entorno não. “Jogador de futebol geralmente tem um núcleo familiar gigantesco e não vai conseguir controlar todas as pessoas. Um dia a filha chega chorando porque alguém chamou o pai de bandido. Você se controla, mas seu filho, sua mãe, seu pai é mais difícil”, observa PVC, lembrando que muitas vezes não são apenas críticas, mas sim ameaças.

Armadilha virtual

Muitas vezes as ameaças são tão estranhas que parecem esconder algo a mais. Em novembro de 2020, o técnico Eduardo Coudet pegou a direção do Inter de surpresa com um pedido de demissão em um momento em que o time liderava o Brasileirão. No dia seguinte, o então presidente do clube, Marcelo Medeiros, estranhou a quantidade e o conteúdo de mensagens recebidas no seu WhatsApp.

Eu recebi mais de duas mil mensagens de ofensas e ameaças. Todas feitas por mulheres: Ana, Laura, Joana. Todas com um prefixo diferente do Estado, telefones 063, 078”, lembra. Logo o dirigente intuiu que a armadilha estava jogada. “Se eu respondesse, isso vazaria e aí pronto, ‘Presidente do Inter ofende torcedora’. Mas vi que era golpe e não caí. São problemas da era digital”, relembra Medeiros.