O confronto entre Inglaterra e Argentina, às 16h de amanhã, vale uma vaga na final da Copa do Mundo e reacende uma rivalidade que vai além das quatro linhas. Há 44 anos, os países entraram em guerra pelas Ilhas Malvinas (ou Falklands, para os britânicos): um arquipélago de 11.718 km² de superfície a cerca de 600 km da costa da Argentina, rico em recursos como petróleo e gás natural. O conflito, travado entre 2 de abril e 14 de junho de 1982, foi o ápice de uma disputa territorial de centenas de anos, mas que não apaga a forte influência inglesa na cultura argentina, inclusive no futebol.
Embora a Guerra das Malvinas tenha acontecido no mesmo ano do Mundial de 1982 (e até dividido capas de jornais), o confronto ganhou ramificações no futebol quatro anos depois. Nas quartas de final, a Argentina eliminou a Inglaterra por 2 a 1, com dois gols de Diego Maradona, incluindo aquele que depois ficou conhecido como “La Mano de Dios” e o lance em que o argentino driblou cinco ingleses a partir do meio de campo, considerado um dos gols mais emblemáticos da história das Copas.
Nos dois confrontos travados no Mundial desde então, nas oitavas em 1998 e na fase de grupos em 2002, a rivalidade falou mais alto, com provocações dentro e fora de campo. Para o duelo de 2026, antes mesmo de a bola rolar, a partida já conta com elementos que remontam ao passado: a Argentina vai jogar com sua camisa azul-escura, tal qual em 1986 e 1998.
Impasse centenário
A disputa pelas Malvinas tem origem na era das Grandes Navegações. Segundo o Ministério das Relações Exteriores da Argentina, as ilhas foram descobertas em 1520, por uma expedição a serviço da Coroa Espanhola, comandada pelo navegador português Fernão de Magalhães, o que faria do arquipélago um território espanhol, segundo os tratados da época. Os britânicos, por outro lado, afirmam que as ilhas foram descobertas apenas em 1592, o que reforçaria a reivindicação inglesa.
As primeiras disputas pelo território aconteceram ainda entre Espanha e Inglaterra, quando o inglês John Strong nomeou, em 1692, o estreito que separa as duas principais ilhas do arquipélago como Estreito de Falkland. A Coroa Espanhola reivindicou seus direitos sobre o arquipélago, mas o embate não tomou maiores proporções até que a França começou a colonização das ilhas em 1764. Os espanhóis negociaram a transferência de soberania do povoado com a França e finalmente passaram a exercer domínio sobre o território.
Os “Hermanos” entraram na disputa pelo território antes mesmo de o país se tornar o que conhecemos hoje. Em 1811, durante a onda de revoluções de independência na América Latina, a Espanha organizou a desocupação do território das Malvinas, que foi prontamente tomado pelas Províncias Unidas do Río de la Plata, que eventualmente se tornaram a Argentina.
Em 1833, o Reino Unido expulsou o governador e a guarnição local, assumindo novamente o controle das ilhas como um de seus territórios ultramarinos. A Argentina reivindica a soberania das Malvinas desde então. No entanto, foi só em 1965, com a promoção da descolonização de territórios pela ONU após da Segunda Guerra, que a comunidade internacional reconheceu formalmente a disputa territorial pelo arquipélago.
Tentativa fracassada de reintegração
No dia 2 de abril de 1982, quatro mil fuzileiros navais argentinos invadiram e ocuparam as Ilhas Malvinas, derrotando um pequeno destacamento militar britânico. A operação deu origem a um conflito armado que durou 74 dias até a rendição da Argentina, resultando na morte de 650 militares argentinos e 255 britânicos, além de três civis.
Após cerca de 20 dias tentando retomar o território por vias diplomáticas, a Inglaterra entrou oficialmente em conflito armado nas Malvinas. No dia 2 de maio, foi registrado o maior número de mortos em uma única operação durante a guerra, quando um submarino inglês conseguiu atingir e afundar um cruzador argentino.
No dia 21 de maio, depois de um discurso da primeira-ministra Margaret Thatcher afirmando que praticamente não restavam chances de uma resolução pacífica para o confronto, mais de mil militares britânicos desembarcaram no arquipélago ao longo da madrugada, iniciando uma série de combates armados em terra.
No dia 14 de junho, a Argentina negociou oficialmente sua rendição. A primeira-ministra Margaret Thatcher afirmou que “bandeiras brancas tremularam sobre Port Stanley” após as forças britânicas tomarem as principais defesas da cidade.
Em 2013, foi realizado um plebiscito em que os moradores das Malvinas votaram por continuar como território britânico.