DE 1895 ATÉ HOJE
Por Juliano Bruni
O Correio do Povo nasceu de uma sociedade marcada por um dos conflitos mais sangrentos da história brasileira. A prática da degola ilustra a agressividade a que chegaram as disputas partidárias na Revolução Federalista de 1893-1895. A guerra era efeito da turbulenta acomodação do sistema republicano. O “estranhamento” com a República foi causa direta ou indireta de diversas perturbações no primeiro decênio após a Proclamação do marechal Deodoro da Fonseca, em 1889. Tensões entre militares que governavam o país afloraram. O tom messiânico monarquista de Antônio Conselheiro, na Bahia, transformou Canudos em problema nacional. O distante Acre ganhou o centro das atenções da diplomacia, disputado entre Brasil e Bolívia. Ações civis e urbanas — como a remoção do cortiço Cabeça de Porco, no Rio de Janeiro, e a posterior Revolta da Vacina — apontaram para uma modernização às pressas, preocupada em diminuir o que era visto como atraso civilizacional. Culturalmente, o Brasil viu o futebol chegar da Inglaterra; a língua do refinamento e da moda da França; da América do Norte vinham sugestões de gestão pública e empreendedorismo. Os cabos telegráficos foram espalhados pelo planeta, promovendo comunicação global nunca antes vista.
O século XX se inicia com inovações técnicas florescendo no centro e chegando à periferia do capitalismo. A luz elétrica começou a iluminar grandes cidades brasileiras e a mover bondes e fábricas. O cinema surgiu como força imparável e Santos Dumont voou sobre Paris, abrindo as portas da aviação. A ideia da Belle Époque europeia escondia para baixo do tapete questões espinhosas – como o imperialismo e o colonialismo extremamente agressivos –, enquanto proporcionava um estado de espírito confiante no progresso. A primeira Revolução Russa, de 1905, escancarou a realidade da contestação ao status quo capitalista. No Brasil, a Revolta da Chibata (1910) soou como doloroso lembrete de que a escravidão não havia apagado suas marcas.
A imigração estrangeira (italianos, alemães, poloneses, ucranianos, japoneses e outros), pensada para suprir o “vazio” deixado pelo fim do regime escravista e atualizar a agenda de “branqueamento” da população, produziu nos grandes centros a ebulição das ideias surgidas a partir da organização dos trabalhadores. A República se consolidou equilibrando-se na política do “café com leite” (o famoso acordo entre as elites de São Paulo e Minas Gerais para a manter o poder), mas deveria ainda superar desafios na forma de guerras internas e disputas políticas, por vezes radicalizadas, como ilustra o assassinato do senador Pinheiro Machado em 1915. O Contestado (1912-1916) trouxe à tona o problema da distribuição de terras, novamente com viés messiânico, enquanto o RS voltou a pegar em armas na Revolução de 1923. Em 1918, a gripe espanhola traumatizou a nação. No plano global, o mundo foi sacudido pela Grande Guerra (1914-1918), até então o maior conflito da história humana. Ao fim da conflagração, começa um período tenso e frenético.
Com a estagnação brasileira, segmentos subalternos do exército iniciam o movimento tenentista na década de 1920. Os pilares políticos da nação são abalados com contestações armadas no Rio em 1922, no Rio Grande em 1923 e em São Paulo em 1924. A Semana de Arte Moderna sacode intelectualmente o país. Do sul do país, vem um desafio à estabilidade da República: militares revoltosos liderados por Luís Carlos Prestes começam marcha de três anos pelo Brasil para levantar o povo contra o governo. São vencidos, mas o Capitão da Esperança irá se tornar uma das principais figuras do século no Brasil.
A COMUNICAÇÃO
Do mudo ao sonoro e em cores, o cinema ascendeu como força cultural. Nos EUA, a Lei Seca motivou debates em diversas partes do planeta. Al Capone surgiu como a figura quase fantástica do vilão em uma sociedade já romantizada pelas telas. A máfia americana se tornou o “inimigo público n° 1”, ocupando o imaginário americano por décadas. O feminismo causou furor, espocando em atitudes desafiadoras (o corte curto de cabelo a la garçonne, o vestuário, o fumo e, talvez mais representativo, a participação crescente no mercado de trabalho). O gaúcho Getúlio Vargas intrometeu-se no arranjo pré-programado da eleição presidencial, levou um “chega pra lá” e, um ano depois, em 1930, após levantes em quartéis de norte a sul, chefiou à Junta Governativa que depôs o presidente Washington Luís. Terminava a Primeira República e, como se dizia, o Brasil entrava finalmente no século XX.
O rádio revolucionou a comunicação entre os anos 1920 e 1930. Suas ondas transmitiram novidades vindas da Alemanha derrotada na Primeira Guerra. A ascensão de Adolf Hitler ao poder significou a arrancada a uma situação cada vez mais perigosa. A Grande Depressão assolou os EUA e colocou dúvidas sobre a capacidade do capitalismo de solucionar suas crises. O getulismo no Brasil aos poucos concedia às camadas populares direitos até então desconhecidos. O estilo “homem forte” de Vargas foi desafiado por parcela da população de São Paulo, que, em 1932, desencadeia a Revolução Constitucionalista, pedindo o fim do governo. A economia paulista centrada no café, pilar de sustentação nacional, sofre golpes duros com a crise mundial. O “novo século” começava aos trancos para Getúlio e o Brasil.
VENTOS AUTORITÁRIOS
Da Europa, ventos autoritários soprados por Mussolini e Hitler trouxeram ideias que foram adaptadas ao nosso “clima”. O poder presidencial resistia a pressões de ambos os lados: o integralismo de Plínio Salgado (ideologia fascista) chegou a reunir mais de 300 mil adeptos e, em 1935 a Intentona Comunista fustigou o governo.
No “primeiro mundo”, desentendimentos da era imperialista levaram todos em passo acelerado à Segunda Guerra, que atualizou a barbárie e se tornou o maior conflito da história. Ao fim da conflagração, o planeta conheceu o horror da bomba nuclear. Sua capacidade de destruição e o medo dela definiram uma era. A Guerra Fria e a Era Atômica atravessaram juntas o restante do século.
Vargas foi empilhando inovações à classe trabalhadora (salário mínimo, férias remuneradas, 13° salário, auxílios vários). Os conflitos trabalhistas e sindicais foram regulamentados e controlados pelo Estado. Getúlio virou o “Pai dos Pobres”, enquanto nas elites fermentava a insatisfação. O mundo ficou definido pela rivalidade entre capitalismo, liderado pelos EUA, e a comunismo, encampado pela URSS. O Brasil, pressionado pelo vizinho do Norte, estabeleceu uma forma de vida com o acenos a ambos os campos. Getúlio foi removido do posto, matou-se em 1954 na intenção de arregimentar as massas contra seus algozes, com efeito muito limitado. Uma década depois, o Golpe Militar instala seu regime invocado a defesa contra “a ameaça comunista”. O país havia novamente sofrido dois solavancos em sua marcha século XX adentro.
EUA e União Soviética se ameaçavam com armas nucleares e movimentos arriscados — como a Crise dos Mísseis (1962) e a Guerra do Vietnã (1955 a 1975). Na segunda metade dos anos 1960, uma revolução jovem protestou contra a atmosfera asfixiante. Costumes foram desafiados, a arte foi revigorada e a política passou pela reivindicação dos jovens. Os efeitos foram duradouros, mas a reação arrefeceu boa parte deles. Nas democracias centrais, os “velhos” retomaram as rédeas nos anos 1970: a economia foi reformulada com doses de antigas fórmulas e o neoliberalismo acelerou sua dominação a partir do Chile pós-golpe de 1973; a França resistiu à contestação de Maio de 1968; os EUA viveram tempos traumáticos, com mortos em universidades, passeatas anti-guerra e escândalos políticos, mas a vantagem contra seu antagonista estava alargada. Na periferia do capitalismo, a sociedade civil mantinha-se relativamente quieta sob o olhar dos generais, excetuando-se episódios como os movimentos guerrilheiros sul-americanos.
Nesse meio tempo, a África se descolonizou, porém, ainda amarrada aos seus dominadores pelas vias econômicas e políticas. O continente foi lançado a uma aparente insignificância geopolítica, ao mesmo tempo em que se manteve a mina de ouro da exploração natural. O homem chegou à lua em 1969 e a Guerra Fria esteve a ponto de ser transferida para as estrelas. O afã atômico das potências arrefeceu na virada para os anos 1980, época em que um dos competidores (a URSS) começou a dar sinais de cansaço. O Brasil, e a América Latina em sua grande maioria, seguiam abafados sob a tampa da panela de pressão de suas ditaduras.
Os regimes autoritários do sul da Europa se exauriram: Estado Novo em Portugal e o Regime dos Coronéis na Grécia, em 1974, Franquismo na Espanha, em 1975. A Itália, campo de prova do embate ideológico, viveu seus Anos de Chumbo com atentados, assassinatos, sequestros e terrorismo. Permaneceu, no entanto, comprometida com o capitalismo ocidental. O bloco socialista perde forças. Diferentes países e regiões do mundo, aos poucos, foram absorvidos pela lógica neoliberal. Em 1985, o regime militar termina no Brasil. Na América do Sul, as ditaduras são encerradas uma a uma nos primeiros anos 80. O desmoronamento do Muro de Berlim em 1989 e a queda da União Soviética em 1991 lançam o mundo às cegas. Falou-se em “fim da história”...
A história ressurgiu nos anos 1990 com a hegemonia americana. A Alemanha reunificada se tornou novamente a locomotiva da Europa. Guerras localizadas espocaram pelo planeta. Os Bálcãs viraram retalhos de povos em luta. O mapa da Europa Central e do Leste foi redesenhado. A Constituição de 1988 deu aos brasileiros sensação de reparação, mas o país foi abocanhado pelo caos econômico, com inflação sem freios e projeto político claudicante. O Brasil atravessou a década aos empurrões, com a nascente rivalidade entre PT e PSDB dando o tom eleitoral. O mundo entrou no novo século, da internet, com as Torres Gêmeas vindo abaixo em Nova Iorque. No último quarto de século, a ascensão da China atualizou a disputa pela primazia global. Os governos e suas quedas agora são melhor compreendidos pelo viés da cultura online, e conceitos como pós-verdade e fake news servem de guias.
▶ ANO 130
Em 1° de outubro de 2025, o Correio do Povo, uma verdadeira instituição dos gaúchos, completa 130 anos. O jornal, que já teve suas páginas lidas por leitores de três séculos, continua a participar do cotidiano do seu público, levando informação de qualidade para que cada pessoa possa formar sua opinião com senso crítico.
A criação do jornal foi obra de um jovem de 27 anos chamado Francisco Antônio Vieira Caldas Júnior (1868–1913), nascido em Sergipe e que migrou para o Rio Grande do Sul por força das atividades de seu pai, o magistrado Francisco Antônio Vieira Caldas. Em seu primeiro editorial, fixou os compromissos que seriam observados pelo seu veículo ao longo do tempo, com apurações independentes e imparciais, alinhando-se com as grandes causas da sociedade e apoiando a consolidação da República no país, proclamada apenas sete anos antes. O texto da primeira edição do Correio do Povo funcionaria como guia para as sucessivas gerações de jornalistas que viriam a desempenhar sua função na redação desta importante “folha”, como bem designou seu fundador.
A partir de então, o Correio do Povo passou a fazer parte do cotidiano da coletividade, fazendo grandes coberturas, nacionais e internacionais, e fornecendo aos seus leitores um noticiário de qualidade, além de publicar textos relacionados à educação, história, ciência, comércio e artes em geral, incentivando a elevação de vistas e o aprimoramento cultural dos habitantes do Estado.
Igualmente, é bom relembrar que a fundação do CP se deu como uma alternativa a um meio que até então era marcado por um jornalismo de paixões segmentadas. Trazendo a credibilidade e associando-a com a modernidade e a melhor tecnologia disponível, o jornal foi desbravando o futuro, se respaldando nos seus leitores, assinantes, colaboradores e anunciantes. Foi assim que chegou aos dias de hoje, testemunha dos feitos e dos fatos ocorridos nesta porção meridional do país.
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