Especial

Temperaturas recordes e incêndios no Hemisfério Norte

Ondas de calor já provocaram milhares de mortes e dezenas de milhares precisaram sair de suas casas devido aos incêndios florestais

.
. Foto : Aris Oikonomou / AFP / CP

A Áustria bateu, quarta-feira, pelo segundo dia consecutivo, seu recorde absoluto de calor, com 41,2°C registrados em Bad Deutsch-Altenburg (leste), anunciou o serviço meteorológico GeoSphere Austria. O recorde nacional anterior, estabelecido na véspera, com 41°C na estação de Viena-Stammersdorf.

A onda de calor que os cientistas associam às mudanças climáticas tem provocado incêndios, mortes e temperaturas recordes em vários países do hemisfério norte. Este último repique das temperaturas se soma a um período já por si só excepcional de calor e precipitações escassas nos últimos meses.

Na Coreia do Sul, o calor já provocou a morte de 19 pessoas, informou na terça-feira a agência de saúde do país. Entre 15 de maio e 2 de agosto, 2.221 pessoas sofreram quadros clínicos relacionados com o calor, das quais 19 morreram, segundo a Agência de Controle e Prevenção de Doenças da Coreia. O presidente, Lee Jae Myung, pediu às autoridades um reforço do apoio às pessoas afetadas pela atual onda de calor.

Rua pulverizada em ponto turístico da Coréia do Sul, onde a temperatura atingiu 42,5 °C no dia 2 | Foto: GREG BAKER / AFP / CP

O recorde de calor da Coreia do Sul foi quebrado três vezes durante a última semana. No domingo, foi registrada a temperatura mais elevada da história: 42,5°C na cidade de Yangsan.

A capital Seul esteve nos últimos dias sob alerta máximo de “onda de calor severa”. As previsões indicam que os termômetros voltarão a superar 40°C. “A previsão é de um calor extremo que coloca a vida em perigo”, indicou a agência meteorológica em um boletim.

CALOR PERSISTENTE

Os últimos meses têm provocado transtornos devido ao calor e ao baixo volume de chuvas. O mês de julho de 2026 foi o mais quente e um dos mais secos já registrados na França desde o início das medições em 1900, em meio à intensificação dos efeitos das mudanças climáticas.

Com uma temperatura média de 24,9°C, o mês passado superou os recordes anteriores da onda de calor de agosto de 2003 (24,8°C) e de julho de 2006 (24,4°C), anunciou o serviço meteorológico nacional. O excedente de temperatura foi de +3,8°C em relação à normalidade (período 1991-2020).

Julho foi marcado por duas ondas de calor, das quais a primeira, do dia 4 ao 19, foi a terceira mais longa já registrada no país e a segunda, iniciada em 28 de julho, ainda continua. As tendências climáticas para agosto, setembro, outubro antecipam condições mais quentes que o normal, indica a Météo-France. Com um déficit de chuva de quase 70%, também foi o terceiro mês de julho menos chuvoso na França, agravando ainda mais a aridez dos solos.

Inglaterra e País de Gales também viveram o “julho mais seco desde que se tem registros”, em 1836, devido às ondas de calor que afetaram o Reino Unido e a Europa Ocidental, informou, a agência meteorológica britânica, Met Office.

Lago seco em East Sussex, no sul de Londres | Foto: GLYN KIRK / AFP / CP

A Inglaterra recebeu apenas 6,5 litros de água por metro quadrado, frente aos cerca de 65 litros que seriam normais para o mês. Em Gales, o volume foi de 9,3 litros por metro quadrado, quantidade também muito baixa, segundo o Met Office. Segundo este organismo, 19 condados da Inglaterra passaram praticamente todo o mês de julho sem chuvas. Eles acumularam apenas um milímetro de precipitação ou menos, o equivalente a um litro de água por metro quadrado, quantidade excepcionalmente baixa, que reflete a gravidade da seca. “Estamos vendo os efeitos em nossos agricultores, na nossa fauna e na qualidade da água disponível para uso público e empresarial”, apontou Helena Wakeham, presidente do Grupo Nacional de Seca.

Julho também foi “o mês mais ensolarado já observado” no Reino Unido, segundo o Met Office. “Julho de 2026 foi um mês verdadeiramente extraordinário nos registros climáticos do Reino Unido”, afirmou Amy Doherty, encarregada climática do Met Office. Doherty explicou que julho foi marcado por uma “combinação de seca recorde, calor excepcional e uma quantidade de horas de sol sem precedentes”. Para todo o Reino Unido, este foi o segundo mês de julho mais quente já registrado.

A estes dados se soma que a onda de calor que bateu recordes em maio e julho na Inglaterra foi associada a quase 3.000 mortes no país, informou a Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido (UKHSA).

O informe do organismo estima que tenham havido 2.877 mortes associadas às altas temperaturas nesses dois meses deste ano, quase o dobro do número registrado durante as ondas que afetaram a Inglaterra entre junho e agosto de 2025 (1.504 óbitos). “Embora os números ainda sejam provisórios, eles já se aproximam do recorde anual divulgado pela UKHSA em 2022”, aponta o relatório do órgão governamental, em referência às 2.985 mortes registradas há quatro anos.

O número de mortes para o conjunto do ano de 2026 poderá ser "substancialmente mais elevado", devido a outros períodos de temperaturas elevadas registrados em julho e que ainda não foram levados em consideração, adverte a UKHSA.

O mês de junho foi o mais quente desde o início dos registros meteorológicos em 1884. A onda de calor provocou o fechamento de escolas, além de transtornos nos transportes. "Há muitos anos estamos habituados aos períodos de maior pressão de inverno no NHS (o sistema público de saúde). Mas agora constatamos que o calor do verão tem um impacto cada vez mais grave sobre milhares de pessoas", afirmou a ministra da Saúde, Yvette Cooper.

INCÊNDIOS

Na Grécia, bombeiros lutaram por dias para conter incêndio ao noroeste de Atenas. Os incêndios que atingiram os subúrbios a oeste de Atenas causaram “um grave dano ambiental”, disse na quarta-feira o primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis. Desde o dia 31, cerca de 11 mil hectares foram reduzidos a cinzas a oeste da capital grega, especialmente em torno de Porto Germeno, no Golfo de Corinto, disse Mitsotakis.

Segundo imagens da televisão pública ERT, equipes de engenheiros dos ministérios do Meio Ambiente e da Proteção Civil chegaram às localidades afetadas. Os habitantes começam a voltar para suas casas após as evacuações ordenadas nos últimos dias pelas autoridades. Depois de cinco dias de combates ferozes contra as chamas, "a situação na região está muito melhor", disse o porta-voz dos bombeiros, Vassilios Vathrakoyannis, na quarta-feira. No entanto, "os bombeiros permanecem em alerta máximo para gerir áreas onde ainda há fumaça", afirmou.

Mais de 500 bombeiros foram mobilizados. “Este é o período em que normalmente vemos os maiores incêndios. Portanto, devemos ser muito cuidadosos até 20-25 de agosto”, declarou à ERT o diretor de pesquisa do Observatório Nacional, Kostas Lagouvardos. Os incêndios florestais mataram cinco bombeiros desde a semana passada. Dois morreram no domingo em uma colisão de helicópteros Bell na periferia oeste de Atenas e outros três faleceram na semana passada em Creta e no Peloponeso.

Equipes de resgate e voluntários levam animais para abrigo temporário durante incêndio na Grécia | Foto: Aris Oikonomou / AFP / CP

A VOLTA PARA CASA

Dezenas de milhares de pessoas evacuadas por causa dos megaincêndios que atingiram a Espanha e a França começaram a voltar para casa desde o final de julho. Os dois países vizinhos enfrentaram, no fim de julho, alguns dos piores incêndios florestais de que se tem memória, que devastaram vastas áreas e obrigaram dezenas de milhares de pessoas a deixarem suas casas.

Na Comunidade de Madri, as autoridades autorizaram o retorno de mais de 8,5 mil moradores das cidades de Valdemaqueda e Robledo de Chavela. Alguns encontraram apenas destruição. “Não tenho dinheiro, não tenho documentos, não tenho casa”, disse à AFP José Fernández ao se deparar com móveis queimados, paredes parcialmente desabadas e montes de cinzas no local onde ficava sua residência em Pelayos de la Presa, perto de Madri. “Ficou tudo ali”, lamentou, com os olhos marejados, o aposentado de 74 anos enquanto caminhava pelos restos carbonizados.

Em Aldea del Fresno, Susana Barrul, dona de casa de 39 anos, encontrou seu terreno intacto. “Estamos felizes por voltar. Estamos tentando retomar a normalidade”, disse ela à AFP.

Na França, um incêndio devastou 42 mil hectares no sudoeste da França, próximo à cidade de Bordeaux. Dezenas de milhares das mais de 220 mil pessoas evacuadas nessa região receberam autorização em 29 de julho para retornar às suas casas, porém, as autoridades ainda estão em alerta. “O fogo continuará queimando sob a superfície durante semanas, talvez até anos”, advertiu à AFP o tenente dos bombeiros Cyril Venière.

A dimensão desses incêndios é explicada pelas sucessivas ondas de calor e pela seca que atingem a Europa desde junho, fenômenos que os cientistas atribuem às mudanças climáticas provocadas pela atividade humana.

Na Turquia, os incêndios obrigaram à evacuação de centenas de pessoas no sul do país. Mais de 3 mil bombeiros foram mobilizados, informou o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

SOFRIMENTO ANIMAL

No Japão, três leoas morreram em um zoológico de Tóquio devido a um aparente golpe de calor, agravado pela umidade do verão japonês, informou terça-feira uma porta-voz do local.

O Japão enfrentou no ano passado o verão mais quente de seus registros, e nas últimas semanas partes do país chegaram a 40 ºC, o que se enquadra na nova classificação de "dia cruelmente quente". Desde meados de julho, 10 dos 16 leões do Parque Zoológico de Tama apresentaram sintomas como "perda de apetite e redução da atividade", e três leoas morreram, informou o zoológico em comunicado. "Ainda que se pense que os leões sejam resistentes ao calor, o zoológico vem reforçando, nos últimos anos, as medidas para enfrentar o calor de verão no Japão. Aqui, o calor vem acompanhado de alta umidade, o que é diferente do ar seco da África", explicou uma porta-voz do zoológico.

Cerca de 18.600 pessoas foram hospitalizadas por golpe de calor entre 20 e 26 de julho, das quais 45 foram declaradas mortas ao chegar, segundo a agência de gerenciamento de incêndios e desastres.