Especial

Tombamento busca reconhecimento da presença negra na Guerra dos Farrapos

Processo de tombamento do Cerro dos Porongos quer transformar em Patrimônio Cultural do Brasil o local onde ocorreu o massacre de soldados negros em 1844

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. Foto : Alina Souza/ CP Memória

Por Karina Reif e Leticia Pasuch

A 15 quilômetros do centro de Pinheiro Machado, seguindo por uma estrada de terra, se chega ao Cerro dos Porongos, uma área comprada pela prefeitura para abrigar uma espécie de museu sobre o massacre dos Lanceiros Negros, ocorrido em 1844, durante a Guerra dos Farrapos (1835-1845). A perspectiva de tombamento do local tem impulsionado o resgate de memórias esquecidas e atraído o interesse de instituições federais.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) estuda a realização de escavações no terreno para localizar vestígios do episódio. “Espera-se encontrar artefatos, objetos, que possam ampliar o conhecimento a respeito do massacre e que possam compor exposições sobre o tema”, afirmou o superintendente do Iphan no RS, Rafael Passos.

Cerro dos Porongos, em Pinheiro Machado, deve ser tombado pelo Iphan | Foto: Alina Souza/ CP Memória

Não é possível prever o que será encontrado, mas relatos indicam que pode haver ossadas enterradas no local. Uma equipe do instituto esteve em Pinheiro Machado em abril para avançar no processo de preservação da área. “Estamos finalizando a instrução técnica, tratando da definição das diretrizes de preservação e gestão do Cerro. Após, será encaminhado para análise da área central do Iphan, em Brasília, e então encaminhado ao Conselho Consultivo para deliberação quanto ao tombamento”, informou Passos.

O pedido de tombamento foi feito em 2006. No documento, Porongos é descrito como “paisagem de memórias, lugar de muitas histórias, contadas por pais, avós e tios, histórias que associam fatos do passado a casos de discriminação e superação, vividos por eles ou por seus conhecidos”.

Cerro dos Porongos, em Pinheiro Machado, deve ser tombado pelo Iphan | Foto: Alina Souza/ CP Memória

Turismo e pesquisa

Para o prefeito de Pinheiro Machado, Ronaldo Costa Madruga, o processo de tombamento deve fortalecer o turismo de interesse histórico na região. “Vai favorecer a busca de recursos para aproximar as pessoas que querem conhecer um pouco deste movimento. Também queremos buscar recursos para as universidades federais encontrarem fragmentos deixados por este povo neste local. A história vai ficar consolidada eternamente com o tombamento e ninguém mais vai poder se apropriar deste fato lamentável que aconteceu. Vamos falar no movimento dos negros, no reconhecimento da sua colaboração na história do Rio Grande”, destacou.

A instalação do museu, no entanto, enfrenta um obstáculo. A prefeitura não possui documentos ou artefatos para expor. A solução encontrada foi o resgate da história oral a partir de moradores antigos, que são ouvidos para montar, peça por peça, este quebra-cabeças. O acervo fundamentará as futuras exposições.

A secretária municipal de Indústria, Comércio e Turismo, Sandra Machado Farias da Silva, nasceu e cresceu em Pinheiro Machado, mas admite que muitos moradores desconhecem o episódio.

“Nossa história acabou morrendo por muitos anos. Acho que as pessoas antigas iam falecendo, deixando as histórias escritas e alguns escritos foram jogados fora, queimados, de certa forma, destruídos. E, agora, o que a gente está fazendo? Conversando com as pessoas.”

Secretária de Indústria, Comércio e Turismo de Pinheiro Machado, Sandra Machado Farias da Silva | Foto: Alina Souza/ CP memória

Ela observa que as memórias ressurgiram com força a partir do movimento pelo tombamento. “É como se os lanceiros negros tivessem dito: ‘A gente agora quer aparecer. Agora a gente quer estar na mídia. A gente quer realmente que esse local seja destinado para nós’.”

Sandra aponta o campo onde teria ocorrido a batalha e lembra que relatos indicam a existência de uma vala comum com as vítimas. “O Iphan deve fazer umas escavações para ver se encontra ossadas, coisas do tipo, que remetam à época. Realmente aconteceu o massacre aqui e os corpos podem estar por aqui.”

O mesmo local onde ela hoje trabalha pela preservação da memória foi, na infância, seu espaço de brincadeiras.

“A gente vinha brincar de lanceiro negro aqui, mas não tinha a dimensão do que era isso. Essa história sempre andou com a gente e hoje estou aqui, nesta pasta, vivendo a situação toda que está acontecendo, participando do tombamento, que é algo gratificante.”

Evento reuniu moradores e visitantes

Entre as ações para dar visibilidade à história dos Lanceiros Negros, o município realizou, no ano passado, o evento “Eco dos Porongos, Homenagem à Memória e à História dos Lanceiros Negros”. O público lotou o sítio em frente ao Cerro e acompanhou apresentações culturais e artísticas, além de conhecer a culinária e o artesanato locais. Na programação, foram exibidos o curta-metragem “Apagados da História” e houve um painel de debate “A Memória dos Lanceiros Negros e o Legado dos Porongos". A intenção é manter os encontros para ampliar o conhecimento sobre o episódio.

‘Os negros, agora, vão ter uma referência’

Após mais de 20 anos da luta do movimento negro, pesquisadores destacam que o processo de tombamento no local que foi solo do massacre irá, finalmente, trazer mais visibilidade para a história ocorrida no Cerro de Porongos e para os Lanceiros Negros, considerados apagados da história da Revolução Farroupilha.

“O Massacre por Porongos foi o mais vil ato já cometido no Rio Grande do Sul”, diz o historiador Jorge Euzébio Assumpção, que tem uma trajetória consolidada de pesquisas sobre o negro no Estado. Na madrugada de 14 de novembro de 1844, os lanceiros foram surpreendidos pelas tropas imperiais. Foram, pelo menos, 80 homens assassinados.

Apesar de haver interpretações diversas e discussões sobre a veracidade, a carta escrita pelo então Barão de Caxias, Luis Alves de Lima e Silva, endereçada ao coronel Francisco Pedro de Abreu, detalhou que o corpo de lanceiros fosse atacado de maneira vulnerável, ou seja, desarmados e sem seus comandantes, com a justificativa de uma possível rebelião por parte do grupo que contava com a alforria prometida. O ataque teria sido negociado com o líder farroupilha, David Canabarro.

No Cerro dos Porongos, os lanceiros negros foram massacrados durante a Guerra dos Farrapos | Foto: Alina Souza/ CP Memória

Assumpção ressalta que os soldados negros que lutaram ao lado dos Farrapos por dez anos foram traídos pelos seus generais. Segundo ele, muitas partes dessa história não são contadas quando se fala da guerra. “De maneira geral, os negros não constam na história do Rio Grande do Sul”, declarou. O pesquisador lembrou que os lanceiros tiveram importância fundamental para o exército Farrapo, já que chegaram a compor quase metade do corpo. “Sem esses negros, os farroupilhas já teriam sido vencidos antes. Não se conta essa história porque é uma mácula à imagem dos farroupilhas.” No exército farrapo, liderado por Bento Gonçalves, havia dois corpos de lanceiros: a cavalaria e a infantaria (a pé). Os soldados eram armados com lanças de madeira, a maioria delas feita pelos próprios escravizados.

Para o historiador, a partir do projeto de tombamento, o reconhecimento deverá contribuir para colocar os lanceiros e a sua participação na Guerra dos Farrapos no centro do debate. “Essa história nós contamos desde a década de 1980. Mas somente agora é que vai ser feita alguma coisa para que, de fato, seja marcada a presença dos negros e o valor que eles tiveram para os farrapos.” Resgatar a presença dos Lanceiros Negros na história do Rio Grande do Sul, na reflexão de Assumpção, é uma medida fundamental para ampliar a compreensão sobre a formação social e política do Estado.

Benoni Araújo de Oliveira, de 65 anos, é morador de Pinheiro Machado e acompanhou por muitos anos, em conjunto com a Secretaria da Cultura, o processo de tratativas para que o Cerro de Porongos fosse um espaço preservado. Na sua visão, a história dos lanceiros negros foi “mal contada” e muitos anos se levaram para que fosse levantada a real hipótese de traição no Cerro de Porongos. “Entendemos, como movimento negro, que a história foi mal contada. Até por depoimento de várias pessoas da época, tem uma importância muito grande, sim, para a história do Rio Grande do Sul e para a própria história de Pinheiro Machado.”

Reconhecimento

Enquanto ruas, avenidas e espaços públicos espalhados pelo Estado homenageiam generais, comandantes e líderes da revolução, os nomes da maioria dos Lanceiros Negros seguem ausentes dos registros oficiais e da memória coletiva. Porém, algumas iniciativas de reconhecimento recentes se destacam. Entre elas, está o quadro que retrata os Lanceiros Negros em uma das paredes do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS), que também inaugurou, em 2025, exposição com o objetivo de ser um marco no resgate da memória dos lanceiros.

Pintura de Pamela Zorn no TCE-RS remete ao confronto dos Lanceiros Negros. | Foto: Alina Souza / CP Memória

Ainda, há um mural localizado na rua Coronel Bordini, no bairro Auxiliadora, em Porto Alegre, produzido pela Associação de Moradores do bairro Auxiliadora.

Pintura feita por artista Brenda Klein, na Travessa dos Lanceiros Negros, no bairro Auxiliadora. | Foto: Alina Souza / CP Memória