Especial

“Uma reunião de amigos para celebrar a cultura”, aponta patrona do Acampamento Farroupilha

Cantora e compositora Fátima Gimenez foi escolhida patrona dos Festejos Farroupilhas de Porto Alegre em 2026

Foto : Fabiano do Amaral

Há 35 anos participando do Acampamento Farroupilha da Capital, a cantora, compositora e apresentadora Fátima Gimenez foi escolhida patrona dos Festejos Farroupilhas de Porto Alegre em 2026. Vencedora de diversos prêmios em festivais de músicas nativistas, ela destaca o caráter cultural do evento, principalmente por se tratar de um espaço de encontros e reencontros no Parque Harmonia.

Fátima recorda que sua participação no Acampamento Farroupilha iniciou pelo Piquete Aporreados do 38, que desde a década de 1990 já tinha como objetivo trabalhar temáticas culturais e da história gaúcha, principalmente a partir da visitação de escolas. Desde então, a artista tradicionalista tem participado do evento também em apresentações artísticas no palco central do parque.

“O Acampamento Farroupilha é uma reunião de amigos que celebra a cultura gaúcha e, principalmente, reencontros. Quando vejo as crianças pilchadas é algo que me emociona muito, pois aí está a certeza da continuidade de que as nossas tradições jamais vão perecer. Ser homenageada nos festejos, além de ser uma grande honra, veio para coroar os meus quase 50 anos de trajetória artística na cultura e no tradicionalismo”, afirmou.

Para ela, por ser um evento que exalta a riqueza cultural do Rio Grande do Sul, o Acampamento Farroupilha também acaba por ser referência para visitantes de todo o país que buscam por experiências típicas. Apenas em 2025, mais de 2 milhões de visitantes passaram pelo Parque Harmonia durante os 20 dias oficiais do evento.

“Vem muitos turistas de longe, do país inteiro, para cá. O Acampamento Farroupilha é, sem dúvida nenhuma, um dos maiores eventos de tradição e cultura na América Latina. E todos adoram essa riqueza cultural que o gaúcho tem. Justamente pela grandiosidade de eventos como esse que passamos, cada vez mais, a comemorar o Mês Farroupilha inteiro e não mais apenas a Semana Farroupilha”, completou.

Representação do feminino na cultura gaúcha

Fátima ressalta ser motivo de orgulho ser escolhida como patrona dos festejos na Capital, fortalecendo a representação das mulheres na cultura gaúcha. “As gaúchas possuem esse legado de mulheres fortes que nos antecederam. Isso vem de longe, não nasce da noite para o dia. Carregamos essa virtude forte, guerreira e trabalhadora”, apontou.

Ela recordou ainda que, quando começou sua trajetória artística, eram poucas as mulheres que atuavam nos palcos. Mesmo assim, o respeito e a hospitalidade sempre prevaleceram. “As mulheres estão ocupando cada vez mais espaço em todos os segmentos, não só na cultura. O importante é que sempre trabalhei com seriedade e fundamento, sem carregar bandeiras, mas exaltando o feminino e a mulher gaúcha”, salientou.

Um dos destaques da carreira de Fátima foi o trabalho feito para valorizar a história de dona Olmira Leal de Oliveira, a Cabo Toco, que foi a primeira mulher a integrar a Brigada Militar, ainda durante a Revolução de 1923. “Ela não queria ser dona de casa, mas participar da revolução. Entrou como enfermeira e acabou lutando”, explicou.

A homenagem à Cabo Toco veio ainda na década de 1980, quando dona Olmira ainda estava viva. Com a ajuda de amigos, ela conseguiu recuperar um documento da época da revolução para ajudar a reconhecer as façanhas da primeira mulher brigadiana. “A cavalo, ela socorreu seu comandante e o levou para um acampamento. Após, foi reconhecida como cabo na frente de todos os soldados”, seguiu.

Ainda em 1987, ocorreu a primeira formatura feminina da Brigada Militar, que leva o nome de Cabo Toco. “Desde então, ela vem recebendo mais homenagens, como o nome de ruas. Isso me deixa muito realizada, pois esse trabalho deixou de ser apenas uma música para se tornar um ato social”, complementou

Após a apresentação da música na 5ª Vigília do Canto Gaúcho, em Cachoeira do Sul, na qual Fátima foi a vencedora, dona Olmira obteve reconhecimento do governo do Estado e da Brigada Militar, passando então a receber aposentadoria de policial militar. A patrona dos Festejos Farroupilhas de Porto Alegre em 2026 ainda publicou um livro no ano passado sobre o tema.

Trajetória de Fátima Gimenez

Ao longo de sua trajetória artística e profissional, Fátima Gimenez destaca a importância de ter como padrinhos históricos os folcloristas João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes e Luiz Carlos Barbosa Lessa, o cantor nativista Telmo de Lima e Freitas, além de outros artistas gaúchos. “Falar sobre essas pessoas tão importantes e significativas do meio cultural rio-grandense é exaltar, principalmente, o início de toda essa tradição que vivemos atualmente”, destacou.

A cantora e compositora aponta ainda que segue atuando em festivais, mas de uma forma um pouco diferente, como jurada e apresentadora, além dos shows. “Não concorro mais para deixar esse espaço para novos talentos surgirem”, considerou. Além de premiações em diversos festivais, Fátima foi uma das primeiras artistas a registrar em disco a interpretação do Hino Rio-Grandense. Ela também participa ativamente do Movimento Nativista do RS.