A Copa do Mundo, que começa nesta quinta-feira, na América do Norte, representa um momento de alto risco de dependência em apostas esportivas para jovens e pessoas com menor autocontrole, alertam associações e especialistas antes do início do torneio.
"Essa festa coletiva é vista como uma oportunidade para atrair um público mais jovem, menos interessado em futebol no restante do ano, para as apostas esportivas. Associar apostas esportivas ao esporte representa uma grande mudança sociológica e é muito difícil desfazer esse vínculo", afirmou o sociólogo francês Thomas Amadieu, autor do livro "A fabricação da dependência dos jogos de azar" em tradução livre”.
Segundo o intelectual, a Copa é "um momento de risco", em que "a promoção das apostas é cada vez mais eficaz", impulsionada pelo aumento da publicidade, de premiações e de campanhas com influenciadores.
Entretanto, ainda existem exceções, como no caso do atacante do Real Madrid, Kylian Mbappé, que repudia a associação de sua imagem a marcas de apostas esportivas. De acordo com o sociólogo, as consequências não atingem somente o apostador da vez, mas também podem respingar nos atletas-influenciadores e demais público, gerando pressão e comentários agressivos nas redes sociais quando os jogadores não têm o desempenho esperado.
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Jovens como alvo
Em um evento de grande impacto social, os jovens ficam especialmente expostos à publicidade de apostas nas redes sociais e nos espaços públicos. No Reino Unido, a publicidade de casas de apostas é proibida dos cinco minutos antes aos cinco minutos depois das partidas. Algumas associações consideram a medida positiva, mas insuficiente.
"Deveria ser de uma hora antes até uma hora depois dos jogos", defendeu à AFP Myriam Savy, diretor da associação Addictions France. Ela também propõe impedir que empresas do setor utilizem patrocínios para contornar restrições à publicidade.
Para Amadieu, as estratégias comerciais das empresas podem ser uma armadilha especialmente para adolescentes. "O cérebro deles ainda não está maduro, então têm mais chances de perder o controle", explicou. Segundo ele, isso pode levar jovens a apostar mais do que pretendiam, tentar recuperar perdas, contrair dívidas, pedir empréstimos, sofrer estresse e mentir para suas famílias.
Legislação protetiva
Outro grupo vulnerável são os moradores de áreas mais pobres, onde a promessa de dinheiro fácil pode ser especialmente atraente.
"Nos bairros populares existem mensagens que podem acionar certos mecanismos: reconhecimento social, fuga do cotidiano e a possibilidade de ganhar dinheiro rapidamente", explicou Amadieu.
Contudo, as associações defendem regulamentações mais rígidas e restrições à publicidade, em vez de confiar na autorregulação das empresas do setor.
"A indústria responsável pelos danos se apresenta como a solução do problema para evitar regulamentações mais protetivas aos jogadores.Cada vez mais países restringem a publicidade e a oferta de jogos, adotando regulamentações mais firmes", criticou o sociólogo.