Cada vez que um árbitro erguia a mão de um boxeador no ginásio da Vila Olímpica de Osório, a reação era sempre emocionada. Entre os vitoriosos, havia os que saltavam, os eufóricos que pareciam não acreditar, os que se ajoelhavam para agradecer aos céus. Mesmo longe do glamour dos combates em Las Vegas, quase sem atenção da imprensa, as reações dignas de final de Copa do Mundo são facilmente compreendidas. Eles celebravam um passo importante em direção a um sonho de vida: fazer do boxe olímpico um ganha-pão.
Durante três dias, Osório foi o centro do boxe para seis Estados. A cidade do litoral gaúcho sediou o primeiro Classificatório Sul-Sudeste para o Campeonato Brasileiro, em novembro. Cerca de 70 atletas de Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo competiram por duas vagas em cada categoria, num total de 30.
Todos os finalistas se garantiram no torneio nacional. Lá, os quatro melhores de cada categoria passarão a contar com o Bolsa Atleta. A possibilidade de alcançar a ajuda financeira de cerca de R$ 1,5 mil mensais do governo federal motiva os competidores, muitos deles provenientes de projetos sociais em seus Estados. Além disso, a comissão técnica da seleção permanente estará presente, em busca de novos talentos. Ser selecionado para treinar entre os melhores do país, com salário fixo, moradia e chance de disputar olimpíadas e mundiais, é um sonho dourado incomparável.
Ao todo, o RS classificou seis boxeadores. “É bom para promover o boxe no nosso Estado”, comemora o técnico Anildo Pereira, um abnegado que treina dúzias de meninos de graça em sua academia em Osório, dando muitas vezes até mesmo a refeição após o treino. “Tudo que eu ganho eu invisto no boxe, invisto nestes meninos. Não vou levar dinheiro para o céu mesmo”, diverte-se.
O evento, porém, não tem muito de amador. Nem mesmo as nomenclaturas “boxe olímpico” ou “boxe amador” estão atualizadas. Há dois anos, a categoria se chama AOB (Aiba Open Boxing, ou boxe “aberto”). Algumas regras foram modificadas, incluindo o fim do uso dos capacetes.
Aparentemente bem organizado pela Confederação Brasileira de Boxe em parceria com a prefeitura de Osório, o Classificatório ofereceu hospedagem, alimentação e transporte. A intenção é aprimorar a qualidade do Campeonato Brasileiro, levando só os melhores de cada região — torneios semelhantes aconteceram no Centro-Oeste e Norte-Nordeste — e estimular os atletas amadores a competirem por mais tempo.
A organização sofreu com a falta de ambulância. A que foi destinada pela prefeitura precisou deixar o local e causou a interrupção das lutas, atrasando a programação na sexta. Talvez tenha sido o único grande problema. No sábado (com duas ambulâncias), o público encheu o ginásio para o último dia de combates. “O boxe não está morto”, celebra o presidente da CBBoxe, Mauro Silva.
Atletas lutam para fazer do boxe olímpico um ganha-pão
RS classificou seis boxeadores para o Campeonato Brasileiro