Especial

Retrospectiva 2025: veja também os fatos dos últimos 130 anos pelo olhar do CP

2025 também assinala os 130 anos do jornal Correio do Povo. Por isso, este especial traz também uma breve retrospectiva dessas últimas 13 décadas

Foto : Fabiano do Amaral

DE 1895 ATÉ HOJE

Por Juliano Bruni

O Correio do Povo nasceu de uma sociedade marcada por um dos conflitos mais sangrentos da história brasileira. A prática da degola ilustra a agressividade a que chegaram as disputas partidárias na Revolução Federalista de 1893-1895. A guerra era efeito da turbulenta acomodação do sistema republicano. O “estranhamento” com a República foi causa direta ou indireta de diversas perturbações no primeiro decênio após a Proclamação do marechal Deodoro da Fonseca, em 1889. Tensões entre militares que governavam o país afloraram. O tom messiânico monarquista de Antônio Conselheiro, na Bahia, transformou Canudos em problema nacional. O distante Acre ganhou o centro das atenções da diplomacia, disputado entre Brasil e Bolívia. Ações civis e urbanas — como a remoção do cortiço Cabeça de Porco, no Rio de Janeiro, e a posterior Revolta da Vacina — apontaram para uma modernização às pressas, preocupada em diminuir o que era visto como atraso civilizacional. Culturalmente, o Brasil viu o futebol chegar da Inglaterra; a língua do refinamento e da moda da França; da América do Norte vinham sugestões de gestão pública e empreendedorismo. Os cabos telegráficos foram espalhados pelo planeta, promovendo comunicação global nunca antes vista.

O século XX se inicia com inovações técnicas florescendo no centro e chegando à periferia do capitalismo. A luz elétrica começou a iluminar grandes cidades brasileiras e a mover bondes e fábricas. O cinema surgiu como força imparável e Santos Dumont voou sobre Paris, abrindo as portas da aviação. A ideia da Belle Époque europeia escondia para baixo do tapete questões espinhosas – como o imperialismo e o colonialismo extremamente agressivos –, enquanto proporcionava um estado de espírito confiante no progresso. A primeira Revolução Russa, de 1905, escancarou a realidade da contestação ao status quo capitalista. No Brasil, a Revolta da Chibata (1910) soou como doloroso lembrete de que a escravidão não havia apagado suas marcas.

A imigração estrangeira (italianos, alemães, poloneses, ucranianos, japoneses e outros), pensada para suprir o “vazio” deixado pelo fim do regime escravista e atualizar a agenda de “branqueamento” da população, produziu nos grandes centros a ebulição das ideias surgidas a partir da organização dos trabalhadores. A República se consolidou equilibrando-se na política do “café com leite” (o famoso acordo entre as elites de São Paulo e Minas Gerais para a manter o poder), mas deveria ainda superar desafios na forma de guerras internas e disputas políticas, por vezes radicalizadas, como ilustra o assassinato do senador Pinheiro Machado em 1915. O Contestado (1912-1916) trouxe à tona o problema da distribuição de terras, novamente com viés messiânico, enquanto o RS voltou a pegar em armas na Revolução de 1923. Em 1918, a gripe espanhola traumatizou a nação. No plano global, o mundo foi sacudido pela Grande Guerra (1914-1918), até então o maior conflito da história humana. Ao fim da conflagração, começa um período tenso e frenético.

Com a estagnação brasileira, segmentos subalternos do exército iniciam o movimento tenentista na década de 1920. Os pilares políticos da nação são abalados com contestações armadas no Rio em 1922, no Rio Grande em 1923 e em São Paulo em 1924. A Semana de Arte Moderna sacode intelectualmente o país. Do sul do país, vem um desafio à estabilidade da República: militares revoltosos liderados por Luís Carlos Prestes começam marcha de três anos pelo Brasil para levantar o povo contra o governo. São vencidos, mas o Capitão da Esperança irá se tornar uma das principais figuras do século no Brasil.

A COMUNICAÇÃO

Do mudo ao sonoro e em cores, o cinema ascendeu como força cultural. Nos EUA, a Lei Seca motivou debates em diversas partes do planeta. Al Capone surgiu como a figura quase fantástica do vilão em uma sociedade já romantizada pelas telas. A máfia americana se tornou o “inimigo público n° 1”, ocupando o imaginário americano por décadas. O feminismo causou furor, espocando em atitudes desafiadoras (o corte curto de cabelo a la garçonne, o vestuário, o fumo e, talvez mais representativo, a participação crescente no mercado de trabalho). O gaúcho Getúlio Vargas intrometeu-se no arranjo pré-programado da eleição presidencial, levou um “chega pra lá” e, um ano depois, em 1930, após levantes em quartéis de norte a sul, chefiou à Junta Governativa que depôs o presidente Washington Luís. Terminava a Primeira República e, como se dizia, o Brasil entrava finalmente no século XX.

O rádio revolucionou a comunicação entre os anos 1920 e 1930. Suas ondas transmitiram novidades vindas da Alemanha derrotada na Primeira Guerra. A ascensão de Adolf Hitler ao poder significou a arrancada a uma situação cada vez mais perigosa. A Grande Depressão assolou os EUA e colocou dúvidas sobre a capacidade do capitalismo de solucionar suas crises. O getulismo no Brasil aos poucos concedia às camadas populares direitos até então desconhecidos. O estilo “homem forte” de Vargas foi desafiado por parcela da população de São Paulo, que, em 1932, desencadeia a Revolução Constitucionalista, pedindo o fim do governo. A economia paulista centrada no café, pilar de sustentação nacional, sofre golpes duros com a crise mundial. O “novo século” começava aos trancos para Getúlio e o Brasil.

VENTOS AUTORITÁRIOS

Da Europa, ventos autoritários soprados por Mussolini e Hitler trouxeram ideias que foram adaptadas ao nosso “clima”. O poder presidencial resistia a pressões de ambos os lados: o integralismo de Plínio Salgado (ideologia fascista) chegou a reunir mais de 300 mil adeptos e, em 1935 a Intentona Comunista fustigou o governo.

No “primeiro mundo”, desentendimentos da era imperialista levaram todos em passo acelerado à Segunda Guerra, que atualizou a barbárie e se tornou o maior conflito da história. Ao fim da conflagração, o planeta conheceu o horror da bomba nuclear. Sua capacidade de destruição e o medo dela definiram uma era. A Guerra Fria e a Era Atômica atravessaram juntas o restante do século.

Vargas foi empilhando inovações à classe trabalhadora (salário mínimo, férias remuneradas, 13° salário, auxílios vários). Os conflitos trabalhistas e sindicais foram regulamentados e controlados pelo Estado. Getúlio virou o “Pai dos Pobres”, enquanto nas elites fermentava a insatisfação. O mundo ficou definido pela rivalidade entre capitalismo, liderado pelos EUA, e a comunismo, encampado pela URSS. O Brasil, pressionado pelo vizinho do Norte, estabeleceu uma forma de vida com o acenos a ambos os campos. Getúlio foi removido do posto, matou-se em 1954 na intenção de arregimentar as massas contra seus algozes, com efeito muito limitado. Uma década depois, o Golpe Militar instala seu regime invocado a defesa contra “a ameaça comunista”. O país havia novamente sofrido dois solavancos em sua marcha século XX adentro.

EUA e União Soviética se ameaçavam com armas nucleares e movimentos arriscados — como a Crise dos Mísseis (1962) e a Guerra do Vietnã (1955 a 1975). Na segunda metade dos anos 1960, uma revolução jovem protestou contra a atmosfera asfixiante. Costumes foram desafiados, a arte foi revigorada e a política passou pela reivindicação dos jovens. Os efeitos foram duradouros, mas a reação arrefeceu boa parte deles. Nas democracias centrais, os “velhos” retomaram as rédeas nos anos 1970: a economia foi reformulada com doses de antigas fórmulas e o neoliberalismo acelerou sua dominação a partir do Chile pós-golpe de 1973; a França resistiu à contestação de Maio de 1968; os EUA viveram tempos traumáticos, com mortos em universidades, passeatas anti-guerra e escândalos políticos, mas a vantagem contra seu antagonista estava alargada. Na periferia do capitalismo, a sociedade civil mantinha-se relativamente quieta sob o olhar dos generais, excetuando-se episódios como os movimentos guerrilheiros sul-americanos.

Nesse meio tempo, a África se descolonizou, porém, ainda amarrada aos seus dominadores pelas vias econômicas e políticas. O continente foi lançado a uma aparente insignificância geopolítica, ao mesmo tempo em que se manteve a mina de ouro da exploração natural. O homem chegou à lua em 1969 e a Guerra Fria esteve a ponto de ser transferida para as estrelas. O afã atômico das potências arrefeceu na virada para os anos 1980, época em que um dos competidores (a URSS) começou a dar sinais de cansaço. O Brasil, e a América Latina em sua grande maioria, seguiam abafados sob a tampa da panela de pressão de suas ditaduras.

Os regimes autoritários do sul da Europa se exauriram: Estado Novo em Portugal e o Regime dos Coronéis na Grécia, em 1974, Franquismo na Espanha, em 1975. A Itália, campo de prova do embate ideológico, viveu seus Anos de Chumbo com atentados, assassinatos, sequestros e terrorismo. Permaneceu, no entanto, comprometida com o capitalismo ocidental. O bloco socialista perde forças. Diferentes países e regiões do mundo, aos poucos, foram absorvidos pela lógica neoliberal. Em 1985, o regime militar termina no Brasil. Na América do Sul, as ditaduras são encerradas uma a uma nos primeiros anos 80. O desmoronamento do Muro de Berlim em 1989 e a queda da União Soviética em 1991 lançam o mundo às cegas. Falou-se em “fim da história”...

A história ressurgiu nos anos 1990 com a hegemonia americana. A Alemanha reunificada se tornou novamente a locomotiva da Europa. Guerras localizadas espocaram pelo planeta. Os Bálcãs viraram retalhos de povos em luta. O mapa da Europa Central e do Leste foi redesenhado. A Constituição de 1988 deu aos brasileiros sensação de reparação, mas o país foi abocanhado pelo caos econômico, com inflação sem freios e projeto político claudicante. O Brasil atravessou a década aos empurrões, com a nascente rivalidade entre PT e PSDB dando o tom eleitoral. O mundo entrou no novo século, da internet, com as Torres Gêmeas vindo abaixo em Nova Iorque. No último quarto de século, a ascensão da China atualizou a disputa pela primazia global. Os governos e suas quedas agora são melhor compreendidos pelo viés da cultura online, e conceitos como pós-verdade e fake news servem de guias.

▶ ANO 130

Em 1° de outubro de 2025, o Correio do Povo, uma verdadeira instituição dos gaúchos, completa 130 anos. O jornal, que já teve suas páginas lidas por leitores de três séculos, continua a participar do cotidiano do seu público, levando informação de qualidade para que cada pessoa possa formar sua opinião com senso crítico.

A criação do jornal foi obra de um jovem de 27 anos chamado Francisco Antônio Vieira Caldas Júnior (1868–1913), nascido em Sergipe e que migrou para o Rio Grande do Sul por força das atividades de seu pai, o magistrado Francisco Antônio Vieira Caldas. Em seu primeiro editorial, fixou os compromissos que seriam observados pelo seu veículo ao longo do tempo, com apurações independentes e imparciais, alinhando-se com as grandes causas da sociedade e apoiando a consolidação da República no país, proclamada apenas sete anos antes. O texto da primeira edição do Correio do Povo funcionaria como guia para as sucessivas gerações de jornalistas que viriam a desempenhar sua função na redação desta importante “folha”, como bem designou seu fundador.

A partir de então, o Correio do Povo passou a fazer parte do cotidiano da coletividade, fazendo grandes coberturas, nacionais e internacionais, e fornecendo aos seus leitores um noticiário de qualidade, além de publicar textos relacionados à educação, história, ciência, comércio e artes em geral, incentivando a elevação de vistas e o aprimoramento cultural dos habitantes do Estado.

Igualmente, é bom relembrar que a fundação do CP se deu como uma alternativa a um meio que até então era marcado por um jornalismo de paixões segmentadas. Trazendo a credibilidade e associando-a com a modernidade e a melhor tecnologia disponível, o jornal foi desbravando o futuro, se respaldando nos seus leitores, assinantes, colaboradores e anunciantes. Foi assim que chegou aos dias de hoje, testemunha dos feitos e dos fatos ocorridos nesta porção meridional do país.

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