Especial

Uma enchente que se repete há cem anos

Porto Alegre e diversas cidades do interior ficaram sob as águas em 1926. A dinâmica e os efeitos dessa cheia histórica menor ressoam com os eventos traumáticos recentes

Correio do Povo, 17 de julho de 1926
Correio do Povo, 17 de julho de 1926 Foto : CP Memória

A invasão das águas do Guaíba nunca foi exatamente um fato extravagante na vida de Porto Alegre. A cidade surgiu em função do rio, ocupando a península elevada projetada a oeste. De vila a cidade e daí a metrópole, a relação da Capital com suas águas sofreu alterações, muitas vezes motivadas pela incompreensão e pelo descaso. Com o crescimento da urbe, outros cursos d’água foram incorporados à estrutura da cidade. O antigo Riacho, hoje chamado Arroio Dilúvio, foi o primeiro, mas logo os grandes afluentes do Guaíba entraram de vez no espaço “existencial” da Capital. Os rios Gravataí, Caí, dos Sinos, Taquari e Jacuí desempenharam papel fundamental na ocupação do território, ao mesmo tempo em que apresentavam suas demandas. A grande enchente de 2024 se tornou o episódio mais dramático (ao menos até hoje) de uma longa cadeia de eventos em que o Guaíba ocupou campos, ruas e construções da cidade.

Exatamente um século atrás, a interação urbana com seus rios sofreu um novo abalo. As cheias do Guaíba eram conhecidas pelo nome dos santos dos dias em que ocorriam, tal era a frequência com que partes da Porto Alegre provinciana ficavam alagadas. Em 1926, porém, com o crescimento que a cidade experimentava, os estragos já se faziam mais alarmantes. Áreas de ocupação mais recente — como os históricos “arrabaldes” de São João e Navegantes, de terrenos muito planos — sofriam mais com os alagamentos causados pelo Guaíba, pelo Gravataí e pelo represamento da água das chuvas. As áreas baixas do Centro Histórico e sobretudo a região da Cidade Baixa também enfrentavam o avanço das águas do Guaíba e também do Riacho.

Longo texto publicado à página 6 do Correio do Povo do dia 14 de julho de 1926 reportava o aumento do nível de diversos rios “que formam o estuário do Guahyba”. Isso ocorreu por causa das intensas chuvas na “região colonial” (Serra Gaúcha e encosta), persistente nos dias anteriores. A reportagem conta que uma embarcação de carga que havia saído de Porto Alegre com destino a Estrela havia naufragado no alto Taquari devido à correnteza. As companhias de navegação de Taquari retiraram suas cargas dos trapiches temendo que as águas deteriorassem seus produtos. O texto relata o perigo representado por troncos, grandes pedaços de árvores e até animais arrastados pelo fluxo. Em Porto Alegre, os bairros São João e Navegantes já apresentavam ruas alagadas e outras reduzidas a lamaçais, impossibilitando os deslocamentos. Segundo a matéria, as chuvas eram intensas também em outras regiões do Estado. São Gabriel, na fronteira, havia sido atingida por granizo, enquanto em Garibaldi, na Serra, o arroio Marrecão havia transbordado.

Correio do Povo, 14 de julho de 1926 | Foto: CP Memória

A edição de 15 de julho noticiava os estragos e dificuldades em diversos municípios do interior causados pela chuva. Em Lajeado, o rio Taquari estava na iminência de transbordar. Em Santo Antônio da Patrulha a chuva havia interrompido o transporte para a Capital. Comerciantes que trafegavam pelo rio Taquari estavam transferindo suas mercadorias dos portos de Lajeado e Estrela para Guaporé. Palmeira das Missões registrou os efeitos de um “violento tufão” que passou “derribando cerca de vinte casas” e deixando vários feridos [a grafia original da época está mantida nas citações].

Em 16 de julho, a ameaça sobre Porto Alegre se tornou realidade: “[...] as águas dos rios que formam o Guaíba subiram extraordinariamente, tendo já começado a transbordar, inundando terrenos e casas marginais, o mesmo acontecendo nos arredores da capital”. A página 6 do Correio trazia a descrição de problemas em diversos pontos. O trabalho em estaleiros localizados na área da atual rodoviária e sobretudo na Ilha da Pintada foi paralisado pela invasão das águas do Guaíba. “Nos trapiches, o serviço tem se limitado ao estritamente necessário.” Na Ilha da Pintada, “em vista da impetuosidade com que subiam as águas, foi pedido à Secretaria das Obras Públicas a presença ali de um rebocador para salvamento das pessoas que viessem a pedir socorros”, enquanto que “as demais ilhas fronteiras à capital ontem estavam também cobertas pelas águas”. O Navegantes e o São João, em Porto Alegre, ficaram submersos. “Pelas ruas inundadas navegam várias canoas, transportando moradores que desejam vir ao centro da cidade.”

Correio do Povo, 16 de julho de 1926 | Foto: CP Memória

O Guaíba não era o único vilão na Capital de 1926. No “arrabalde do Parthenon”, “o arroio que o atravessa transbordou, sendo invadidas as casas que dão fundos para o mesmo. O Riacho subiu muito a partir do meio-dia em consequência não só da chuva que continuava a cahir, como também do vento sudoeste reinante”. O local mais flagelado, no entanto, foi a Ilhota, área histórica de Porto Alegre correspondente ao atual entorno do ginásio Tesourinha. De acordo com o relato do Correio, as águas “invadiram a avenida 13 de Maio [atual avenida Getúlio Vargas], até a rua Baronesa do Gravatahy. Pela correnteza, foi levado um dos casebres [...] Em seis auto-caminhões da Intendência Municipal, foram retirados os móveis principais das casas alagadas e salvando os seus moradores”.

A “várzea do Gravatahy” foi outra região alagada, provocando a remoção “de numerosos sacos de arroz e outros cereais” dos armazéns construídos à beira do rio, na divisa entre a zona norte de Porto Alegre e o município de Gravataí — que à época englobava também Cachoeirinha e Canoas. Notícias vindas pelos vapores que desciam dos afluentes do Guaíba davam conta dos problemas que atingiam outras localidades. “A cidade de Montenegro e a villa de Cahy [São Sebastião do Caí] estavam com as ruas que vão dar aos respectivos portos invadidas pelas águas, as quais ameaçam subir ainda em vista do vento sudoeste reinante.” Em São Leopoldo, “as águas do rio dos Sinos já estão muito crescidas, havendo motivos para se crêr que será a enchente de maior vulto destes últimos annos”. O texto faz referência ainda a “enchente havida ha cerca de cinco annos”, estimando que a cheia de 1926 ultrapassaria a anterior em volume d’água e extensão alagada.

A edição de 17 de julho estampava na capa seis fotos (fato ainda raro à época) de diferentes pontos de Porto Alegre, atualizando a situação na cidade e no restante do Estado. O cenário se agravava. No interior, “de ante-hontem para hontem, deu-se o desmoronamento de uma regular extensão de linha férrea, no ramal de Taquara a Canella, próximo à estação Varzea Grande”. “As águas do Guahyba [...] continuaram subindo consideravelmente, estando, à tarde, a menos de um metro da muralha do cáes do porto”. O rio Gravataí chegou até a “estrada de rodagem” do caminho até Canoas, próxima da ponte sobre o rio. As ilhas estavam tomadas pela água. Na Ilhota, “as águas estavam quasi na mesma altura. Tudo alagaram, espalhando pânico e desolação nos infelizes habitantes daquella zona”, sendo que “mudaram-se, devido à enchente, cerca de 100 pessoas”. Azenha e Parthenon sofriam com o Riacho extrapolado. Ao fim do dia, foi registrado lento decréscimo do nível das águas na cidade.

Os volumes de chuva registrados no Estado foram estampados na capa da edição. Segundo o Instituto Astronômico e Meteorológico da Escola de Engenharia, os valores foram os seguintes (em mm):

“Porto Alegre: 81.01
Passo Fundo: 176.0
Julio de Castilhos: 195.6
Santo Angelo: 155.0
S. F. Paula: 173.9
Santa Maria: 132.0
Rio Grande: 78,0
Bagé: 59.0
Piratiny: 72.9
Lagoa Vermelha: 207,0
Vaccaria: 153.0
São Luiz: 152.0
B. Gonçalves: 144.5
Santa Cruz: 157.1
Torres: 35.8
São Gabriel: 97.1
Caçapava: 85.4
Encruzilhada: 73,1”

Em 18 de julho, o Correio noticiou o declínio das águas e o restabelecimento de vários serviços. No entanto, três dias depois, na edição do dia 21, o jornal reportava a situação alarmante do Gravataí. Ao contrário do que havia acontecido nos dias anteriores com todos os outros afluentes do Guaíba, o rio da zona norte da Capital continuou acumulando água e aumentando seu nível devido às chuvas localizadas na sua bacia. A estação da via férrea que seguia em direção a Canoas alagou. Segundo morador da área, o Gravataí havia subido três metros: “Há muitos annos, accrescentou o nosso informante, tal facto não se registra”. No Guaíba e seus outros afluentes, as águas recuaram, mas ainda “continuam bastante cheios”.

Correio do Povo, 18 de julho de 1926 | Foto: CP Memória

A edição da quinta-feira, 22 de julho de 1926, afirmava que as águas do Gravataí estavam estagnadas, cobrindo a estrada para Canoas e os terrenos da Standard Oil Company localizados à rua Voluntários da Pátria, próximo à confluência com a atual Ramiro Barcelos. “As águas também continuaram cercando a estação do Gravatahy, permanecendo os moradores das casas visinhas recolhidos aos vagões cedidos pela Viação Férrea.” A estação localizava-se na área da atual Vila Farrapos, próxima à Arena do Grêmio. Havia forte correnteza, “que tem levado muitas madeiras, aguapés e animaes”.

No dia 23 de julho, segundo relata o Correio, o pior já havia passado, mas algumas áreas ainda enfrentavam dificuldades. Na Capital, “não obstante a cessação das chuvas, a enchente continua no 8° distrito [correspondente ao atual bairro Arquipélago, formado pelas ilhas do Guaíba], preocupando seriamente a população, que ainda se encontra alarmada. As águas descem e sobem, invadindo casas e campos [...] Diversas embarcações se acham em serviço de salvamento, não só de moradores como dos animais que têm sido transportados para outros logares”. Em Cachoeira do Sul, “o rio Jacuhy saiu fóra do leito, alagando as várzeas marginaes e dificultando o transito entre aquella cidade e o interior do municipio”. Aos poucos, as águas baixavam nos afluentes e, apesar de se manterem altas nas ilhas de Porto Alegre, escorriam em direção à Lagoa dos Patos.

As chuvas e os alagamentos desaparecem das notícias nas edições dos dias seguintes. Partidas de futebol foram realizadas em Porto Alegre no domingo, 25 de julho — o que, dadas as condições das praças esportivas da época, só era possível na ausência de chuva.

A enchente que afetou diversos municípios do Rio Grande do Sul em julho de 1926 é considerada a maior daquela década e uma das mais significativas que antecederam a histórica cheia de 1941. Curiosamente ou não, a dinâmica dos alagamentos, as dificuldades e a destruição que se seguiram guarda enorme correspondência com os eventos de maio de 2024, evidenciando a vulnerabilidade de diversas áreas de Porto Alegre e de cidades dos vales do Taquari, Caí e dos Sinos. A sequência dos acontecimentos também é similar, iniciando com as chuvas torrenciais nas bacias dos afluentes do Guaíba que causaram perdas e transtornos na Serra e encosta para só então, com o escoamento das águas para o Guaíba, provocar cheias consideráveis na Capital. Um século depois, as principais localidades atingidas (Lajeado, Estrela, Encantado, Taquari, Venâncio Aires, São Leopoldo, diversas cidades do entorno de Porto Alegre, bem como as áreas da própria Capital) escancaram uma previsibilidade possível e, sobretudo, a inação das autoridades e gestores na esperança, agora amplamente demonstrada como infundada, de que episódios assim nunca mais se repetiriam.

Correio do Povo, 17 de julho de 1926 | Foto: CP Memória