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Resistência a antibióticos é ameaça à população

Conforme a OMS, condição pode causar 1,3 milhão de mortes por ano, podendo se agravar para até 10 milhões de óbitos anuais até 2050

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. Foto : Mauro Schaefer

Para o tratamento de muitas doenças, principalmente infecções bacterianas como pneumonia, amigdalite e cistite, a melhora do organismo ocorre após a medicação do paciente com antibióticos em ambiente hospitalar ou em casa. Apesar disso, o uso inadequado desses medicamentos por parte da população tem se tornado uma das maiores ameaças à saúde pública em todo o mundo.

Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), a estimativa é que a resistência antimicrobiana (RAM) bacteriana possa causar cerca de 1,3 milhão de mortes por ano, podendo se agravar para até 10 milhões de óbitos anuais até 2050, ultrapassando o câncer como principal causa de morte no mundo. No Brasil, para a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o problema é agravado ainda pela automedicação da população.

Um estudo promovido pela entidade aponta que, apesar de a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) exigir receita para a venda de antibióticos, um a cada três brasileiros consome esse tipo de medicamento sem prescrição médica. A comercialização de tais produtos, de acordo com a pesquisa, ocorre em 27% dos casos em empreendimentos que burlam a legislação que trata sobre o tema.

A médica infectologista Cláudia Vidal, diretora de Educação e Formação Profissional da Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente (Sobrasp), explica que, por conta da função essencial no tratamento de infecções bacterianas específicas, o uso desnecessário de antibiótico, principalmente para tratamento de infecções por outras fontes, principalmente viral, acaba por favorecer o surgimento de bactérias resistentes no organismo.

“A resistência ocorre quando o microrganismo não tem sua replicação (multiplicação) inibida por determinado antimicrobiano para o qual ele é habitualmente sensível. Essa resistência pode se dar por diversos mecanismos, como despertar de genes de resistência, alteração do sítio alvo de ligação do antimicrobiano na célula bacteriana, produção de enzimas pelas bactérias que vão inativar os antimicrobianos quando estes penetrarem na parede celular bacteriana, dentre outros mecanismos. Assim, aquelas bactérias que desenvolvem os mecanismos supracitados conseguem sobreviver e se multiplicar, dificultando o tratamento adequado das infecções”, explicou.

Um dos principais prejuízos causados pela resistência a antibióticos está no comprometimento da eficácia de tratamentos | Foto: Mauro Schaefer

No Brasil, dados da Anvisa apontam que os antibióticos mais consumidos são azitromicina e cefalexina, geralmente indicados para infecções respiratórias, de pele, urinárias e algumas doenças sexualmente transmissíveis. No primeiro semestre de 2025, a agência registrou um aumento de 5% na venda de azitromicina se comparado com o mesmo período em 2024. A médica infectologista alerta que esses medicamentos devem ser usados apenas sob prescrição médica, já que o uso sem orientação contribui para o aumento da resistência bacteriana. Estima-se que o número global de infecções associadas aos cuidados em saúde por microrganismos multirresistentes seja de 136 milhões por ano, segundo dados da OMS.

Cláudia salientou ainda a diferença entre resistência a antibióticos e alergia ao medicamento. “A resistência ocorre quando um antimicrobiano não consegue inibir a multiplicação dos microrganismos e assim não é efetivo para o tratamento de determinada infecção. Já a alergia é definida como uma reação de hipersensibilidade frente a um determinado agente para o qual o sistema imunológico, nosso sistema de defesa, interpreta como um agressor ao corpo”, reforçou.

AMEAÇA GLOBAL À SAÚDE

A própria OMS classificou recentemente a resistência antimicrobiana como uma das dez maiores ameaças globais à saúde pública, pois compromete tanto o tratamento de pacientes como os avanços da medicina moderna, que dependem dos antibióticos para prevenir complicações em cirurgias, quimioterapias e transplantes. Um estudo divulgado pela OMS em outubro de 2025 apontou que uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas entre 2018 e 2023 apresentou resistência a antibióticos.

Claudia Vidal ressalta que, além da resistência, o uso incorreto deste tipo de medicamento pode gerar uma série de efeitos colaterais para o paciente, como reações alérgicas, danos aos rins e fígado, infecções secundárias e outras. O uso prolongado e inadequado também compromete as bactérias que são benéficas para o organismo humano, favorecendo quadros de náuseas, vômitos e distúrbios gastrointestinais.

DESAFIOS PARA O TRATAMENTO DE INFECÇÕES

Um dos principais prejuízos da resistência a antibióticos está no comprometimento da eficácia de tratamentos. “Em algumas situações de infecções por bactérias multirresistentes, às vezes não se dispõe de antibióticos ativos para o tratamento dessas infecções, o que aumenta a chance de morte associada à infecção”, explicou a diretora de Educação e Formação Profissional da Sobrasp.

Ela destaca que pacientes infectados por bactérias resistentes exigem tratamentos mais complexos e internações prolongadas, elevando significativamente os custos da assistência à saúde. Além disso, a segurança de procedimentos como cirurgias, transplantes e quimioterapias depende do controle eficiente de infecções, tornando o uso correto de antibióticos ainda mais crítico.

O médico-chefe do Serviço de Infectologia Pediátrica da Santa Casa de Porto Alegre, Fabrizio Motta, afirma que a resistência a antibióticos implica diversas modificações na conduta médica durante o tratamento. As mudanças vão desde a utilização de dosagens maiores até a alteração do esquema utilizado, principalmente quando o agente infeccioso ainda não está identificado. “Um exemplo é a pneumonia comunitária. Existe um protocolo de início de tratamento, mas se o paciente tiver resistência, muitas vezes esse protocolo precisa ser ajustado. Isso dificulta porque a resistência vai ser descoberta muitas vezes no paciente quando a gente identificar o agente infeccioso. Então, aumentando muito a resistência, os esquemas empíricos vão se tornando obsoletos e precisam ser ajustados. Muitas vezes, a gente tem um pior desfecho do paciente. A resistência impacta muito na cura do paciente, podendo (o medicamento) não atingi-la ou demorar muito tempo para que o esquema correto seja ajustado”, citou.

Cláudia Vidal, salienta que o tratamento apenas será eficaz se utilizados antimicrobianos nos quais a pessoa não tenha resistência. Para isso, ela destaca a importância da coleta de amostras biológicas do paciente com suspeita de infecção bacteriana, especialmente de acordo com o local da infecção, para identificação do microorganismo responsável pela doença.

A OMS classificou a resistência antimicrobiana como uma das dez maiores ameaças à saúde pública | Foto: Mauro Schaefer

Além disso, ela cita a necessidade da realização de testes de sensibilidade aos antimicrobianos, para verificar a quais antibióticos o agente é resistente. “A dose adequada do antimicrobiano é fundamental para um tratamento efetivo, não devendo ser utilizada superdose, pelos riscos de efeitos colaterais, nem subdoses, pelo risco de desenvolvimento de mecanismos de resistência ao antibiótico”, disse.

Motta ressalta ainda que a resistência ocorre tanto em infecções hospitalares como em infecções comunitárias, quando a doença é transmitida no dia a dia. “Sabemos que nas comunidades existe um uso desenfreado de antibióticos. Tanto que o governo modificou a prescrição nas farmácias, exigindo receita. O antibiótico é um dos poucos medicamentos cujo uso incorreto impacta também em terceiros e em seu ambiente”, completou.

O médico da Santa Casa, que também atua como pesquisador sobre o tema, confirmou que existe um aumento importante dos casos de resistência a antibióticos entre os pacientes. “É uma epidemia silenciosa. Muitas vezes, só quem sofre com a resistência é que acaba prestando atenção nela. É um tema que passa muito imperceptível para outras pessoas. O aumento tem muito a ver com o uso exagerado, na minha visão. Cada vez mais os estudos recomendam uso do medicamento por tempos mais curtos, que são tão eficazes quanto os tempos utilizados antigamente. Atualmente, são poucas as infecções que exigem de 10 a 14 dias de tratamento”, completou.

PESQUISA E PREVENÇÃO

Além de médico infectologista, Fabrizio Motta foi um dos sete pesquisadores brasileiros, entre 295 especialistas do mundo todo, que integraram um dos mais recentes estudos sobre o combate à resistência bacteriana. A pesquisa teve como objetivo aumentar a conscientização sobre a resistência antimicrobiana e melhorar as práticas de prescrição de antibióticos em todo o mundo. O grupo de trabalho foi formado por profissionais de 115 países e com diferentes formações. “Esse estudo é resultado de um esforço coletivo, que reforça não só a importância do uso adequado de antibióticos, mas também a relevância de novas alianças com enfoque na prevenção. Se considerarmos as previsões matemáticas, estima-se que ocorrerão mais 10 milhões de óbitos em 2050 devido à resistência bacteriana. E mudar essa realidade é uma responsabilidade global.”

Para Cláudia Vidal, o tema também deve pautar debates sobre conscientização e prevenção, tendo em vista os prejuízos que pode trazer para a população. Além dos impactos diretos à saúde, a resistência antimicrobiana também ameaça a segurança alimentar, já que o uso de antibióticos em animais de produção contribui para a disseminação de bactérias resistentes.

“As medidas de prevenção para o controle da resistência antimicrobiana precisam ser tomadas de forma global, ou seja, não apenas na saúde humana, mas também na saúde animal e na agropecuária. O controle do medicamento na agropecuária é fundamental e a venda de antibióticos nas farmácias com prescrição médica também representa uma forma de controle para evitar resistência. Precisamos ainda intensificar o diagnóstico mais apropriado e adequado das doenças infecciosas”, alertou.

Ela também destacou a necessidade do investimento em educação, tanto dos profissionais de saúde para a orientação adequada, como da população, para que procure assistência médica e evite automedicação. Um exemplo disso está nas infecções do trato respiratório superior, como os quadros de rinite e sinusite. Cláudia aponta que, em mais de 90% dos casos, a doença ocorre por um agente viral, não se fazendo apropriado o consumo de um antibiótico como tratamento. “No entanto, o que mais se observa na prática clínica é o tratamento muitas vezes dessas rinossinusites virais agudas com antibióticos. Ou mesmo das gastroenterites virais agudas que, muitas vezes, são autolimitadas e não precisam do uso de antimicrobianos. Então, aprender a usar o antibiótico de modo correto e ter ferramentas de diagnóstico para que se possa solicitar exames complementares são fundamentais para a prevenção e o controle da resistência antimicrobiana”, complementou.

A médica salienta ainda, com relação às pesquisas na área, principalmente na indústria farmacêutica, que a cada novo antibiótico lançado no mercado, novos mecanismos de resistência se desenvolvem. “É importante que a indústria invista no desenvolvimento de novos medicamentos principalmente para aqueles microrganismos para os quais não se tem quase nenhuma opção para tratamento e sejam utilizados de modo apropriado, com restrições e com controle.”

Por fim, Cláudia reforçou a necessidade de fomentar o debate sobre a resistência a antibióticos no público geral, destacando o papel de cada indivíduo na proteção de sua própria saúde. “É importante que a população saiba o que é a resistência antimicrobiana, como ela se desenvolve e como é possível prevenir. E, sempre diante de algum sinal de infecção, é preciso consultar o médico para que seja feito o diagnóstico adequado e o uso apropriado do antibiótico.”