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Responsabilidade financeira entre jovens da Geração Z

Pesquisa mostrou que 55% das pessoas entre os 18 e os 29 anos são as principais responsáveis pelas suas próprias finanças e buscam aprender e organizar suas economias

Geração Z
José Marques
Geração Z José Marques Foto : Ricardo Giusti

O Brasil vive dois momentos contrastantes na economia. Por um lado, o desemprego tem caído, por outro, a inflação se mantém. A taxa de desocupação nacional para o trimestre de fevereiro a abril de 2025, divulgada em 29 de maio, ficou em 6,6%, a menor registrada em toda a série histórica para o período desde o início da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), em 2012. Também em maio, a inflação oficial fechou em 0,26%, pressionada principalmente pela alta da conta de luz. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou 0,17 ponto percentual abaixo da taxa de 0,43% registrada em abril. A desaceleração do índice se deu devido à queda nos preços de alguns alimentos, das passagens aéreas e da gasolina.

Diante deste cenário, os jovens têm buscado se destacar no mercado de trabalho e organizar as finanças, segundo o economista e professor da Escola de Negócios da PUCRS Gustavo Frio. Pesquisa realizada em abril pela Serasa desfaz alguns preconceitos sobre a Geração Z: 55% dos jovens entre os 18 e os 29 anos são os principais responsáveis pelas suas próprias finanças. O estudo, que ouviu 2.923 pessoas nascidas entre 1996 e 2007 em todo o país, revela uma postura financeira e profissional “madura e responsável”. Além dos jovens que já assumiram a responsabilidade por seus gastos mensais, outros 39% contribuem ou dividem as despesas da casa.

A pesquisa da Serasa mostrou que o salário aparece apenas em quinto lugar nos itens que os jovens consideram mais importantes ao procurar um emprego | Foto: Ricardo Giusti

O investimento do dinheiro que ganham também chama atenção: 51% dos jovens economizam para comprar casa, carro e outros itens de maior valor. Além disso, 34% utilizam seu dinheiro para pagamento de contas básicas, 33% querem investir e 29% guardam para pagar suas dívidas. As menores porcentagens são dos jovens que pretendem gastar com bem-estar (18%), economizar para fazer uma viagem (10%) e se preparar para uma aposentadoria (7%).

Busca autônoma pelo conhecimento

O resultado do levantamento foi uma surpresa positiva, segundo Karla Pontes, especialista em educação financeira da Serasa. No entanto, apesar de se mostrarem responsáveis e engajados profissionalmente, os dados também apontam que apenas um em cada dez jovens desta geração diz ter tido “contato significativo” com educação financeira. Karla considera que a preocupação com as finanças é um reflexo do fácil acesso à informação pela Internet e que a busca autônoma por conhecimento da área deve ser uma tendência das próximas gerações também.

Junto do aprendizado adquirido por conta própria, a especialista também considera que parte do que a Geração Z sabe sobre finanças vem de observar a forma como os pais administram o dinheiro. A pesquisa aponta que 67% dos entrevistados sentem que os pais passaram por mais dificuldades financeiras e 61% afirmam ter uma vida financeira melhor do que a dos pais. Para 57% dos jovens, a busca por estabilidade financeira se deu por terem crescido em um ambiente financeiramente instável. Os que consideram que estabilidade financeira é mais importante do que valorizar apenas o bem-estar somam 41%.

Para José Marques, de 23 anos, estudante de administração, a consciência sobre o assunto veio de observar a maneira dos pais de lidar com o dinheiro. Mesmo estudando em dois colégios particulares ao longo da vida, nunca teve disciplinas que abordassem educação financeira. “Fui aprendendo por conta de vivências pessoais, cuidando para não fazer algumas coisas igual aos meus pais, mas também cometendo os meus próprios erros.” Atualmente, ele é financeiramente independente dos pais e aluga um apartamento com o namorado, com quem também comprou um carro-, além de pagar as suas contas e despesas pessoais.

Os números do mercado de trabalho

A pesquisa ainda abordou a relação dos jovens desta faixa etária com o mercado de trabalho e constatou que, entre os já inseridos profissionalmente, pelo menos 50% possuem de três a oito anos de experiência e 35% têm até dois anos. Além disso, 15% já somam mais de oito anos de atuação, apontando para uma necessidade de ingresso no mercado de trabalho mais cedo.

Um levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego, divulgado em abril, mostrou que a taxa de desemprego dos jovens entre 14 e 24 anos de idade caiu pela metade em relação ao mesmo período em 2019. O indicador passou de 25,2% no quarto trimestre de 2019, quando teve início a série histórica, para 14,3% no ano passado. Isso significa que o número de jovens sem emprego passou de 4,8 milhões de pessoas em 2019 para 2,4 milhões em 2024.

De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de maio, dos 148.992 novos empregos formais, 98.003 são ocupados por jovens de 18 a 24 anos. Considerando ainda os postos de Jovem Aprendiz, para jovens abaixo desta faixa etária, somam-se mais 26.312 vagas. Diante do levantamento, o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, rechaçou na última segunda-feira declarações de que os jovens brasileiros não querem mais trabalhar em regime CLT e querem apenas empreender. “Isso derruba por terra essa certeza de muita gente que diz: ‘Os trabalhadores jovens não estão aceitando ir para o mercado formal de trabalho’. O que os jovens não desejam é ter um chefe chato 8 horas no seu ouvido e ganhando pouco.”

Os chamados “nem-nem”, geração de jovens entre os 18 e os 24 anos que, apesar de estarem em idade ativa, não estão inseridos no mercado de trabalho e nem nas instituições de ensino, ou seja, não trabalham e nem estudam, também apresentaram queda. Dados de 2024 mostram que o número soma 5,3 milhões, menor patamar na série histórica. O quantitativo de estagiários também continua crescendo e passou de 642 mil em 2023 para 990 mil no primeiro bimestre de 2025.

Áreas como as da tecnologia, mercado financeiro e análise de dados ganham destaque e são mais procuradas, em parte por exigirem habilidades dominadas pelos jovens mesmo com menos experiência profissional, já que a Geração Z possui mais familiaridade com a tecnologia, o que faz com que fiquem mais saturadas. Nesse contexto, os jovens que ingressam hoje no mercado de trabalho precisam achar formas de se destacar. “Tudo isso é ciclo, só porque agora existem certas profissões e áreas em alta não quer dizer que isso vai se manter para sempre”, avalia o economista Gustavo Frio.

Em relação às prioridades dentro do mercado de trabalho, a Geração Z já apresenta outro perfil. O economista avalia que hoje existe uma preocupação maior com saúde mental, além de educação financeira. “As gerações anteriores priorizaram o trabalho acima de tudo e houve uma explosão de problemas de saúde mental. Já as gerações mais novas preferem prevenir do que remediar”, explica.

Quando questionados pela pesquisa da Serasa sobre o que mais valorizam nas empresas, os jovens na faixa etária dos 18 aos 29 anos confirmam que o salário não está entre as principais preocupações. O que consideram mais importante é a oportunidade de aprendizado (58%), seguido de equilíbrio entre vida profissional e pessoal (49%), desenvolvimento de carreira (48%) e benefícios oferecidos (47%). Somente em 5º lugar neste ranking de prioridades aparece a remuneração, com 41%.

Saúde financeira depende de planejamento

Pensando no cenário atual da inflação no país, parcelar valores altos em muitas vezes pode não ser uma boa opção. Logo que começou a ganhar o próprio salário, essa era uma das maiores dificuldades enfrentadas por José Marques, que relata que gastava todo o dinheiro no pagamento da fatura e nunca conseguia manter uma reserva. Hoje ele estabeleceu algumas estratégias para manter a saúde financeira, como realizar a maior parte de suas compras à vista, utilizando o crédito apenas para coisas de maior valor agregado, e, mesmo assim, estipulando um número máximo de parcelas.

Os jovens que dão os primeiros passos em direção à independência financeira hoje enfrentam desafios para adquirir casa ou carro próprio em função dos juros elevados, que, de acordo com o economista Gustavo Frio, podem persistir se a inflação continuar forte. Com isso, ter dívidas fica mais caro e um financiamento pode não ser uma boa opção.

O estudante Vinícius Morele, de 23 anos, aproveita o momento em que ainda mora com o pai e não precisa contribuir para as contas da casa para guardar um pouco mais de dinheiro. O objetivo para um futuro próximo é ir morar com a namorada e talvez comprar um carro.

Desde 2018, ele trabalha e investe e, desde 2023, começou a se organizar com planilhas para controlar os gastos e estabelecer metas mensais para guardar dinheiro. “Uma das minhas maiores dificuldades hoje é aguentar a vontade de gastar dinheiro com coisas de que eu não preciso. Mas, num geral, também acho que hoje se gasta muito com comida, deslocamento e ainda mais para sair com amigos e manter uma vida social, além dos gastos inesperados com saúde que podem surgir”, pondera.

De acordo com Frio, mais do que buscar um salário alto, é necessário gerenciar as finanças de forma equilibrada e sustentável, buscando saúde financeira a longo prazo. Ele explica que, até os 40 anos, a tendência é que os rendimentos sigam aumentando e, depois dessa idade, eles comecem a baixar, então, é preciso estar preparado. “Também é necessário pensar no que aconteceria no caso de perder o emprego. Tenho como me manter com o capital que eu tenho? Se isso acontecer quando eu for mais velho, como vou me reinserir no mercado de trabalho? Todos esses são fatores importantes”, ressalta o economista.

Para isso, a recomendação é evitar gastos desnecessários ou que possam comprometer a estabilidade financeira. Além disso, considerar os juros e pensar bem antes de gastar com coisas grandes. O especialista alerta que nem sempre vale a pena parcelar um carro muitas vezes se é possível esperar mais um pouco para quando as condições estiverem melhores, por exemplo.