Especial

Um dos maiores incêndios que Porto Alegre já presenciou

O fogo tomou conta do prédio das Lojas Renner em 27 de abril 1976, deixando 41 mortos e 60 feridos

Incêndio nas Lojas Renner
Incêndio nas Lojas Renner Foto : Barú Derquim / CP Memória

Ocorrido em 27 de abril de 1976, o incêndio das Lojas Renner completa 50 anos nesta segunda-feira. O sinistro mobilizou toda Porto Alegre — Corpo de Bombeiros, Brigada Militar, Polícia Civil e imprensa, que enviou inúmeros repórteres e fotógrafos até a esquina das ruas Otávio Rocha e Dr. Flores. A Folha da Tarde, jornal pertencente ao grupo Caldas Júnior, mandou seus profissionais, que se revezavam na cobertura do incêndio, acontecido após quase dois anos da tragédia do Edifício Joelma, em São Paulo. Segundo as autoridades da época, o fogo nas Lojas Renner causou a morte de 41 pessoas e deixou 60 feridas.

Incêndio nas Lojas Renner | Foto: CP MEMÓRIA

Nas páginas da Folha da Tarde, os repórteres traduzem todo o pavor e pânico que se instalaram no local. No primeiro dia, os textos já mostravam o horror que foi o incêndio.

“Às 14h05min, quando de uma janela do segundo andar do edifício das Lojas Renner começou a sair muita fumaça, as pessoas que passavam pela rua gritaram que era um incêndio. Nos próximos 20 minutos, embora o fogo continuasse aumentando cada vez mais, já podendo ser vistas as chamas, pelo menos cem pessoas que estavam paradas na frente do prédio ainda não se davam conta de que a situação era grave. A evacuação do prédio era intensa, mas o pânico não havia tomado conta de ninguém, ainda.

Foi quando caiu um corpo do último andar que o tumulto começou. Um grito de mulher, vindo de alguém que estava na calçada olhando para cima, avisou o que viria depois. Todos ergueram a cabeça e, por segundos (às 14h23min), foi visto o corpo de uma mulher vir a grande velocidade e bater na marquise. O barulho foi intenso e iniciaram-se os gritos”, descreve o jornal.

Inferno na torre

O relato nas páginas da Folha da Tarde continua: “O terror foi implantado. Quase ao mesmo tempo, chegaram mais viaturas do Corpo de Bombeiros. Muitos gritavam e corriam, sendo retirados do local pelos poucos policiais que haviam chegado. O fogo, já forte, tomava conta de todo o prédio e uma parede interna ruiu, produzindo um estrondo que agitou ainda mais as pessoas. Um rapaz, que lembrava que a namorada havia feito compras pela manhã na loja, comentava em voz alta: “Muito pior que o Inferno na Torre” — filme que estreou nos EUA em 14 de dezembro de 1974, tornando-se a maior bilheteria daquele ano, inclusive no Brasil.

A fumaça subia em enormes espirais; o fogo rompeu os vidros e rachou as paredes dos oito andares do prédio. Em menos de seis minutos, compareceram caminhões equipados com escada Magirus, dois caminhões-tanque e duas viaturas da Brigada Militar, deslocadas para prestar auxílio a uma caminhonete da Polícia Civil. De dentro deste veículo, desceu um homem que se identificou aos policiais militares que isolavam o público: “Sou inspetor de Polícia e vim aqui para ajudar”, afirmou. O policial civil, já com lágrimas nos olhos, revelou o motivo: “Meu filho é gerente de vendas. Trabalha no terceiro andar”.

Incêndio nas Lojas Renner | Foto: José Ernesto / CP Memória

As escadas se aproximaram pela terceira vez do imóvel. A maior delas alcança o último andar e, com auxílio de uma machadinha, o bombeiro quebra os cabos que lhe obstruem o ingresso. Entra e, logo depois, volta, conduzindo vagarosamente o primeiro a ser salvo naquele andar. Minutos antes, a segunda pessoa se atirava, caindo no meio da rua Dr. Flores. Uma ambulância retira a maca e corre para buscar a pessoa, já morta. Mesmo assim, ela ainda foi levada ao Pronto Socorro.

O povo se comprimindo entre os cordões de isolamento; policiais e bombeiros correm, mantendo uma precária ordem. Quase 30 fotógrafos e repórteres assistem, num dos raros momentos de silêncio que dura entre duas e quatro horas, à descida do triste cortejo de funcionários — intercalados — amparados por bombeiros. As pessoas em solo aplaudem a ação dos bombeiros.

A implosão do que restou do prédio ocorreu na manhã de dia 30 de maio de 1976 (um domingo). Grande parte dos escombros foi utilizada no aterro para a construção do Parque Marinha do Brasil. O novo prédio, também das lojas Renner, foi inaugurado em setembro de 1978.

Implosão do prédio das Lojas Renner | Foto: Sérgio Arnoud / CP Memória

Jornalistas contam detalhes do incêndio e de como foi o trabalho de reportagem

Muitos jornalistas que fizeram parte da cobertura do incêndio em 1976 lembram com clareza do dia do evento e dos seguintes. Uma das repórteres da Folha da Tarde, do Grupo Caldas Júnior, Ema Reginatto Belmonte deu o seu depoimento sobre aquele dia que marcou todo o Estado. É um relato de quem sentiu a aflição tanto das pessoas que esperavam ser salvas quanto de quem precisa contar a história. A repórter tinha que passar a matéria para a redação em uma época na qual não havia celulares e dependia-se da boa vontade de comerciantes para emprestarem o telefone.

“Eram 14h quando Edmundo Soares, chefe de reportagem, atendeu o telefone e me chamou: ‘Ema, tem um incêndio ali perto da Renner; deve ser no Café Haiti, que fica bem na frente. Vai lá com o fotógrafo, vê o que está acontecendo e volta aqui para fecharmos a edição de hoje’ (o vespertino fechava às 14h30min ou 15h)”, conta a jornalista.

“Lá fui eu correndo. O carro nos deixou perto, descemos na esquina da Voluntários da Pátria e fomos a pé. Quando chegamos, tivemos um choque: era o incêndio na Renner. Fui pedir um telefone em uma loja próxima para ligar para o jornal. Quem me atendeu foi o Luis Armim Schuch. Eu chorava ao telefone, expliquei o que estava acontecendo e pedi que mandassem mais fotógrafos. O Schuch me dava força: ‘Calma, irmã. Segura aí. Quando terminar, volta. Vamos segurar o jornal até mais tarde’.”

Ela lembra de uma as cenas que mais a marcou. “Um homem, no último andar, que tentou sair pela janela e ficou preso no vidro; ele cortou o pescoço e já estava morto quando cheguei. O pânico estava no ar: as rádios dando notícias alarmantes e todo mundo correndo. Ambulâncias entrando e saindo, cordões de isolamento e pessoas se atirando — como a irmã do craque Everaldo, que fora campeão do mundo. Ela caiu estatelada na marquise da Renner.”

Incêndio nas Lojas Renner | Foto: Damião Ribas / CP Memória

Segundo Ema, enquanto isso, a multidão cercava a área e aviões sobrevoavam o local para tentar jogar água. “De vez em quando, eu entrava em algum restaurante — a maioria estava fechado — para pedir o telefone emprestado e contar o clima para o Schuch na redação. E assim foi por toda a tarde.”

Aí outro problema surgiu: sair da área que estava com todas as ruas e esquinas fechadas. “As ambulâncias saíam com dificuldade. Fui até o pessoal dos socorristas para ver se me davam carona até a avenida Salgado Filho. Como as ambulâncias tinham que esperar, fui a um policial militar e disse que precisava sair; eu estava com quatro meses de gravidez. O policial foi gentil e me levou pela mão, erguendo o braço e falando alto, gritando: ‘Vamos dar um espacinho, a senhora está se sentindo mal’. E assim saí, escoltada e tranquila.”

A jornalista conta que, pela avenida Salgado Filho, foi rápido até a redação “e, claro, fui festejada pelos colegas”. “Além de escrever as matérias, tive que atender telefones de rádios do interior que queriam depoimentos. A essa altura, eu e a Jurema (Josefa) já tínhamos voltado e estávamos produzindo o conteúdo para a Folha da Tarde do dia seguinte.”

Os dias posteriores foram de apuração para determinar o número de mortos e feridos. “A Renner tinha um restaurante no último andar, muito frequentado por executivos que trabalhavam no Centro. Muitos advogados almoçavam lá. Alguns morreram, outros conseguiram sair, mas muitos escaparam porque desceram pelas escadas logo no início, em vez de tentarem o elevador.

Ela também conta que a equipa do jornal contava com 15 fotógrafos. “Foram todos deslocados para lá, por isso temos registros tão importantes. De todas as coberturas, essa foi a mais marcante. Eu fui a primeira a chegar porque já estava na redação quando o Edmundo recebeu o chamado. Mais tarde, quando viram a dimensão da tragédia, ele mandou a Jurema em meu auxílio.”

Na época do incêndio, Ema estava há dez anos no jornal. “Aposentei-me em 2013, com 59 anos de jornalismo, sempre atuando como repórter, como sempre gostei. Hoje, aos 84 anos, posso afirmar que, das centenas de coberturas realizadas, a do incêndio das Lojas Renner foi a que mais me marcou. Foram quatro horas diretas, das 14h às 18h, junto ao prédio de oito andares que queimava.”

Ela conta que a cidade ficou completamente diferente naquele dia, com homens e mulheres correndo pelas ruas do Centro. “Mesmo quem morava longe ia até lá para ver. Todo mundo queria testemunhar. As rádios narravam, os aviões sobrevoavam e as pessoas se sentiam atingidas, como se fosse algo pessoal. Lembro que minha mãe, que estava em casa no Menino Deus, correu para a escola onde meu filho estava para buscá-lo. É um exemplo de como as pessoas acompanhavam tudo e sentiam a dor, mesmo estando distantes.”

Não havia celular e a comunicação era difícil naquele. O temor era que algum familiar pudesse estar na loja naquele horário. “Foi um pânico generalizado. Os nomes de mortos e feridos só foram liberados no dia seguinte. O Hospital de Pronto Socorro (HPS) recebia as ambulâncias e iniciava os tratamentos, médicos e enfermeiras de toda parte foram requisitados para reforçar.”

Outra jornalista da Folha da Tarde que acompanhou o incêndio foi Jurema Josefa, hoje com 77 anos, que foi chefe de reportagem do Correio do Povo nos anos 2000. “A Ema foi a primeira repórter enviada para o local, por volta das 14h. Eu fui em seguida. Ela chegou lá e viu que a coisa era grande. Foi à Padaria Santa Helena (esquina da Dr. Flores com a Otávio Rocha), pediu o telefone e ligou para o jornal pedindo reforço”, lembrou Jurema, que na época tinha 27 anos. “Me mandaram para fazer a cobertura junto com ela. Foi muito duro! Um confeiteiro (ou o gerente do restaurante) ajudou um monte de gente (a deixar o prédio em chamas) e, quando foi sair, teve o pescoço cortado pelo vidro. Morreu ali. Ele tinha feito cordas com as cortinas e ia passando as pessoas para os bombeiros, cujas escadas não alcançavam (as escadas do caminhão eram pequenas). Na sua vez, acabou morrendo. A torcida a cada um que descia pela corda e chegava ao chão era feita aos gritos!”

Incêndio nas Lojas Renner | Foto: Loir Gonçalves / CP Memória

Jurema conta que Edmundo Soares, editor-chefe, e o Benito Giusti, chefe de reportagem, viram a fumaça da sacada da Folha da Tarde. “A Ema trabalhava à tarde e estava chegando para começar a jornada. Eu sairia por volta das 15h, pois começava de manhã. Todos entramos noite adentro. As muitas mortes foram surgindo nos dias subsequentes! Uma tristeza muito grande.”

O repórter fotográfico José Ernesto Carvalho Leal tinha 24 anos na época do incêndio e recém tinha entrado no Grupo Caldas Júnior como laboratorista, mas, de vez em quando, tinha a chance de fotografar em algumas reportagens. Zé Ernesto, como era chamado na redação, foi escalado no dia 27 de abril de 1976 para uma pauta sem muita importância. Mas, como estava começando, lá foi ele com um equipamento mais antigo do que os usados pelos fotógrafos efetivos da empresa. “Me escalaram para uma matéria no Centro, na área da Praça Otávio Rocha, não me lembro bem o que era, se buraco ou lixo. Fomos até lá, eu e um repórter de cujo nome não recordo. Quando chegamos, percebemos a correria”, recorda Zé, que ocupou a chefia de fotografia por muitos anos no Correio do Povo. “Chegamos um pouco depois de o incêndio ter começado. Lembro-me de um bombeiro que chorava. O primeiro nome dele era Cristo e, além de chorar, demonstrava revolta. Ele me disse: ‘Queria que o fogo fosse no Palácio (Piratini), que eu falaria para eles esperarem, que já estava chegando um caminhão’.”