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Beira-Rio: Nascido das águas

Inaugurado em 1969, o estádio completa 50 anos neste sábado e grande parte dessa história está acessível aos torcedores na biblioteca e no arquivo colorados

Estádio antes da inauguração
Estádio antes da inauguração Foto : CP memória

“De mais a mais, Sr. Presidente, não estamos dando ao Sport Club Internacional nenhum terreno; estamos dando, isto sim, uma porção de água, para que ele, pelo seu esforço e pela sua dedicação, pela boa vontade de seus titulares e de sua agremiação, tire dali o terreno que necessita para construir o seu estádio, a fim de que, ao longo de nossas bonitas praias, seja levantado mais um monumento à grandeza de nossa terra."

Quando feito, o discurso do vereador Derly Chaves, na Câmara Municipal de Porto Alegre, em 1956, o Beira-Rio não passava de um sonho colorado. Do projeto de lei nº 63/56, de autoria do vereador Ephraim Pinheiro Cabral, até a inauguração do estádio, em 1969, foram 13 anos. De lá para cá, mais 50.

As cinco décadas do Beira-Rio, completadas nesse sábado, 6 de abril, guardam uma série de histórias e curiosidades. A maioria delas pode ser encontrada em um espaço no Gigantinho, bem menos frequentado do que as reformadas arquibancadas do estádio ao lado. É lá que está localizada a biblioteca do Inter e também onde grande parte do material do arquivo do clube está guardado, tudo conduzido pelas cuidadosas mãos da bibliotecária Ana Marian Froner Bicca e da arquivista Yzara Menegaz, ambas formadas pela Ufrgs.

No acervo, há preciosidades, como algumas das plantas originais do projeto do estádio, quando o aterro no bairro Menino Deus sequer havia começado. Junto da planta de estacamento, justamente um dos primeiros passos em qualquer construção, visto que se trata da base do prédio em si, também pode ser encontrado um relatório, datado de 1958 – portanto 11 anos antes da inauguração – sobre um estudo do solo da região. Nele, constam telegramas trocados entre os responsáveis e até mesmo bilhetes escritos à mão sobre questões técnicas relativas à obra. De tão antigo, todo o material só pode ser manuseado com luvas.

À exceção dos três primeiros anos de existência do clube, de 1912 para cá, todas as atas do Conselho Deliberativo estão digitalizadas, somando mais de 350 documentos. Aqui, faz-se a ressalva de que, enquanto nos primeiros anos, cada ata tinha em média uma ou duas folhas, mais recentemente esse volume saltou para cerca de 60 por edição. Há inclusive um estudo sendo feito para que, em parceria com a Ufrgs, seja disponibilizado ao público a consulta dos documentos. “É importante porque ali está a própria história do clube”, afirma Yzara.

O trabalho de Ana Maria e Yzara é preservar a memória do Beira-Rio | Foto: Guilherme Almeida

Também no arquivo estão as fichas de todos os atletas que não têm mais vínculos com o clube. Uma vez que o contrato chega ao fim, o departamento de recursos humanos repassa ao setor os dados. Desta forma, o arquivo colorado conta com todas as informações, como tempo de contrato e salário, de cada atleta que já vestiu a camisa vermelha. “São muitos os desafios de conservar a memória, já que é preciso levar em conta o que está acontecendo hoje, mas também pensando no futuro”, explica Yzara. Não por acaso, tanto a arquivista como a bibliotecária sonham com o dia em que todo o acervo possa estar digitalizado. 

O Inter está longe de negligenciar o cuidado com a sua memória, muito pelo contrário. Ainda assim, o cuidado ideal com algumas das peças demanda mais investimento. “Estamos trabalhando nisso”, diz, esperançosa, Ana. A planta citada anteriormente é um bom exemplo. A conservação ideal requer uma moldura especial e um material que protege o documento dos dois lados. “É como dizemos no nosso trabalho: a gente primeiro salva o material e depois busca as melhores condições”, completa Yzara. 

Ter todo o acervo digitalizado é uma meta audaciosa, mas compartilhada por ambas. Para tanto, o clube precisaria investir em um “escâner planetário”, utilizado especialmente para a digitalização de obras antigas, uma vez que não danifica os originais. “É um trabalho de formiguinha, de convencimento. De mostrar para o pessoal que os gastos neste caso são um investimento e não uma despesa”, explica Yzara. 

Um dos argumentos neste sentido tem sido o interesse externo. Ana revela que há uma busca significativa por parte do público em geral: “A procura é grande, mesmo de gente de fora. Há muita busca por parte de universitários de diversos cursos, de administração, arquitetura, ciência políticas”. Em uma tentativa de abrir mais espaço para aqueles sócios e torcedores que ficam sem espaço dentro de um contexto mais institucional, Ana e Yzara também mantêm atualizado um blog com informações históricas do clube.

Planta de estacamentos original do Beira-Rio | Foto: Guilherme Almeida

O "Memória do Inter" (memoriadointer.blogspot.com) foi idealizado pela arquivista Aline Duarte, com passagem no clube. Lá, é possível encontrar, por exemplo, notas sobre a relação do clube com o Carnaval e fotos da “majestosa 'Draga Ester'”, responsável pelo aterro da área que viria a receber o Beira-Rio. “Todos os dias eu acordo e venho para cá feliz, porque é um trabalho que eu faço com muita paixão”, vibra Ana.

Não há como afirmar de forma objetiva qual a primeira menção nas atas ao que viria a ser o Beira-Rio anos depois. É possível, no entanto, apontar que as conversas oficiais no clube remontam pelo menos a 1955, como uma das atas, datada de 20 de outubro daquele ano, indica. “Falaram, pela ordem, os Sr. Efraim Pinheiro Cabral e José Pinheiro Borda, que ressaltaram os últimos lauréis conquistados pelo clube e louvaram os trabalhos realizados pela diretoria presidida por Salvador Lo Prumo e pela Comissão do Estádio, sob a direção de Pedro Machado Moreira”, escreveu o então secretário Eraldo Campol.

A ideia inicial, no entanto, não previa uma mudança de endereço. Após a realização da Copa do Mundo de 1950, no Brasil, houve um crescimento exponencial no número de associados no Inter e o estádio dos Eucaliptos começou a ficar pequeno. O clube chegou a solicitar uma autorização junto à Prefeitura para que pudesse expandir a construção para as ruas no entorno, no bairro Menino Deus. No entanto, isso demandaria o fechamento da rua Barão do Cerro Largo e não foi aceito pelas autoridades. Foi quando os dirigentes voltaram suas forças para outro lado.

O então prefeito Leonel Brizola havia apresentado à Câmara dos Vereadores um projeto chamado “Aterro da Beira-Rio”, projetando parques e avenidas a partir de um aterro na área do rio Guaíba. Não demorou muito para que os pontos fossem ligados e o novo sonho vermelho e branco ganhasse ares oficiais com o projeto de lei 63/56, de 14 de setembro de 1956. No ano seguinte, a primeira parte do aterro já saía do papel.

O material disponível no clube sobre tal período é rico e mostra a campanha que foi feita envolvendo os torcedores para arrecadar fundos. Entre os itens relativos à inauguração, Ana mostra um álbum de figurinhas que chama a atenção por indicar como eram tempos diferentes. As figuras eram vendidas em bancas de jornais e traziam, claro, atletas do Inter, assim como fotos do novo estádio e de dirigentes. No entanto, uma delas mostra dois atletas abraçados: Dorinho e Joãozinho. O primeiro com a camisa do Inter, o segundo, com a do Grêmio. O rival também teve reservado para si uma foto com o time completo posado.

Álbum de figurinhas da inauguração do Beira-Rio | Foto: Guilherme Almeida

Resquícios de uma civilidade que, infelizmente, ficou perdida no passado. Há outras curiosidades. Como o fato de que o estádio Beira-Rio por muito tempo também teve em suas instalações, por exemplo, uma adega e uma fábrica de flâmulas. Mais tarde, também recebeu dois restaurantes que ficaram famosos ao longo do tempo: a Churrascaria Saci e o Choppão. 

O acervo é grande e depende em parte dos torcedores para crescer. Isso porque o projeto “Preservando Tesouros Colorados” incentiva que os colorados façam doações de itens relacionados à história do Inter e/ou do Beira-Rio, desde carteiras de sócios a fotos e outros acessórios. O ex-jogador Dorinho, por exemplo, doou a medalha recebida no jogo de inauguração do Beira-Rio, em 1969, contra o Benfica. “O torcedor pode ter certeza de que tudo vai ser tratado com muito carinho aqui”, assegura Yzara.