Especial

Tripulação do Graf Spee chega a Buenos Aires

A quinta reportagem da série relata como mais de mil homens deixaram Montevidéu para se refugiar na Argentina

Capa da Folha da Tarde do dia 19 de dezembro traz os detalhes da explosão do navio
Capa da Folha da Tarde do dia 19 de dezembro traz os detalhes da explosão do navio Foto : Reprodução

Quarenta e dois homens foram escalados para conduzir a operação que fez voar pelos ares o encouraçado de bolso alemão Admiral Graf Spee, na foz do Rio da Prata, nas proximidades de Montevidéu, no início da noite de 17 de dezembro de 1939. Os demais foram transferidos para o cargueiro Tacoma. De mesma bandeira, o Tacoma acompanhou, à distância, a breve e última navegação do Spee, parando máquinas a uns dois quilômetros do local escolhido pelo capitão Hans Langsdorff para detonar as seis cabeças de torpedo instaladas no Spee. A tripulação havia trabalhado durante 24 horas para montar os dispositivos e destruir equipamentos que não poderiam cair nas mãos dos aliados.

Acesse o especial do Correio do Povo que relembra o único confronto da Segunda Guerra Mundial que ocorreu nas águas do Atlântico.

Langsdorff previa que o Tacoma seria apreendido pela marinha uruguaia, o que de fato ocorreu. Assim, desembarcou a marujada e oficiais, para acomodá-los nos rebocadores argentinos Gigante e Colosso (que rebocava uma barcaça), antes de avançar pelo Prata rumo a Buenos Aires. A pequena frota chegou à capital portenha, mais simpática à Alemanha nazista do que Montevidéu, às 11h55 do dia 18 de dezembro. Nas três embarcações, amontoavam-se 1039 homens (outros 66 permaneceram em Montevidéu). Em Buenos Aires, o Colosso e o Gigante atracam na Doca Norte. Arlindo Pasquilini, diretor da Folha da Tarde, e o chefe de fotografia do jornal, Santos Vidarte, os aguardavam.

“O primeiro a descer é o capitão Langsdorff. Seguem-no vários oficiais, jovens ainda, cujos rostos denotam a fadiga das últimas vinte e quatro horas e também o cansaço do pavoroso combate de Punta del Este”, escreve Pasqualini. O correspondente percebe nas “pupilas azuis e dilatadas” da tripulação, “o brilho do fogo intenso da batalha naval e as chamas do barco que desapareceu para sempre diante de seus olhos febris”. O capitão, porém, “contrasta com todos eles”, afirma. “Está sereno, com um domínio absoluto da situação, dando ordens”, acrescenta Pasqualini, antes de abordar Langsdorff.

“Sabemos que não nos concederá uma entrevista, capitão, mas poderemos conversar um pouco, não é verdade?”, diz o jornalista ao comandante do Spee. “Pois não, mas não seja muito exigente”, responde Langsdorff.

A interlocução é breve. O capitão explica que as avarias sofridas durante o combate do dia 13 não permitiriam realizar a viagem de regresso à Alemanha. Com duração estimada em vinte dias, a jornada marítima exigiria que o encouraçado navegasse “entre as unidades inimigas que me esperavam diante de Montevidéu”, além de “burlar a vigilância das que estavam à altura do Rio (de Janeiro), cruzar o Atlântico, iludir as que bloqueiam o Mar do Norte, dar a volta pela Islândia e afrontar as tormentas de suas águas nesta época do ano”. O capitão reconhece a condição de internamento aplicada desde aquele momento pelo governo argentino aos homens do Spee. “Temos que ajustar nossa conduta às leis internacionais e às leis do país que nos dá refúgio”, diz.

Os alemães são alojados no Hotel dos Imigrantes e no Arsenal de Marinha, instalações contíguas situadas na Doca Norte. Nos anos seguintes, serão distribuídos em grupos em diferentes localidades do interior da Argentina, alterando significativamente, muitas vezes, o perfil e a história das comunidades. Alguns conseguem fugir, retornam para a Alemanha e entram em combate novamente. Aqueles que permaneceram na América do Sul, enfrentam um novo drama depois de encerrado o conflito mundial. São repatriados e, embarcados com a roupa do corpo, obrigados a deixar para trás tudo que haviam construído no país, inclusive famílias.

Desde o domingo passado, o Correio do Povo publica uma série especial que relembra os 85 anos do único confronto da Segunda Guerra Mundial que ocorreu nas águas do Atlântico. A última reportagem será publicada nesta sexta-feira.