No coração do Vale do Taquari, ecoa um bicentenário de cultura vibrante: a herança germânica, que celebra neste 25 de julho 200 anos de imigração. Mais do que costumes e tradições, essa identidade moldou a alma da região, entrelaçando-se na vida do povo e perpetuando-se através dos tempos. Em Estrela, essa conexão se intensifica, tornando-se um espetáculo vivo.
Berço dos Grupos de Danças Folclóricas Alemãs, fundados em 1964, a cidade ostenta o título de lar da mais antiga entidade do segmento em atividade ininterrupta no Brasil. Mais do que passos sincronizados e trajes típicos, esses grupos são guardiões da memória, preservando a riqueza cultural e transmitindo-a às novas gerações.
O Correio do Povo acompanhou os ensaios de algumas de suas 14 categorias, registrando a alegria e a expectativa para o festival, um dos principais cuja presença das danças folclóricas é celebrada e motivo de imenso orgulho local. “O grupo tem uma atividade muito intensa durante o ano. E isto é uma grande vitrine de Estrela para todos os lugares que vamos”, contou, na ocasião, seu instrutor-geral, Andréas Hamester.
Os números do grupo confirmam o sucesso: segundo Hamester, 2023 encerrou com 72 apresentações, e até abril deste ano, já haviam sido 14. Em seis décadas, as categorias dos Grupos de Danças Folclóricas Alemãs de Estrela, com idades a partir dos três anos, haviam feito mais de 2,1 mil, com mais de 700 cidades de dez estados do Brasil visitados, bem como 15 países da América Latina e Europa. As categorias em si são segregadas apenas pelo critério da idade, porém seus integrantes são unidos pela paixão à cultura germânica.
Mas, ainda que o grupo carregue a alcunha alemã em seu nome, as danças ensaiadas e praticadas, e que enchem os olhos do público no Brasil e exterior, incluem até mesmo passos de coreografias gauchescas e brasileiras, como samba, frevo, chula, entre outros. Ao longo do tempo, o espaço e a equipe se modernizaram, porém com olhar no passado. Tanto o profissionalismo na gestão quanto o sentimento familiar fazem com que a média temporal de permanência no grupo seja alta.
“Temos, hoje, cerca de 200 dançarinos que devem ter começado com três, quatro anos. Isto é muito normal. Eles permanecem aqui a vida toda”, conta Andréas, cuja história de vida se confunde com a do grupo, que, por sua vez, costuma receber dançarinos de outros países. Ainda pequenos, fihos de integrantes são estimulados a ingressar nas categorias mais jovens.
Bicentenário da Imigração Alemã no RS - Grupo de Danças Folclóricas Alemãs em Estrela
“Já vi uma enxurrada de ligações dos pais dizendo sempre a mesma coisa: meu filho já tem três anos, já é hora de dançar”, conta o instrutor-geral. Os trajes são confeccionados artesanalmente a partir de materiais tradicionais, alguns deles vindos do exterior, e cedidos aos integrantes em sistema de comodato para serem usados nas apresentações. Os dançarinos ainda promovem eventos para a comunidade, buscando juntar recursos para sua manutenção e apoio para viagens.
As categorias ditas competitivas, e que ajudam a emoldurar de troféus e reconhecimentos as paredes do salão de sua sede, o Lar do Jovem, são as Oficiais A e B, que tem, entre seus integrantes, João Victor Schwarz Acadrolli, 15 anos, filho da cabeleireira Luciane Schwarz, 50. Ela, por sua vez, integra a categoria Pais. “Vejo essas danças como uma grande responsabilidade, já que representamos toda uma cultura. Nossas apresentações fazem com que mais gente queira conhecê-la”, salientou Acadrolli.
Também integrantes do grupo de danças, o casal Ernani Paulo Sehn e Aneli Kich Sehn seriam comendadores do Festival do Chucrute neste ano, caso tivesse ocorrido, devido à historia de décadas de ambos na organização do evento. Ambos são exemplos vivos da manutenção das tradições culturais e gastronômicas, já que há toda uma técnica para o preparo do chucrute, o repolho fermentado, e que ambos conhecem muito bem. Evidentemente, tal receita é carimbada na mesa de toda família de ascendência germânica na região do Taquari.
“A gente faz tudo com amor, e acredito isso ser essencial nesta comunidade. Se algo acontecer, nos defendemos mutuamente. Praticamente, podemos dizer que somos uma família”, afirma Ernani. Outros pratos indispensáveis da culinária germânica são a batata a vapor, o eisbein, como é chamado o joelho de porco cozido, e a salsicha bockwurst. “No início, fazíamos em pratos de papelão. Depois, veio a praticidade com pratos de louça, e os buffets aumentaram, de 300, 400 pessoas por ano para 2 a 3 mil”, comenta Aneli, também presidente da Comunidade Evangélica Luterana em Estrela.
Antes da enchente no Rio Grande do Sul, o grupo de preparava para o 57º Festival do Chucrute do município, que seria em maio. Mas a festa acabou não acontecendo em razão da tragédia que afetou duramente a região. No último dia 29 de abril, havia recém se realizado um ensaio com 48 membros da categoria Semi Oficial, voltada para jovens de 11 e 12 anos.
Memorial de Estrela registra a história e a cultura
No Centro do município, outro dos destaques é o Memorial de Estrela, inaugurado em 2021, e cujo objetivo é registrar a história da sociedade e economia regionais, alicerçada não somente pela presença germânica, mas em função dela. O museu, de acervo formado por um arquivo permanente de itens diversos, como fotografias, vídeos, antigas reportagens, entre outros, é coordenado pelo historiador Airton Engster dos Santos, que recebe os visitantes de maneira calorosa.
Até antes das enchentes, havia no local a exposição “Azulejos de Estrela – O Legado da Colonização Alemã”, alusiva à construção da região pelos antepassados. “Ainda hoje é muito forte esta tradição alemã, tanto nos nomes, quanto na cultura e música. Quando iniciou a colonização aqui, recebemos 2,8 mil famílias, que praticamente começaram do zero. Depois, elas se organizaram, construíram igrejas, comunidades, e tudo isto a partir da unidade delas. Percebemos, nas pesquisas que fizemos, que tudo foi com muita luta e sacrifício”, comenta ele, destacando, desta época, aspectos da educação e religião.
Bicentenário da Imigração Alemã no RS - Memorial de Estrela: "Azulejos de Estrela - O legado da colonização alemã"
Ele afirma ver Estrela atualmente como uma mistura de diversas etnias, iniciando com os povos indígenas, primeiros habitantes do Vale do Taquari. “Estamos falando de portugueses, negros, alemães e italianos. O porto e as agroindústrias trouxeram um importante crescimento populacional. Estrela sempre teve a capacidade de se reinventar nos momentos de grandes dificuldades”, pontuou Angster, já citando as recentes tragédias climáticas. “Tanto os nativos, quanto os povos que chegaram depois, demonstraram permanente capacidade de união para superar as adversidades”.
🎯Leia mais sobre a história e a cultura germânica página Especial sobre o Bicentenário da Imigração Alemã do Correio do Povo.