Copa do Mundo

Espanha finalista: veja comparações do atual time com a geração campeã em 2010

Se há 16 anos, a base da Fúria era formada pelos dois maiores clubes do país, hoje o elenco é mais democrático, mas preserva as características do jogo coletivo

Espanha chega na final da Copa pela segunda vez na história
Espanha chega na final da Copa pela segunda vez na história Foto : ALEX GRIMM / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP / CP

A Espanha desbancou a grande favorita França na semifinal da Copa do Mundo, dentre outras razões, por acreditar na ideia de jogo construída com o passar do tempo. Se o campeonato local, a LaLiga, deixou de ser o epicentro do futebol internacional e perdeu a visibilidade principalmente para a Premier League, a seleção não perdeu a sua essência. Ao contrário, manteve o que deu certo como modelo sem que seja necessário aparecer uma grande fornada de talentos fora da curva.

"A Espanha manteve seu plano de jogo, o estilo ao qual são fiéis: uma equipe que gosta de controlar a bola e o ritmo. A ideia era pressioná-los no campo de ataque para impedir que aquele ritmo lento e enganoso se estabelecesse, mas não conseguimos", analisou Mbappé. O francês, após a inconteste derrota francesa na terça-feira, reflete o contraste de um time cheio de estrelas como o francês sucumbir pelo terceiro ano consecutivo para La Roja com nomes bem menos badalados, à exceção da joia Lamine Yamal.

Até o inédito título de 2010 era comum tripudiar da alcunha de Fúria do selecionado espanhol. Na época, no auge de Messi, no Barcelona (se é que existiu o topo na carreira do camisa 10), o clube catalão praticamente serviu de base para a formação da Espanha finalmente campeã do Mundo, na África do Sul.

Real Madrid e Barcelona meio a meio

Dos 11 titulares da escalação que derrotou a Holanda na final, seis eram do Barça, que ainda somou Villa, o sétimo nome às vésperas do torneio: Carles Puyol, Gerard Piqué, Sergio Busquets, Andrés Iniesta, Xavi Hernández, Pedro Rodríguez e David Villa. Outros três jogadores eram do Real Madrid: Iker Casillas, Sergio Ramos e Xabi Alonso. O único de fora da poderosa dupla era o lateral-esquerdo Joan Capdevila, do Villarreal.

O atual time é mais democrático e curiosamente, pela primeira vez na história das Copas, não tinha um nome do Real. No entanto, durante a preparação para o torneio, Cucurella trocou o Chelsea pelo clube da capital espanhola. Também de Madrid, mas do rival Atlético tem o atacante Alex Baena. Do xará de Bilbao são três: Unai Simón, Laporte e Oyarzabal, sem contar outra joia, Nico Williams, que amarga a reserva, descontado por lesão.

O Barça segue sendo maioria: Cubarsí, Dani Olmo e Lamine Yamal, além das imediatas reposições Ferrán Torrese e Pedri. Jogam fora da Espanha Pedro Porro do Tottenham, Rodri do Mancester City e Fabián Ruiz do PSG.

Raíz diferente no banco de reservas

A tendência inclinada para o lado de Bilbao sugere a lembrança de que a Espanha é um país dividido por culturas bem diferentes, como a da Catalunha, da Galícia, da Andaluzia a de Castela, que engloba Madri e também o forte traço do chamado "país Basco'. É por aquelas bandas que veio o técnico Luis de la Fuente.

O ex-lateral e técnico da Espanha desde 2022, nasceu na região de La Rioja, conhecida pelos vinhos da uva. É bem possível portanto entender um pouco da identidade da atual equipe treinada por ele: robustez defensiva, trabalho coletivo e convicção.

Técnico campeão em 2010 com a Espanha, Vicente del Bosque chegou ao cargo já experiente e vencedor no Real Madrid, clube onde atuou também como jogador. Teve em mãos uma leva de atletas afirmados nos dois principais clubes do país e que, embora rivais, remaram para o mesmo lado se aproveitando também do entrosamento que carregavam de suas equipes. Não foi à toa que dois anos depois o mesmo time conquistou também a Eurocopa.

Sucesso não é de agora

A última frase pode ser repetida para o time de De La Fuente. Campeão da Euro em 2024 contra a Inglaterra, vice da UEFA Nations League quando perdeu nos pênaltis para Portugal, a Espanha de Luis de la Fuente cruzou o caminho do Brasil na final olímpica de 2020, em Tóquio. Basta comparar as escalações para entender como as coisas fazem sentido.

Se na equipe campeã treinada por André Jardine, somente Bruno Guimarães e Matheus Cinha estiveram com Carlo Ancelotti na Copa, na Espanha seguem Unai Simón, Marc Cucurella, Mikel Merino, Dani Olmo, Pedri González, Mikel Oyarzabal. Ou seja, notoriamente há uma base consolidada.

Sem 9 de referência

Ainda que tenha terminado como o goleador do Mundial em 2010 com 5 gols, David Villa não era um centroavante clássico. Ainda mais quando os concorrentes tinham nomes de outro patamar: Miroslav Klose da Alemanha, Samuel Eto'o de Camarões, Luis Suárez do Uruguai, Nicolas Anelka da França e Wayne Rooney da Inglaterra. No entanto, o camisa 7 funcionava no modelo de movimentação consagrado naquela época como o "tiki-taka", de Pep Guardiola, no Barcelona.

A Copa de 2026 não traz um leque tão extenso de grandes centroavantes. Harry Kane da Inglaterra e Erling Haaland da Noruega são estlos complemente diferentes de Julián Álvarez da Argentina e até Mbappé da França, que jogou centralizado. Pois na finalista Espanha ninguém tomou conta da posição. Mikel Oyarzabal e Ferran Torres alteraram bons e maus momentos na trajetória até a final, tanto é que o polivalente Mikel Merino precisou resolver contra Portugal e Bélgica.

Campanhas parecidas

Não é só a presença de um cabeludo (Puyol antes e Cucurella agora) na zaga a coincidência entre os setores das duas seleções. Em 2010, a Fúria só tomou dois gols em toda a campanha, que curiosamente também começou mal. Após derrota para a Suíça na estreia, foram seis vitórias seguidas sobre Honduras, Chile, Portugal, Paraguai, Alemanha e Holanda, sendo as quatro últimas por magros 1 a 0.

A atual Espanha causou espanto com o 0 a 0 na largada com Cabo Verde. No entanto, desde lá foram seis vitórias com um único gol sofrido: Arábia Saudita, Uruguai, Áustria, Portugal, Bélgica e França.
Os números até poderiam justificar qualquer desconfiança que o time de 2026 pudesse ter criado, mas é a maneira de jogar que não deixa dúvidas por se tratar de um futebol bem diferente do restante que se vê por aí. E não é questão de gosto, e sim de produção.

“A seleção de 2010 tinha forte e decisiva influência do Barcelona de Pep Guardiola. A maioria dos jogadores era do time Catalão, que transportou para a seleção o controle do jogo pela posse de bola. Aquela conquista ajudou a consolidar o novo estilo espanhol, reproduzido agora e responsável também por mais uma final. A diferença está no ataque. O grupo atual é mais contundente, tem mais força de ruptura nos lados do campo. É importante frizar que a primeira conquista moldou uma ideia muito clara de futebol, presente no Barcelona e em outras equipes quando se trata da formação de jogadores”, diz Paulo Calçade, comentarista dos canais ESPN.

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