De acordo com informações dos jornalistas Tyler Pager e Tariq Panja, do New York Times (NYT), entre os argumentos utilizados pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para pedir para a FIFA a suspensão do cartão vermelho para Folarin Balogun está uma fake news que circulou no Brasil em 2023 e 2024, que Raphael Claus estaria envolvido na manipulação de jogos do Brasileirão. A notícia falsa foi divulgada em uma postagem desinformativa com uma foto do árbitro paulista e com o seguinte texto:
"Bomba! O juiz Rafael Klaus é investigado pela CBF por receber manipulação em dinheiro em jogos do Palmeiras inclusive a final de 2022 e a final de 2023 . Caso ocorreu após a entrega das provas de John textor, dono do Botafogo, a polícia", dizia o post.
A publicação ainda afirma que Claus seria convocado pela polícia para uma audiência, o que não há confirmação. Como sempre ocorrem nestas publicações que querem passar informações erradas, o nome do árbitro foi grifado errado: "Rafael Klaus". Os times que estariam envolvidos na manipulação seriam Palmeiras, Grêmio, São Paulo, Fluminense e Fortaleza. O texto termina com a suposta assinatura de a "Gazeta Espotiva", sem o "r".
O fato é que em 2023, o ex-proprietário e investidor majoritário da SAF do Botafogo, John Textor, detonou Raphael Claus após o clube carioca perder a invencibilidade e ver a aproximação do Palmeiras na classificação do Brasileirão, que posteriormente conquistou o título. A reclamação do empresário estadunidense se deu pelo lance do gol da virada do Rubro-Negro, marcado por Bruno Henrique. Na origem da jogada, Tchê Tchê é empurrado por trás por Wesley, mas Claus não apita falta. A jogada segue e, após pouco mais de 30 segundos, o próprio meio-campista marcou o gol.
John Textor disse ainda que Palmeiras havia sido beneficiado. O empresário havia revelado uma suposta manipulação para favorecer o Palmeiras no Campeonato Brasileiro de 2022. Ele afirmou ainda, sem apresentar provas, que jogadores do São Paulo manipularam a partida que terminou em goleada por 5 a 0 para o clube paulista. Com a reclamação sobre Claus, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado que investigava manipulação de jogos no futebol convocou o árbitro paulista mais 11 colegas de apito. Não há informações de que ele tenha participado de uma audiência no Senado.
Na época, em depoimento a CPI, a presidente do Palmeiras, Leila Pereira, desafiou Textor a mostrar as provas da acusação que fez, o que não ocorreu. "Não posso deixar um estrangeiro vir aqui para o Brasil e, porque perdeu um título (…), desqualificar esse título muito importante do Palmeiras. Minhas observações são com relação à atitude do John Textor, não do Botafogo. (…) As atitudes dele são um grande mal para o futebol brasileiro", disse Leila.
Na mesma comissão, o presidente da Comissão de Arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) da época, Wilson Luiz Seneme, afirmou que a chance de manipulação de jogos no Brasileirão é de "zero porcento". "Com a experiência que tenho, não vi e não identifiquei nenhuma ação que possa dar a mínima referência e transformá-la em algum tipo de manipulação de resultado. Erros de arbitragem ocorrem. Mas transformar um erro de arbitragem em denúncia por manipulação de resultado, na minha visão, é uma ação irresponsável", disse Seneme.
Segundo o texto do NYT, o recomeço da mentira sobre Claus, partiu de Scott Goodwin, gestor de fundos de hedge e grande doador da Federação de Futebol dos EUA, que teria chamado a atenção de funcionários do governo Trump para acusações de que Raphael Claus "estava envolvido em manipulação de resultados no Brasil, distribuindo cartões vermelhos irregularmente. As autoridades brasileiras e a FIFA não encontraram evidências de irregularidades por parte do árbitro, mas Trump mencionou essas alegações em sua ligação com o Infantino, segundo pessoas familiarizadas com a conversa".
Ainda no periódico estadunidense, os jornalistas reafirmam que Gianni Infantino, presidente da Fifa, e Trump conversaram novamente logo após a reintegração de Balogun, e o presidente dos EUA disse a Infantino que a decisão havia sido correta. Trump também ligou para Mauricio Pochettino, o técnico da seleção estadunidense, e lhe "desejou boa sorte na partida contra a Bélgica". Pochettino disse em uma coletiva de imprensa no domingo que sua equipe “não era a vilã”.
Em um comunicado ao jornal dos EUA, a Casa Branca confirmou que Trump e Infantino conversaram sobre o cartão vermelho e acrescentou que "o resultado correto e apropriado foi alcançado", após o que descreveu “como uma revisão independente”. “A Casa Branca disse ainda que o governo forneceu informações para esse processo, mas recusou-se a fornecer detalhes adicionais sobre a conversa entre Trump e Infantino”, escreveram os jornalistas no NYT.