Era previsível que a Fifa voltasse às manchetes esta semana, afinal a entidade escolheria o seu novo presidente na Suíça — ou, mais provável, reelegeria Joseph Blatter para outro mandato. De fato a entidade foi protagonista, mas por outro motivo, bem pior. Uma ação orquestrada pela Justiça norte-americana prendeu sete dirigentes ligados à Fifa, incluindo o ex-presidente da CBF José Maria Marin.
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Todos são acusados de crimes como extorsão, fraude e lavagem de dinheiro e, se condenados nos EUA, para onde devem ser extraditados, podem pegar até 20 anos de prisão. A Copa do Mundo do ano passado faz parte das investigações, mas até agora não se encontrou nenhuma irregularidade. Ao contrário, por exemplo, da Copa da África do Sul, em 2010, e a Copa América de 2016, nos EUA. Nesta, as investigações apuraram que as propinas ultrapassaram os R$ 400 milhões. A seguir, as principais questões sobre o caso.
Qual a alegação da Justiça norte-americana?
De acordo com a nota oficial emitida pelo Departamento de Justiça dos EUA, os réus são acusados pelos crimes de extorsão, fraude, lavagem de dinheiro, entre outros delitos. A nota descreve o esquema como de “24 anos de enriquecimento por meio da corrupção no futebol”. Sobre Marín, por exemplo, as acusações são de que o dirigente exigia o pagamento de propinas em contas suas no exterior. Os contratos foram avaliados em R$ 250 milhões.
O presidente da Fifa, Joseph Blatter, está envolvido no escândalo?
Pelo menos neste primeiro momento da investigação não.
Por que as prisões foram feitas pelo FBI?
A alegação da Justiça dos EUA é a de que as transações ilícitas foram feitas por meios de bancos norte-americanos. Além disso, há o argumento defendido por eles de que empresas dos EUA pagaram o maior valor relativo aos direitos de transmissão.
O que acontece agora?
A partir de agora, será instaurado um processo de extradição dos detidos para os EUA. Lá, devem enfrentar um processo judicial e, em caso de condenação, a pena prevista é de até 20 anos de prisão. Ontem, o ministério da Justiça da Suíça revelou que pelo menos seis dos sete detidos se opuseram à extradição para os EUA. Desta forma, as autoridades suíças já solicitaram pedidos formais de extradição, um processo que pode durar até 40 dias.
Há mais dirigentes sendo investigados?
Ainda não é possível fazer tal afirmação. Mas a promotora federal do distrito do Brooklyn, Kelly Currie, afirmou ontem, na entrevista coletiva sobre o escândalo que a detenção dos dirigentes é “apenas o início do nosso esforço, e não o fim”. Paralelamente, em outro caso distinto, a Promotoria da Suíça apreendeu documentos eletrônicos da sede da Fifa, por suspeitas de lavagem de dinheiro e gestão desleal no processo de escolha das sedes das Copas de 2018 e 2022.
Quais as consequências imediatas dessas prisões no Brasil?
O senador Romário vai propor a abertura de uma CPI para investigar os contratos da CBF. De acordo com o ex-jogador, ele já reuniu o número necessário de assinaturas para instaurar a investigação. “Das 27 assinaturas que seria o mínimo, já tenho quase 45. Definitivamente nós esperamos que seja aberta esta CPI aqui no Senado e que a gente desmonte, de uma vez por todas, essa caixa-preta que existe dentro da CBF”, diz ele. Na Câmara Federal, o deputado gaúcho João Derly também está em busca de assinaturas para abrir uma CPI mista que trate do caso.
A eleição para a presidência da Fifa está mantida?
Sim. A eleição que vai definir o novo presidente da entidade está mantida para a próxima sexta-feira, na Suíça. O diretor de comunicação da Fifa, Walter de Gregorio, garantiu ontem, em entrevista coletiva que a disputa entre Joseph Blatter e o príncipe jordaniano Ali bin al-Hussein será realizada. A Uefa, no entanto, pediu não apenas o adiamento do congresso da Fifa, como também das eleições. Para o secretário-geral da Uefa, Gianni Infantino, a decisão deveria acontecer, no mínimo, dentro de seis meses. Nos bastidores da entidade, a recomendação é de que dirigentes que temam ser detidos nos próximos dias, deixem a Suíça o quanto antes.
O que a investigação apontou sobre a Copa de 2014, no Brasil?
A procuradora-geral dos EUA, Loretta Lynch, afirma que nenhuma irregularidade foi encontrada em relação ao Mundial realizado no Brasil. No entanto, a competição faz parte de uma série de investigações. Questionada sobre o tema, a presidente Dilma Roussef afirmou que o governo poderá colaborar com a Justiça norte-americana caso seja solicitado: “Eu acho que se tiver de investigar, investiga, em todas as Copas, todas as atividades”.
A investigação aponta irregularidades em alguma competição em específico?
Sim. A Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, e a Copa América de 2016, que seria realizada nos Estados Unidos, foram citadas pela Justiça norte-americana. Sobre a Copa de 2010, a procuradora-geral dos EUA, Loretta Lynch, afirma que foram verificadas irregularidades. “Para este evento histórico, dirigentes da Fifa e outros corromperam o processo por meio de propinas para influenciar a decisão da atribuição da sede da competição”, afirma. As acusações sobre a Copa América não são menos pesadas: “Aquilo que deveria ser uma manifestação esportiva foi usado como um veículo para uma rede maior encher os bolsos de executivos”.
As próximas Copas correm risco de mudar de local ou serem canceladas?
O diretor de comunicação da Fifa, Walter de Gregorio, assegura que os Mundiais de 2018, na Rússia, e 2022, no Catar, estão mantidos, ainda que o processo de escolha de ambos seja motivo de investigação. Segundo ele, a data e os locais dos Mundiais são assunto definido.
O que diz a Fifa?
Por meio de uma nota oficial assinada pelo presidente Joseph Blatter, a entidade admite o impacto negativo para a sua imagem, mas garante colaborar com as investigações. O dirigente afirma ainda que a investigação foi provocada justamente por informações fornecidas pela própria Fifa no ano passado. “Entendemos a decepção que muitos manifestaram e sei que os acontecimentos de hoje terão impacto sobre a forma como muitas pessoas nos veem”, aponta Blatter.
Qual o envolvimento da CBF no escândalo?
A investigação aponta de forma explícita que o contrato da CBF com a fornecedora de material esportivo Nike está sob investigação — a empresa teria pago R$ 125 milhões como propina para patrocinar a Seleção Brasileira. Também são investigados contratos relativos à Copa do Brasil. Além disso, a conclusão é de que, antes mesmo da gestão Marin, funcionários da CBF pediam o pagamento de propinas pelos direitos da competição nacional.
O que diz a CBF?
O presidente da CBF, Marco Polo Del Neto, afirma que todos os contratos que estão sendo investigados foram fechados em gestões anteriores — no caso, de Ricardo Teixeira. Mesmo admitindo que a prisão de Marín é péssima para a imagem da entidade, o dirigente negou qualquer tipo de envolvimento anterior: “Eu era apenas o presidente da Federação Paulista de Futebol. Não sabia de nada.” De qualquer forma, Marín foi afastado do quadro diretivo até a conclusão do processo.
Ação orquestrada pela justiça americana expõe corrupção na Fifa
Marín é suspeito de exigir pagamento de propinas em contas no exterior