Esportes

Como nascem os craques do futebol brasileiro

A rotina dos jovens que sonham se tornar ídolos nacionais

Rotina dos jovens que sonham se tornar ídolos nacionais
Rotina dos jovens que sonham se tornar ídolos nacionais Foto : Ricardo Giusti
Um terreno, uma bola e cinco, sete, 11 ou até 20 para cada lado. Não importa. Um time com camisa e outro sem. A exigência com o lugar também não é das maiores, um pouco de grama irregular nos cantos já serve. No meio, pode ser terra mesmo. Em cada extremidade, um retângulo, de madeira ou de ferro, nem precisa ter rede. A bola é melhor que seja de couro, mas, dependendo, até uns pares de meias servem, desde que fique redondos e dê para chutar.

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O cenário descrito acima não foi visto ao longo do desenvolvimento desta reportagem. É, portanto, fictício. Ao mesmo tempo, não deixa de ser real no imaginário e na memória do brasileiro. Reconstitui uma paixão nacional em sua raiz e remete, para os mais saudosos, ao que é considerado a essência do esporte no país pentacampeão mundial. Desde o último título, em 2002, lá se vão 14 anos. O tempo também provocou mudanças em parte desta alma futebolística. A pelada de rua, o futebol praticado em sua forma mais típica e responsável pelo surgimento de craques de antigamente, tem ficado assim, no passado. Em contraponto, a produção de jogadores não parou. Pelo contrário, segue a pleno.

O que ocorre é uma transformação constante no cenário de formação de atletas de futebol, explica o doutor em Antropologia Social e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre Futebol e Modalidades Lúdicas da Universidade de São Paulo (Ludens/USP), Enrico Spaggiari. Os principais motivos, segundo ele, são as modificações do futebol amador e profissional, mas também as alterações, em mesma velocidade, das dinâmicas sociais. “O que está em jogo é a relação entre futebol e cidade. Se as cidades se transformam, nossos modos de apropriação dos espaços urbanos também mudam, assim como o futebol é vivido na cidade”, explica.

Autor do livro “Tem que Ter Categoria: Construção do saber futebolístico” e de uma série de artigos e pesquisas com temas que permeiam o futebol, a juventude, as periferias, a cidade e o lazer, Spaggiari observa que ainda não é muito nítido o momento responsável por estas modificações. No entanto, estabelece três períodos-chave no processo de transformação: a partir de 1950 (uma intensa urbanização vivida no Brasil); ao longo dos anos 1980 (surgimento de uma lógica empresarial no universo esportivo); e no decorrer da década de 1990 (consolidação de novas legislações esportivas aliadas a esta lógica).

Depois deste período, passa a ser mais difícil de identificar a existência de um padrão nacional de formação profissional de jogadores de futebol, explica o também doutor em Antropologia Social, Arlei Sander Damo. Pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), ele diz que a partir deste período começa um intercâmbio de conceitos, métodos, profissionais e equipamentos, uma prática que se tornou intensa. Por isso, entende que um modelo europeu tem sido utilizado nas últimas décadas e que mudanças expressivas no crescimento de novos atletas não são recentes.

Com publicações como “Do Dom à Profissão: A formação de futebolistas no Brasil e na França” e “Futebol e Identidade social”, Damo comenta que as transformações na produção de futebolistas também estão muito associadas ao treinamento físico, que, até os anos 1960, por exemplo, carecia de profissionais especializados. Segundo ele, o futebol foi uma das últimas modalidades a incorporar métodos científicos devido a certa resistência às novidades. O pesquisador ainda coloca como fatores importantes o surgimento do auxiliar técnico - responsável pela disseminação de conhecimento prático tanto tecnicamente quanto taticamente -, e a modernização da infraestrutura dos clubes. Mas, assim como Spaggiari, ele avalia ser difícil precisar um período específico de chegada destas práticas, pois elas ocorreram e seguem ocorrendo de forma progressiva.