Especial

Torcida nas redes: arquibancada ou terra de ninguém?

Foto : Leandro Maciel

De todas as mudanças proporcionadas pela internet no cenário esportivo, nenhuma teve tanto peso e consequência quanto o surgimento das redes sociais. Se aos olhos de hoje plataformas como o Orkut pareciam brincadeiras de adolescente, quando a década de 2010 deu seus primeiros passos, já estava claro que em outras como no Twitter e no Facebook convinha tirar as crianças da sala. No futebol, mais do que qualquer outro personagem, o torcedor ganhou voz. E o torcedor não fala baixo.

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Não demorou muito tempo para que os aficionados percebessem que, após anos e anos sendo apenas receptores das mensagens, agora eles também tinham a possibilidade de ser emissores. “Hoje todo mundo quer dar a informação, quer ser o dono dela, inclusive jornalistas, mas principalmente quem não é jornalista. Até o cara do mercado da esquina quer te dar uma informação”, avalia o jornalista Rafael Pfeiffer, da Rádio Guaíba.

“Com o crescimento do número de canais de relacionamento, celulares, câmeras de vídeo, divulgar notícias não é mais exclusividade dos meios de comunicação. Então, estamos em uma disputa de narrativas”, completa a professora do curso de jornalismo da Unisinos e doutora em Comunicação e Informação, Sabrina Franzoni.

Se muitos querem dar informação, quase todos querem dar opinião. A arena ficou mais democrática e com opções para os mais variados gostos.

“Tu agora pode escolher o que quer ver, enquanto antes tinha poucas opções. Até por isso, fico maluco quando o cara diz: ‘Teu canal é horrível’. Poxa, então não assiste, procura outro, têm vários”, afirma o jornalista João Batista Filho, do canal JB Filho Repórter e do Debate Raiz.

O caráter democrático da nova arena é inegável. Mas por mais que ainda não se tenha inventado um sistema mais justo que a democracia, ainda há os seus percalços. E no que diz respeito ao futebol, a terra de ninguém que virou as redes sociais talvez seja um dos buracos mais desafiadores, tamanho o caráter agressivo nas opiniões acerca de jogadores, dirigentes, torcedores rivais e jornalistas.

“Cada vez que tem eleição no Inter, quando dou uma opinião, eu já me preparo para fazer quatro ou cinco processos, porque tem gente que vem para cima de ti dizendo horrores, trazendo temas absurdos”, revela Fernando Carvalho, ex-presidente do Inter, com passagem pelos mais variados cargos no clube.

“O bom das redes sociais é que todo mundo tem voz. O ruim é que todo mundo tem voz”, provoca João Batista. A saída então talvez passe por ignorar aqueles que adotam um discurso encharcado de ódio?

“A gente se preocupa demais com o Zezinho239, com o Huguinho261. É sempre bom sair na rua e ver como é a vida de verdade. Se a vida real fosse como o Twitter, você sairia de casa, daria bom dia para o porteiro e ele te mandaria à PQP. Só que a vida não é assim. A vida analógica me importa mais”, pondera o jornalista André Rizek, do canal SporTV.

O exercício de ignorar os milhares de dentes rangendo nas redes é salutar, mas nem sempre tão simples. Ainda mais se levado em conta que muitos dirigentes de clubes brasileiros confundem as manifestações desse ambiente com movimentos orgânicos.

“Se Umberto Eco já dizia que a internet deu voz aos imbecis, por que eu tenho que dar voz a todos e não filtrar isso? O problema é que as pessoas não filtram. Tem dirigente que se guia pelo que lê em rede social. Você acha que faz sentido um dirigente que chegou ao patamar que chegou medir a opinião da torcida por isso?”, contesta o jornalista Paulo Vinícius Coelho, do canal Paramount+ e do Uol Esporte.

O herói precisa estar conectado

Há espaço para reflexões mesmo quando as críticas são positivas e não negativas. Isso porque em um cenário onde tudo é calculado para rentabilizar ao máximo, a própria naturalidade parece deixada de lado em certas ocasiões. A vitória não se basta, ela tem que ser um exemplo.

“As redes, especialmente o Instagram, operam sob uma lógica do bem-sucedido e da positividade. A própria construção da derrota é focada nos aprendizados positivos. O que chama atenção é que o herói, hoje, precisa necessariamente estar plugado”, observa o professor da UFRGS, Daniel Vasques, que pesquisa o campo sociocultural do esporte e lazer.