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Sem moradores, Hospital Psiquiátrico São Pedro se dedica à assistência

No ano passado, a instituição de 141 anos se despediu de seu último residente, que passou a viver em um residencial terapêutico

Complexo conta com prédios históricos que preservam a memória do tratamento psiquiátrico
Complexo conta com prédios históricos que preservam a memória do tratamento psiquiátrico Foto : Camila Cunha

Foi em uma manhã fria de junho de 2025 que o Hospital Psiquiátrico São Pedro (HPSP) despediu-se de seu último morador. A saída para fora dos altos muros do complexo, que permanece de pé há 141 anos, na zona Leste de Porto Alegre, representou um marco na história da saúde mental no Rio Grande do Sul, encerrando um ciclo sombrio de mais de um século de vidas institucionalizadas. Hoje, sua moradia é em Viamão, em um Serviço de Residência Terapêutica (SRT), que atua como alternativa para os pacientes que não contam com suporte e vínculo familiar após sua liberação.

Os corredores do complexo, no entanto, não estão vazios. Sem moradores, a instituição continua a fazer parte da rede de atenção, atuando como serviço especializado para distúrbios relacionados a transtornos mentais, mas com internação hospitalar apenas para casos agudos, até 21 dias, podendo ultrapassar este prazo dependendo do caso. O espaço também conta com ambulatório para mais de dez subespecialidades, com cerca de 2 mil consultas mensais. A Secretaria Estadual da Saúde (SES) busca manter o espaço como referência no cuidado com a saúde mental.

O hospital passou por processos de evolução no tratamento ao longo das últimas décadas. Fundado em 29 de junho de 1884, o HPSP já abrigou até 5 mil pacientes internados simultaneamente, entre institucionalizados e temporários. Chamado à época de “Hospício São Pedro”, o local foi caracterizado inicialmente para receber pessoas com comportamentos considerados “insanos”. Em meio a políticas de saneamento social, quem cometesse qualquer ato fora dos padrões, remetidos à loucura, era considerado uma ameaça e mandado ao hospital, onde passavam por tratamentos. Entre eles, a eletroconvulsoterapia, também conhecida por eletrochoques.

“Há 140 anos atrás, não existia uma perspectiva científica da psiquiatria. As doenças ainda eram consideradas miasmas, bruxarias. O São Pedro recebeu grandes cientistas e psiquiatras da época. Se fez muita ciência e muita pesquisa aqui, desenvolvendo muita técnica que chega hoje na moderna psiquiatria”, afirma Letícia Ikeda, diretora dos Hospitais Próprios do Estado.

Hospital Psiquiátrico São Pedro atua há 141 anos | Foto: Camila Cunha

O cenário da internação deu seus passos de mudança a partir da Lei nº 10.216, da Reforma Psiquiátrica, a chamada Lei Antimanicomial, promulgada em 2001, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Com a legislação, não deveria haver mais pacientes institucionalizados. Foi a partir daí que começou, no Rio Grande do Sul, o processo de desinstitucionalização dos antigos moradores, que foram progressivamente deixando o hospital e passando a viver nos Serviços Residenciais Terapêuticos – que foi inaugurado em Porto Alegre no ano seguinte. É numa dessas residências que vive hoje o último morador do São Pedro.

Último residente viveu décadas internado

Leandro (o nome é fictício para preservar a identidade do paciente) tinha 17 anos quando cruzou as portas do Hospital São Pedro pela primeira vez, começando um percurso que duraria décadas. Seu diagnóstico, à época, era de esquizofrenia, com um grau de retardo mental, atualmente denominado Deficiência Intelectual (DI).

Jerri Nardi, técnico de enfermagem que acompanhou o último morador do São Pedro por 9 anos | Foto: Pedro Piegas

Na unidade fechada, onde passou a maior parte de seu tratamento, carregava o rótulo de paciente agressivo, lembra Jerri Nardi, técnico de enfermagem que o acompanhou por quase nove anos. Com 16 anos de trabalho na instituição, sendo 13 deles na área de moradia, o profissional aprendeu que, na psiquiatria, o tempo dita as regras tanto quanto os remédios.

As medicações foram, desde sempre, a base do tratamento, em que o corpo passou a obedecer a rotina. Ainda assim, Leandro nunca deixou de ser imprevisível. Podia estar calmo, presente e, de repente, uma crise surgia. “Tu ficavas com ele pertinho, ele ficava bem. Mas, às vezes, do nada… tinha que ter cuidado”, resume o técnico.

Leandro viveu na unidade fechada durante quase 20 anos, o que é considerado tempo demais para qualquer paciente. Mas o grau de complexidade de seu caso fazia com que ele permanecesse ali. O morador nunca saía para fora do hospital, e uma das poucas exceções foi uma breve ida à padaria, acompanhado por um técnico e uma assistente social. Quando foi levado para a unidade aberta, com mais liberdade de circulação, a equipe observava com atenção até onde ele iria e como poderia mantê-lo. “Era uma tentativa”, conta Nardi. “E ele se deu bem.”

A rotina é fundamental para qualquer paciente. Leandro acordava por volta das 9h, tomava seu café da manhã junto com a medicação e depois ia para o banho – geralmente sozinho. Ele gostava de estar junto na convivência diária, mas também precisava de momentos a sós. Quando tinha vontade, fazia suas caminhadas pelas dependências do hospital, atividade que mais gostava. E era fácil de perceber: se aceitava o convite, vestia a roupa e saía. Se não, apenas recolhia-se no quarto. Inclusive, sempre teve um quarto individual por conta de sua condição, que exigia esse cuidado.

Qualquer tipo de mudança na rotina já era difícil para o paciente se adaptar, como trocas de unidades, ou até mesmo redução no número de moradores. “Esses momentos eram os piores”, relata o técnico.

Apesar do temperamento, Leandro também tinha marcas de afeto. Ele gostava, por exemplo, de dar apelidos às pessoas no hospital, com nomes que faziam sentido apenas para ele – talvez remetesse a alguma lembrança. Ao se alimentar, pedia porções sempre em dobro, e o que mais gostava era de doces. Se confiava em alguém, o paciente aceitava sair e estar junto – o que foi o caso de Nardi. “Quando ele sentia confiança em ti, tu podias ir com ele a qualquer lugar”, lembra.

O contato com a família nunca se rompeu por completo. Sua mãe o visitava e estava presente até o fim da vida, quando faleceu de Covid-19. Após, foi a irmã e o cunhado que assumiram a responsabilidade. Porém, a possibilidade de voltar a conviver com a família após sua saída nunca foi uma considerada viável para ambos os lados. “Se fosse, ficaria fechado dentro de casa. Não seria bom para ele nem para os familiares”, avalia Nardi.

Os residenciais terapêuticos

Com o avanço da reforma psiquiátrica e o fechamento das moradias dentro do hospital, Leandro foi, por muitos anos, o último a permanecer naquele espaço. Quando, enfim, começou a organização para sua saída definitiva, foram seis meses de preparação e adaptação. A transferência para o Serviço Residencial Terapêutico em Viamão foi lenta e cuidadosa. Primeiro foram feitas visitas, depois ele passou uma noite, até que ocorreu a mudança final.

Hoje, Leandro tem um quarto separado e acompanhamento constante. Está protegido, mas não mais enclausurado. O técnico de enfermagem do São Pedro não teve mais contato com ele, mas recebe, eventualmente, fotos enviadas pela equipe, em que ele aparece até mesmo jogando futebol. Para quem cuidou do morador por tanto tempo, sua saída é simbólica. “A gente faz o melhor aqui dentro. Mas sair deste ambiente hospitalar e ir para um espaço onde ele é bem cuidado foi muito bom”, aponta Nardi.

Sem mais moradores, o destino dos que deixaram o local e não contavam com suporte e vínculo familiar é o Serviço de Residência Terapêutica, como alternativa de moradia para os pacientes no processo de desinstitucionalização. Podem ir para esses espaços pessoas que viveram por pelo menos dois anos em instituições de longa permanência, como os hospitais psiquiátricos ou de custódia.

O processo é feito em várias etapas e não tem um fim definido, explica a diretora do Departamento de Atenção Primária e Políticas de Saúde (DAPPS) da Secretaria Estadual da Saúde, Marilise Fraga de Souza. "As pessoas que moraram por longa permanência em hospitais psiquiátricos ou hospitais de custódia, de alguma forma, precisam reaver sua autonomia, sua possibilidade de viver em comunidade, de ter suas vidas ativas, ou serem inseridas no mercado de trabalho, dentre outras tantas coisas que podem fazer junto a sua comunidade", afirma.

O processo é, primeiramente, burocrático, com análise de documentações, de prontuários do paciente, de como foi sua vida na instituição e por qual motivo foi institucionalizado. Cabe, também, no plano terapêutico, ouvir a família, caso haja contato, e os interesses em voltar a acolher o morador após sua saída, o que é sempre a principal alternativa.

Nos casos em que não é possível retornar ao lar familiar, os SRT são estratégias de inserção à comunidade, mas, principalmente, para auxiliar a desenvolver a autonomia dessas pessoas. As condições clínicas também são fatores importantes para definir o tipo de residencial que o paciente irá necessitar. "Quando a pessoa está em uma instituição, um grande centro, eles não têm uma individualidade. Têm regras para tudo, hora para tudo. Quando as pessoas vão ser desinstitucionalizadas, se trabalha para que elas possam ter suas próprias escolhas", explica Marilise.

Internação hoje: breve e individualizada

Já no Hospital São Pedro, como as internações são temporárias, a admissão de pacientes psiquiátricos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) tem como principal porta de entrada o Serviço de Admissão e Triagem (SAT). É nesse setor que ocorre a primeira avaliação e a definição sobre a internação na instituição.

O acesso ao hospital não se dá de forma direta. Os pacientes chegam por meio da regulação estadual, geralmente encaminhados a partir de serviços da rede de saúde, como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) ou emergências hospitalares. Após a identificação da necessidade de atendimento especializado, o caso é cadastrado no sistema de Gerenciamento de Internações Hospitalares (Gerint) e avaliado pela regulação estadual, que faz um filtro.

Espaço de observação em que o paciente fica após passar pelo SAT | Foto: Camila Cunha

Ao passar pelo SAT, a equipe do hospital avalia a existência de leitos e a adequação clínica do paciente. Apesar de ser referência em alta complexidade em transtornos mentais, o HPSP possui baixa complexidade clínica, o que impede o acolhimento de pacientes com comorbidades graves, como doenças cardíacas severas ou infecções ativas não controladas. Quando o paciente apresenta um transtorno mental grave, como os que envolvem tentativas múltiplas de suicídio ou surtos que não respondem a tratamentos convencionais, e não possui impedimentos clínicos, o hospital pode autorizar a internação.

No SAT, os pacientes são avaliados por psiquiatra e clínico geral. Nessa etapa, são analisados o tipo de transtorno, o estado atual do paciente e a necessidade de medidas específicas, como isolamento ou contenção. O paciente é entrevistado e fica em um período de observação, que dura, em média, algumas horas, podendo chegar a até um dia. O ambiente é planejado para garantir segurança, sem objetos que possam ser usados para agressão auto infligida ou contra profissionais. Durante esse tempo, a equipe busca estabilizá-lo, definir um diagnóstico mais preciso e ajustar a medicação, já que muitos chegam com diagnósticos equivocados ou incompletos. O espaço conta com monitoramento contínuo da equipe de enfermagem.

Pacientes que chegam a ir para internação são acompanhados por equipe multiprofissional, envolvendo psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e outros especialistas, que constroem conjuntamente um plano terapêutico individualizado. Além do uso de medicamentos, são oferecidas diferentes abordagens terapêuticas, visando a atender de forma integral a condição de cada paciente.

Atualmente, internações são temporárias e ocorrem por meio da regulação estadual | Foto: Camila Cunha

As unidades de internação são separadas para homens e mulheres, além de unidades separadas para crianças e adolescentes. Os quartos possuem sete camas, com material rudimentar, para evitar autolesões e agressões. Há ainda espaços coletivos, como o pátio e o refeitório, onde pode haver interação entre pacientes, além da sala de convivência, que conta com sofá e televisão, mesa de ping-pong e jogos.

Ao entrar, os pacientes permanecem em internação fechada. A partir do oitavo dia, quando o risco de fuga diminui, é possível sair do quarto. Todos são sempre estimulados a circular e conviver com os demais. "As pessoas que chegam aqui estão em diferentes níveis psicológicos e emocionais. As que chegam geralmente estão piores do que as que já estão aqui há dez dias", explica Magda Raiter, enfermeira da unidade Mário Martins Feminina. A proposta terapêutica controla as saídas de dentro da unidade.

Em internação temporária, "Júlia" busca ferramentas para lidar com possíveis gatilhos | Foto: Pedro Piegas

Preparação para a vida lá fora

Uma das pacientes era Júlia (o nome é fictício), de 21 anos, que foi internada em dezembro por abuso de substâncias químicas. "Aqui, comecei a me restaurar. Acho que minha caminhada está sendo boa até agora", relata. Ela morava com os pais na Região Metropolitana, e pretendia voltar, "se Deus quiser".

Sua rotina é tranquila. No tempo livre, frequenta a sala de descanso e interage com outras pacientes. Nas oficinas de Terapia Ocupacional, as mulheres exploram atividades de criatividade, mas também é uma oportunidade para interações entre si e para o autocuidado. Naquele dia, ela estava com uma unha de cada mão pintada de preto e com uma trança nos cabelos, feitos por uma enfermeira. Durante a estadia, os pacientes recebem supervisão de psicólogos e estagiários da área. Nos encontros, são trabalhadas estratégias de enfrentamento para seus casos.

Uma das atividades trabalhadas com Júlia era o “baralho do exagero”, em que ela recebia cartões sobre situações de riscos. Na sequência, escolhia o que poderia ser o maior gatilho, que poderia provocar uma recaída ou crise. A partir disso, ela ganhava cartões de estratégias de enfrentamento, e discutia as melhores maneiras de lidar com cada situação, caso os problemas aconteçam lá fora. “Acho que é uma mudança de vida, e eu quero mudar bastante. Quando sair daqui, vou tentar fazer outras coisas. Penso em fazer um curso. Coisas que eu não pensava antes”, projeta.

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Fundada em 1990, Oficina de Criatividade promove arte como dispositivo de cuidado mental | Foto: Camila Cunha

Oficina de Criatividade estimula autoconhecimento

Em outra dependência do hospital, diversas prateleiras acumulam mais de 300 mil criações de arte: são trabalhos manuais dos pacientes, feitos na Oficina de Criatividade do Hospital Psiquiátrico São Pedro. Fundada em 1990, ela nasceu como um gesto de cuidado humanizado para a progressão dos moradores, e uma maneira de expressão através da arte como dispositivo de saúde mental.

O acervo reúne telas com pinturas, papéis de desenhos cheios de cores e formas, moldes de cerâmica e argila, entre outras manifestações. No mesmo espaço, são guardados trabalhos como teses, dissertações e outras pesquisas acadêmicas já feitas sobre o hospital, objeto constante de estudo e memória. A atividade ocupou diferentes salas do prédio até se estabelecer, em 2018, no espaço atual.

Há prateleiras inteiras que preservam trabalhos de apenas um ex-morador, sendo alguns até já falecidos. As obras jamais devem ser vendidas, trocadas ou mesmo doadas: a decisão é que permaneçam no acervo do Museu da Oficina de Criatividade (Meoc), como testemunho da passagem vivida ali dentro.

Uma dessas histórias está no armário que contém moldes de argila de um paciente com esquizofrenia, que conheceu a oficina durante suas internações sucessivas. O detalhe é que ele nunca antes havia tocado em materiais artísticos, mas o resultado impressiona pela destreza. Há alguns anos fora da internação, ele segue em tratamento ambulatorial e frequentando o espaço, como continuidade do cuidado psicológico.

Frase da psiquiatra Nise da Silveira, pioneira no uso da arte como terapia, decora o espaço | Foto: Camila Cunha

Muitos dos artistas da oficina, além de internados do complexo, vieram do ambulatório. A arte ali não é a cura por si só, mas uma importante ferramenta de cuidado e de estimulação da criatividade, da descoberta de habilidades e do autoconhecimento do paciente. “À medida que foram passando esses 141 anos, a psiquiatria mudou muito. À medida que foram criadas drogas novas, enfim, isso foi modificado de forma abissal e deixou de ser tão amedrontador e ameaçador como a sociedade encarava”, esclarece a diretora Letícia Ikeda.

Complexo conta com prédios históricos que preservam a memória do tratamento psiquiátrico | Foto: Camila Cunha

Preservação

Para preservar essa memória, o hospital tem batalhado por uma reforma, principalmente para manter os sete blocos do prédio histórico. Um projeto está sendo atualizado para, em breve, ser lançado processo licitatório.

Entre as obras, está prevista a manutenção e recuperação de um importante memorial, para contar a história da psiquiatria no Rio Grande do Sul. "É importante que a gente tenha o passado lembrado e presente em nossa vida, para que a gente possa olhar para o futuro e para o presente de uma forma diferente. Para repetir o que é bom e não repetir o que foi ruim", complementa Letícia.