Esportes

Amistoso entre Atlético Nacional e Chapecoense marca uma década de luto, amizade e reconstrução

Neste sábado, a partir das 17h30min, as equipes entram em campo para relembrar uma história impossível de ser apagada

Além do jogo, a Chapecoense terá uma agenda de compromissos na Colômbia
Além do jogo, a Chapecoense terá uma agenda de compromissos na Colômbia Foto : Julliana Paulino / ACF / CP

Quem ama o futebol, lembra exatamente o que estava fazendo na manhã daquele 29 de novembro de 2016. Ainda era cedo do dia quando no rádio, na tv e nos sites de notícias se comentava sobre um dos episódios mais tristes para o esporte do sul do país. O assunto foi a pauta daquela manhã para quem chegava na escola, no trabalho e em seus compromissos matinais. A tragédia aérea da delegação da Chapecoense completa 10 anos daqui a dois meses mas ainda parece que foi ontem que viveu-se um dia chocante que ficou marcado na história do futebol mundial. O desastre tirou a vida de 71 pessoas e deixando apenas seis sobreviventes.

Naquela ocasião a equipe viajava para enfrentar o Atlético Nacional no primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana. Depois disso, o Verdão do Oeste ganhou milhares de torcedores, de todos os lugares do Brasil. Dali em diante todos tinham dois clubes: o do coração e a Chape. Agora, uma década depois, Atlético Nacional e o Verdão entram em campo para homenagear uma história que o tempo não apagou.

O jogo da amizade eterna acontece neste sábado, às 17h30 (Horário de Brasília), no Estádio Atanasio Girardot, em Medellín, na Colômbia. O clube catarinense tentou durante o ano todo trazer o clube colombiano e fazer a partida em Chapecó, mas o calendário do time do exterior não permitiu. A partida deste sábado terá transmissão da CBF TV, no Youtube. Parte do valor arrecadado com a partida será destinada ao auxílio às pessoas afetadas pelo terremoto que atingiu diferentes regiões do país. A 70 km de distância do local da partida está a montanha Cerro Gordo, localizada no município de La Unión, na região rural de Antioquia. Ela foi rebatizada em dezembro de 2016 como “Cerro Chapecoense” em homenagem às vítimas do trágico acidente aéreo.

Passado doloroso impulsionou o clube

Para o advogado e torcedor da Chapecoense, Rodrigo Timm, 33, natural de Chapecó, que no dia do acidente já estava com uma van contratada para assistir o jogo da volta em Curitiba com seus amigos, a tragédia corresponde ao episódio do atentado nas torres gêmeas de Nova York, daqui.

Rodrigo Timm, no centro da foto, ao lado de Plínio de Nês, ex-presidente do conselho deliberativo | Foto: Arquivo Pessoal / CP

“Me lembro de tudo daquele dia. É o nosso 11 de setembro. Eu morava em uma república de estudantes no Campeche, tinha uma prova de direito tributário no dia seguinte. Minha irmã, que estava me visitando, foi acordada às 4 horas da manhã com uma ligação falando que tinha um pouso forçado do avião da Chapecoense. Eu acordei e comecei a acompanhar as noticias ate o meio dia, torcendo para que tivesse mais sobreviventes. Eu pensava: será que tem pessoas machucadas? será que o jogo vai sair? Pra nós, além de ser uma tragédia mundial, significava perder pessoa que a gente conhecia. Eu conhecia o massagista, que concertou meu tornozelo muitas vezes quando eu jogava futebol, conhecia o supervisor técnico que me dava ingressos de jogo. Amigos, primo de amigos, tio de amigos, todos moravam pela região”.

Depois da tragédia, Rodrigo reflete que torcer para a Chape foi adquirir essa nova realidade difícil, mas que carrega significados importantes. “Eu lembro que depois, naquele verão eu fui pro norte da Argentina e nos camelôs de lá tinha camiseta do Real Madrid, do Barcelona, River Plate, Boca Juniors e da Chapecoense”.

Um novo significado: celebrar a vida e a amizade

Voltar pela primeira vez ao solo que marcou a história do clube agora exige o exercício mental e emocional. Revisitar os espaços, criar novas memórias e ressignificar o local vai ser a tarefa de toda a delegação catarinense.

"É um elo que não pode se apagar com o tempo, são dez anos. Quando a gente fecha os olhos, a gente lembra de tudo o que a gente passou naquele dia. Vai ser um momento importante para a gente, para estreitar mais os laços, homenagear quem partiu, trazer boas lembranças para quem ficou, porque é um novo rumo que a Chapecoense está tomando, retornando a Série A”, comentou Neto, o único sobrevivente Neto que viajou para o amistoso deste sábado, em podcast publicado esta semana para a ChapeTV.

Durante o voo para Medellín, o grupo recebeu uma homenagem dos tripulantes aos Eternos Campeões. Já na cidade, parte da delegação alviverde acompanhou o clássico entre Atlético Nacional e Millonarios na noite desta quinta-feira e recebeu o carinho dos verdolagas presentes no Atanasio Girardot. Na sexta-feira, o clube foi homenageado pelo Atlético Nacional e recebeu um destaque especial durante o evento que celebrou as lendas do clube colombiano.

Durante o evento, o presidente do Verdão, Alex Boff Passos, que está a frente do clube desde 2023, relatou que ficou impressionado com a conexão que o futebol pode proporcionar.

“É emocionante pra gente que viveu toda essa situação, para a Chapecoense que está vivendo esse momento ser recebido com a forma que o povo colombiano nos recebe. É impressionante. Vocês que estão aí no Brasil não têm noção do carinho que esse pessoal tem pela Chapecoense, saltam os olhos. Esse carinho nos leva a refletir sobre as relações que o futebol cria. É realmente diferente e inspirador. Hoje na festa deste tamanho, com pessoas extremamente importantes no futebol da Colômbia mostram o tamanho da Chapecoense e a nossa responsabilidade em fazer com que esse time seja cada vez maior e tenha vida longa”.

O presidente também ressaltou no podcast junto ao zagueiro Neto, que é importante manter viva não só a questão da tragédia, mas a lembrança das pessoas que se foram e a história do clube. Na passagem pela Colômbia, além da partida simbólica, a Chapecoense terá na sua programação a inauguração de um memorial, a instalação de uma escola de futebol do Verdão na região e um momento religioso para relembrar os entes queridos que partiram.

*Com supervisão de Patrick Pozzobon

Veja Também