Visivelmente abatido, Marcelo Bielsa fez nesta terça-feira sua primeira manifestação pública em Montevidéu após eliminação precoce do Uruguai na Copa do Mundo. Em entrevista concedida no Estádio Centenário, o treinador reconheceu o fracasso da campanha, afastou a possibilidade de que os problemas de relacionamento com o elenco tenham influenciado os resultados e afirmou que a seleção deveria ter encerrado a fase de grupos em situação bem mais confortável, com pelo menos sete pontos.
Vestindo o uniforme oficial da seleção e munido de relatórios estatísticos para embasar suas respostas, Bielsa alternou momentos de firmeza e emoção ao analisar a participação uruguaia no Mundial. O treinador admitiu a frustração pelo desempenho da equipe, mas rejeitou a tese de que a distância criada entre ele e parte do grupo tenha sido determinante para a eliminação.
"A explicação é necessária, pois parece que os jogadores não jogaram melhor porque estavam aborrecidos comigo. Não posso concordar com isso", afirmou.
Nos últimos dias, relatos da imprensa uruguaia apontaram um ambiente desgastado entre o comandante e alguns atletas. Bielsa, porém, garantiu que a convivência nunca impediu que a equipe buscasse os resultados necessários. "A relação que tive com os jogadores não foi um obstáculo para que o time conseguisse o que era necessário", assegurou.
Durante a entrevista, o técnico revelou que fez concessões para tentar melhorar o ambiente interno. Entre elas, reduziu o número de palestras táticas e promoveu mudanças na rotina de treinamentos. Ainda assim, reconheceu que não conseguiu transformar a qualidade do elenco em resultados. "A gestão que fiz dos recursos com que contava — refiro-me à qualidade dos jogadores disponíveis — não foi suficiente", admitiu.
Ao comentar a campanha, Bielsa não procurou amenizar a eliminação ainda na fase de grupos. Para ele, não há justificativas capazes de reduzir o peso do insucesso. "Não há argumento que faça um fracasso menor. Fracasso é fracasso. É impossível deixá-lo menor, principalmente quando afeta as pessoas", declarou.
Apesar do desfecho, o treinador sustentou que os números produzidos pela seleção indicavam uma campanha superior à que se confirmou em campo. Segundo ele, o Uruguai criou volume de jogo suficiente para somar mais pontos. "Deveríamos ter terminado o grupo com sete pontos", avaliou. Porém, os uruguaios acumularam dois empates contra Arábia Saudita e Cabo Verde e a derrota para a Espanha, que decretou a queda do time do Mundial.
Em um dos momentos mais emocionados da entrevista, o treinador lamentou a frustração causada à torcida uruguaia e reconheceu o impacto da eliminação. "Sinto que decepcionamos os torcedores. É uma frustração muito grande, totalmente imprevista, que a nossa posição final na Copa fosse a que foi, difícil de imaginar e que é uma queda que ninguém pode admitir, aceitar ou suportar", afirmou.
Questionado sobre o legado deixado à frente da seleção, Bielsa foi sucinto e demonstrou desencanto com o trabalho desenvolvido. "Tenho claríssimo que não deixo nada", respondeu. Ao encerrar a entrevista, o argentino também resumiu o sentimento com que deixa o cargo. "Não saio satisfeito", concluiu.