Amizade, história e legado. É o que o esporte plantou na vida dos moradores de Galópolis, no interior de Caxias do Sul. Um bairro que atualmente abriga quase sete mil pessoas e preserva a essência da imigração italiana na Serra Gaúcha. É de lá que, mais precisamente do Círculo Operário Ismael Chaves Barcellos, desativado em 1982, que surgiram clubes que trouxeram cada vez mais memórias e conexão entre o ex-jogador Elzio Tisott e a comunidade.
Tudo começou quando os funcionários da empresa de tecelagem mais antiga e de maior expressão da zona colonial italiana, a Lanifício São Pedro (atual Cootegal), tiveram uma ideia: criar um time de futebol. O coleguismo da vivência na fábrica foi só o pontapé inicial, que deu o nome a um time aguerrido e cheio de sonhos.
Desde que foi criado o time do Lanifício São Pedro, a rotina era trabalhar e sair às 17h30min para ir até o campo e treinar. A vontade de fazer acontecer era tanta que nenhum problema era empecilho para aqueles jogadores. A existência e permanência do clube entre a década de 1960 e 1980 só aconteceu porque além de atletas, eles também se envolviam na construção do espaço esportivo.
As tarefas se misturavam em cortar a grama, instalar os bancos, colocar os postes, cercar. Desta forma, aos poucos, os jogadores iam aproximando o gramado, que ficava atrás de uma igreja, de um cenário de espetáculos. Entre os nomes que auxiliavam na manutenção estavam Elzio Tisott (Mosquito), Vilmar Marchioro (Barriga), Ladir Barazzetti, Raul Debastiani, Orestes Felippi, Armando Barazzetti e Ricardo Valentini (Patrola).
O anfitrião do futebol em Galópolis
De família italiana, Elzio Tisott, hoje com 80 anos, mora na Vila Operária desde que nasceu. Sua casa faz divisa com o campo atrás da igreja, local em que costumava jogar pelo Lanifício. Além de lateral e meia, ele ajudava o clube em todas as frentes. Quando preciso, se transformava em massagista ou também ia para a bilheteria cobrar os ingressos. Tisott, que jogou no clube durante 30 anos, se tornou o jogador vivo mais antigo e agora ajuda a recuperar o legado que ele e seus colegas deixaram nos campos da Vila Operária.
A vida no interior fez com que Elzio começasse a trabalhar cedo, com apenas 14 anos, na empresa do Lanifício. Quando chegou, foi ajudar na limpeza do chão, lavando os paralelepípedos. Depois, passou a limpar o banheiro masculino da empresa. Até que chegou à idade adulta e conseguiu uma vaga para operar as máquinas de tecelagem – e inclusive fabricar os cobertores que serviam à família Renner e o resto do Brasil.
O operário entrou para o time juvenil em 1960 e segundo o ex-jogador, como havia muita procura pelo clube, era difícil conquistar uma das chuteiras. Então, quem entrasse para a categoria dos juvenis, o Expressinho Galopense, já estava passando automaticamente por uma triagem para os times titulares.
Quando os finais de semana chegavam, a rotina mudava um pouco. O dia começava com a missa e então por volta das 11h, os amantes do futebol partiam rumo aos cinco quilômetros de caminhada, só para jogar no campo da 3ª légua, onde os jovens treinavam.
Tudo era esquematizado, e quando o recurso faltava, abusavam da criatividade. Aos sábados, as equipes recolhiam água para o banho do pós jogo, aos domingos. A bola que usavam, ou era feita de pano ou de bexiga de porco. Segundo Elzio, pegava-se a bexiga e colocava para secar. Depois, enchia-se com ar, como um balão, e pronto: já tinham a protagonista da partida.
Na região de Galópolis, o lazer se confundia entre ir à igreja, ao cinema e assistir às partidas de futebol, no campo que pertencia à paróquia. Ou seja, os times sempre tinham público para os confrontos. Dois senhores treinavam o time do Lanifício de São Pedro, da família Chaves. Elzio foi campeão com o clube quatro vezes pela Série B. Um desses títulos foi conquistado com a dicas de um certo professor chamado Luiz Felipe Scolari, que estreou na carreira de técnico comandando o time de Elzio. Felipão foi técnico no ano de 1981, quando ajudou o clube a conquistar o seu terceiro título. De acordo com o anfitrião, o principal rival do Lanifício era o time da 4ª Légua. Segundo o ex-jogador, era como se fosse o Gre-Nal da região.
Outro time que dava um bom confronto era o Juvenil de São André, da Fazenda Souza, duelo que sempre acabava em faíscas. De acordo com Elzio, ‘toda partida com eles dava briga’. Inclusive, precisaram fazer o Jogo da Amizade, mas mesmo no duelo criado com o intuito de acabar com as desavenças, houve briga no final da partida. Os jogadores dos dois clubes ficaram brigados durante 10 anos. Mas um bom churrasco queimou as mágoas e uniu os rivais de novo.
O anfitrião do futebol de Galópolis conheceu o estado por consequência do esporte. Com o time, Elzio viajou a Gramado, Guaíba, Porto Alegre (inclusive jogou no Olímpico, no campo suplementar), Feliz, Nova Petrópolis, Flores da Cunha, Vacaria, Farroupilha e também para o litoral gaúcho. O teceleiro, agora aposentado, conta que do time do Lanifício saíram algumas estrelas, entre elas: três jogadores profissionais – além do técnico Felipão.
Um ponto de memória
Na noite do dia 16 de dezembro, o Ponto de Memória Inventário Participativo de Galópolis lançou a exposição virtual intitulada de Memorial do Futebol de Campo Amador de Galópolis: passado, presente e glória. A exposição tem coordenação-geral de Geovana Erlo e produção cultural assinada por Juli Pandolfo Conexões Criativas.
O projeto foi criado com a missão de promover a autonomia da comunidade na gestão dos patrimônios culturais, com destaque para a participação dos moradores em todo o processo de identificação do que é representativo para eles.
Dividida em oito eixos temáticos, a exposição resgata, em formato de linha do tempo, a história do futebol de várzea em Galópolis. Enquanto isso, o acervo é composto por fotografias e recortes de jornais de diferentes épocas, reunidos através dos encontros, que foram realizados pelo Inventário Participativo do bairro.
Para prestigiar a exposição, basta clicar aqui.
*Com supervisão de Carlos Corrêa