Sem medo de dar a cara a tapa, o jogador aprova seu desempenho no Mundial, reclama da falta de privacidade durante a competição, coloca em xeque a preparação do Brasil para o confronto com a Alemanha e discute a forma como os brasileiros enxergam o futebol.
Você deixou de ser convocado para a Seleção depois da Copa do Mundo. Acha que pode ter chance com o Dunga?
Sonho acordado com a Seleção. Enquanto for atleta, continuo querendo a Seleção. O treinador tem opção e ele escolhe quem considera melhor. Eu estou à disposição. Não acredito que a minha ausência nessas convocações tenha a ver com o meu desempenho na Copa.
Se considera um jogador injustiçado na Seleção?
Disseram que eu não estava jogando bem, mas eu estava jogando bem na Seleção. Cada gol que o Brasil sofria, diziam que a culpa era minha. Mas como em um esporte coletivo podem culpar apenas um jogador por um gol sofrido? Isso é a mentalidade individualista do Brasil. Para sofrer um gol, não é apenas o erro de uma pessoa, a não ser em lances muito específicos, quando um goleiro solta uma bola, ou um defensor deixa uma bola escapar. Se não for isso, todos erram. Você está em uma Copa do Mundo, vão te driblar, vão fazer gols. Ali estão os melhores do mundo e você está disputando contra os melhores do mundo.
Você perdeu lugar para o Maicon nas quartas de final contra a Colômbia e ficou na reserva contra a Alemanha...
Não entendo por que eu saí do time. Estava jogando bem. Ninguém me explicou por que saí, mas eu respeito, sou um jogador de grupo. Fui educado para ser importante coletivamente e não me preocupo individualmente. Mas eu me surpreendi por ter saído do time, porque eu acredito que o problema da nossa Seleção não era eu. Não entendi isso. Mas não questionei, não falei nada. Esperei minha chance, mas ela não veio. E fomos eliminados, acontece.
Muitos culpam você pelo fraco desempenho da Seleção na Copa. Como se sente com isso?
Falam que a culpa era minha, mas estava tentando me portar da melhor maneira possível contra as críticas, mesmo porque, se você analisa comentários da Espanha e do Brasil, eles são opostos. No Brasil, tinha toda aquela polêmica de que eu tinha que sair. Já aqui, na Espanha, todos achavam diferente. Eles também não entenderam por que eu deixei o time.
Como você acha que o torcedor brasileiro te vê?
Acho que o problema é que os brasileiros não estão acostumados a ver alguém dando a cara pra bater. As pessoas gostam de quem se esconde. E eu não faço isso. Então, isso cria uma polêmica. E eu sempre estou na linha de frente, isso cria uma imagem. Quando vejo que querem enfraquecer o meu grupo, um companheiro, eu não fico calado. Sou assim, faço as coisas coletivamente, compro brigas e defendo meus companheiros. E, de repente, por fazer isso, acabei criando uma polêmica e uma campanha “Fora, Daniel”. Acharam que sem a minha presença no time não teria polêmica. E, talvez, tenham conseguido me tirar.
Quem te tirou?
Não vou falar quem tirou. É geral.
Acha que a Seleção foi bem?
Chegamos até onde o nosso povo nos levou. Mas aí o povo não podia fazer mais nada, além da lesão do Neymar, a saída do Thiago Silva... Tudo isso nos prejudicou. Isso não é desculpa, tínhamos jogadores qualificados, mas não nos preparamos para o jogo contra a Alemanha. Aquele papo que a gente não trabalhava era mentira. A gente trabalhava para c...! É claro que a imprensa só via uma parte. Ela só viu o que a gente fez no campo e não fora dele. Mas a imprensa não permitia a gente trabalhar com tranquilidade.
A imprensa teve culpa?
Tinha que ser separado. Não é menosprezar a imprensa brasileira, mas precisamos ter privacidade. Você vê os outros times, são 15 minutos de treino aberto. E a imprensa aceita. Isso é criar uma educação para a imprensa. Você não vê igual como no Brasil, 24 horas por dia mostrando a Seleção. Infelizmente, nós brasileiros agimos como o outro pensa. No Brasil, as pessoas pensam: se fizer isso, vou ser criticado, e não pensam no que é bom para o time. A imprensa no Brasil elogia se ganha. Se perde, é tapa na cara. Para mim, esse foi o grande problema da Seleção, essa superexposição. Se a Seleção não abre, a imprensa cobra que estão afastando a Seleção do povo. E isso não é verdade. O povo quer resultado e resultado a gente só vai ter quando conseguirmos essa educação, esse profissionalismo. O nosso trabalho tem que ser respeitado.
Qual nota você dá para a sua participação na Copa?
Para mim? Aprovo o meu desempenho no Mundial. Fui bem. Só não posso dar uma nota muito alta, porque não participei ativamente dos jogos mais importantes.
Você voltaria hoje para jogar no futebol brasileiro?
No Brasil? Ainda não. Não descarto, mas o Brasil precisa melhorar. Você tem uma história no futebol e jogar desse jeito no Brasil pode manchar essa história.
O que precisa mudar?
O futebol brasileiro precisa de mais organização. No Brasil, todo jogo é um clássico, temos grandes clubes. Os clubes brasileiros precisam levar isso em conta. Precisam pagar os jogadores em dia. Aqui, quando um clube não paga, é rebaixado. O clube precisa ser responsabilizado por isso. Não adianta ter grandes jogadores e não pagar por eles. É questão de organização, fazer um grande campeonato, colocar normas, respeitar as datas Fifa e fazer com que essas regras sejam cumpridas.