A vitória da Noruega sobre a Costa do Marfim, para além do futebol, abre espaço para a cultura norueguesa, em especial os vikings. Mas que povo era esse que inspirou diversos folclores e carrega a cultura do país escandinavo? O tema voltou aos holofotes em decorrência do desempenho norueguês na Copa do Mundo.
As tradicionais remadas feitas pela torcida, os capacetes inspirados nos antigos guerreiros e a associação à força física remetem aos vikings, povos originários da Escandinávia, que constituía a Dinamarca, Suécia e Noruega. Eles plantavam na primavera e saqueavam cidades no exterior durante o verão.
A Era Viking é determinada pelo período histórico entre o século VIII e o século XI d.C.. Embora os vikings sejam frequentemente retratados como um único povo ou nação, eles eram, na realidade, formados por diversos grupos e comunidades independentes, geralmente liderados por chefes escolhidos por seus membros.
Algumas dessas tribos, estabelecidas na região que hoje corresponde à Escandinávia, uniam-se ocasionalmente para organizar expedições e ataques a territórios estrangeiros. Sob seu comando, estavam homens e mulheres que, pelo menos em suas terras, viviam pacificamente como simples agricultores e pescadores.
O termo "viking" não designava um povo específico, mas sim uma atividade. Durante esse período, a maior parte da população do norte da Europa dedicava-se à pesca, à agricultura, ao comércio e ao artesanato. Participar de expedições vikings era uma prática temporária para muitos jovens, que buscavam conquistar prestígio, riqueza e reconhecimento por meio das campanhas militares.
Como destaca Brian McMahon, pesquisador da Universidade Oxford Brookes, em ‘O Viking: mito e equívocos’ "tornar-se viking era algo que um homem poderia fazer em sua juventude para acumular honra e legados de guerra". O apelido liga os jogadores atuais de futebol à imagem de guerreiros e exploradores destemidos que desbravavam os mares em seus navios. A federação norueguesa chegou a promover ensaios fotográficos oficiais com atletas como Erling Haaland e Martin Ødegaard trajados com armaduras e escudos em meio a fiordes.
A imagem popular do viking costuma estar associada ao estereótipo difundido pela cultura pop, como o personagem Thor, interpretado por Chris Hemsworth. No entanto, pesquisas científicas indicam que essa visão não corresponde totalmente à realidade histórica. Estudos de DNA realizados pela pesquisadora Lise Lock Harvig, da Universidade de Copenhague revelam que a população viking apresentava grande diversidade física, incluindo indivíduos loiros, ruivos e morenos. Os resultados também mostram que a sociedade viking não era composta exclusivamente por descendentes escandinavos, mas refletia uma significativa mistura cultural e étnica, bem como a seleção da Noruega.
A expansão dos vikings foi motivada principalmente por dois fatores: o crescimento da população na Escandinávia e a escassez de terras férteis para cultivo. Para percorrer grandes distâncias e realizar essas expedições, eles utilizavam navios leves, rápidos e resistentes, considerados uma das tecnologias navais mais avançadas da época.
Essa herança também está presente nas arquibancadas. Em partidas da seleção norueguesa, é comum ver torcedores usando capacetes inspirados nos antigos guerreiros, pinturas faciais nas cores da bandeira do país, escudos, machados cenográficos e bandeiras com embarcações vikings, conhecidas como drakkars. Em alguns momentos, grupos de fãs simulam o movimento de remar, em alusão às expedições marítimas que marcaram a Era Viking. Mais do que uma fantasia, esses elementos reforçam a identidade nacional e transformam o legado viking em uma das principais marcas visuais da torcida norueguesa nos estádios.
*Sob supervisão do jornalista Carlos Corrêa