Por Eliza Gomes e Filipe Capra*
Há mais de 60 anos, Donário começou a colecionar álbuns de figurinhas, ainda criança, trocava com seus colegas na escola, em Porto Alegre. Tudo começou em 1966.
Natural de Porto Alegre, Donário Rodrigues Braga Neto tem 69 anos, é engenheiro civil e possui mais de 400 álbuns em sua coleção. Desses, 60 a 80 são apenas sobre futebol, com destaque para Copas do Mundo.
Donário afirma que o sentimento de completar um álbum nunca mudou, mesmo após todos esses anos. “Cada álbum que eu compro, que consigo, é a mesma satisfação de 50 e tantos anos atrás.” comente.
Dentro de sua vasta coleção, está o álbum da Copa de 1970, ano em que a Seleção Brasileira conquistou o tricampeonato mundial. No auge de Pelé, o Brasil bateu a Itália por 4 a 1 na grande final do torneio. “Esse da Copa de 70 aqui é especialíssimo porque a Copa foi icônica. Até hoje aquela Seleção é comentada”, diz o colecionador.
Outra peça da coleção que ele guarda no coração é os “Ídolos do Robertão”. O torneio Roberto Gomes Pedrosa foi o equivalente ao Campeonato Brasileiro, que começou oficialmente em 1971. O livro ilustrava os grandes craques do torneio. Nomes como Pelé, Rivelino, Jairzinho e Ademir da Guia estavam entre as figurinhas.
Apesar do valor sentimental inestimável, Donário nunca completou a coleção. Falta apenas uma figurinha: do jogador do Grêmio Gilberto Alves de Souza, o Flecha. Ainda na escola, ele perdeu a chance de comprar a figura. “Um colega queria 5 mil cruzeiros por ela, achei muito caro, então virei as costas, não quis negociar”, lamenta. Mesmo incompleto, o álbum está avaliado em R$ 15 mil.
Donário é torcedor do Grêmio e gosta de acompanhar a Seleção Brasileira, mas afirma que colecionador não tem time. Ele possui o livro ilustrado para outras equipes do futebol brasileiro como Internacional, Santos, Flamengo e Fortaleza.
Quanto à Seleção Brasileira, ele guarda profundo descontentamento com a Copa de 2014, devido ao 7 a 1 aplicado pela Alemanha em cima do Brasil. Mesmo assim, tem o álbum completo em sua coleção.
Seis décadas de paixão por álbuns
Colecionador de seis décadas, Donário explica que a prática se tornou uma paixão desde a infância. Ele explica que se sente muito feliz indo atrás de novos álbuns e que o ato de colar figurinhas se tornou um prazer e um espaço de lazer em sua vida. O gosto por colecionar o leva a participar de leilões e entrar em contato com editora para imprimir álbuns mundiais antigos, como as das décadas de 1930, 1934 e 1938.
“Quando tu te tornas um colecionador, não para mais”, afirma.
Com o passar dos anos, alguns sentimentos nunca mudam. Mesmo com as novas oportunidades oferecidas pelo mercado, como eventos promovidos por bancas de revistas, leilões, acesso facilitado a editoriais impressos e vendas online, a satisfação de ver um álbum completo não se altera. Foi o que aconteceu quando completou o livro ilustrado da Copa do Mundo de 2026.
“Antigamente não existia essa questão de se álbum comprar álbum pronto. Não tinha Mercado Livre, não tinha leilão. A gente tinha que fazer o álbum lá na banca, comprar as figurinhas, os pacotinhos e trocar no colégio”, ressalta.
Para Donário, abrir cada álbum completo de sua coleção é sempre uma oportunidade para revisitar o passado. “Para mim, isso não tem preço”, destaca.
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Álbuns atuais perdidos a simplicidade dos anos passados
O ato de colar figurinhas em livros ilustrativos, para o colecionador, é um espaço para se desligar na correria do dia a dia. Porém, comenta que de uns anos para cá sentiu uma grande mudança na estética visual dos álbuns.
Algo que era mais limpo, simples, que dava mais visibilidade aos jogadores, hoje conta com páginas mais coloridas e que apostam em elementos visuais ou também locais de propagandas para as marcas.
"Os álbuns da década de 50, 60, 70 tinham uma forma de se apresentar. Hoje ele tem outra para atender a nova geração. Faz parte da evolução do tempo. Acho os álbuns de hoje um pouco poluídos, mas é o que a geração de hoje entende como melhor e as editoras sabem vender esse produto", ressalta.
Os livros ilustrativos da época de décadas anteriores apostavam em páginas com núcleos mais neutros e se preocupavam em dar mais visibilidade às fotos dos jogadores. A própria Panini, editora oficial por produzir os álbuns de figurinhas desde 1970, passou por essas mudanças, conforme a evolução do mercado.
Colecionador vê álbum de figurinhas como forma de preservar a memória do futebol
Apesar de continuar gostando de futebol, o colecionador afirma que acompanha muito menos partidas atualmente do que décadas atrás. Segundo ele, o esporte mudou significativamente ao longo dos anos. "Hoje em dia, infelizmente, o nosso futebol é muito dinheiro e pouca bola. Eu sou gremista, mas não vejo jogo do Grêmio. Há décadas atrás eu via qualquer tipo de jogo de futebol", relata.
Ele acredita que a relação dos jogadores com os clubes também mudou e que a qualidade técnica do futebol diminuiu. "Às vezes, não existe aquela doação pela camiseta do clube. E a qualidade também é bem menor do que era antes", afirma.
Mesmo acompanhando menos partidas, ele mantém uma forte ligação com o futebol por meio da coleção de álbuns de figurinhas. Para Donário, os álbuns possuem um valor que vai além dos resultados dentro de campo.
*sob supervisão de Márcio Gomes