Quantas pessoas são necessárias para organizar uma Copa do Mundo? Quanto tempo? Quantas reuniões? Quem define as sedes, as estruturas, a alocação de recursos? Quem se preocupa com todos os mínimos detalhes do maior evento esportivo do futebol feminino?
Em Porto Alegre, a principal responsável por garantir que tudo esteja perfeito quando a bola rolar é a secretária extraordinária da Copa Feminina de 2027, Débora Garcia. Apesar do cargo existir há pouco mais de um ano, Débora está envolvida nos bastidores desde 2023, antes mesmo de o Brasil ser selecionado para sediar o torneio. “Em 2023, quando eu era secretária municipal do Esporte, me ligaram, dizendo que o Brasil poderia ser país-sede da Copa do Mundo Feminina”, recorda a secretária. “Imediatamente liguei para o prefeito e enviamos um ofício à Federação.”
UMA ROTINA DE COPA
A manifestação de interesse em sediar o torneio foi entregue à CBF em abril de 2023. Em 2024, o Brasil foi escolhido para receber o Mundial, mas foi somente no ano passado que Porto Alegre foi confirmada como cidade-sede. A prefeitura reconheceu o trabalho de Débora para trazer o torneio ao município, apontando-a para assumir a Secretaria Extraordinária para a Copa do Mundo de Futebol Feminino 2027.
Desde então, a secretária vive em função do grande evento. “Na Copa de 2014, o planejamento começou em 2010. Nós teremos a Copa ano que vem e começamos em 2025. São várias reuniões todos os dias para tratar de vários setores envolvidos, além de fazer a interlocução com os governos municipal, estadual e federal.”
Entre reuniões diárias com a Fifa, realização de eventos preparatórios, negociações com interessados da iniciativa pública e privada e alinhamento de detalhes estruturais, a Débora “pessoa física” às vezes acaba ficando em segundo plano. Mas nos pequenos momentos do dia a dia ela ainda encontra um tempo para respirar com calma.
“Eu tento me organizar. No começo desta semana, fui para casa e continuei trabalhando. Até consigo desligar, mas é difícil. E eu sei que quando chegar perto vai ser ainda pior. A gente está sempre conectado, seja no WhatsApp ou no e-mail”, conta. “Mas eu consigo me desligar um pouco. Gosto de ler, assistir a séries e ouvir música. Sou bem eclética, gosto de rock, de jazz. De série, gosto de suspense. Mas agora eu estou aprendendo espanhol, adoro ficar fazendo meu Duolingo.”
UMA VIDA NO ESPORTE
Filha de educadores físicos, Débora teve o esporte presente em sua vida desde os primeiros passos. Não à toa, seguiu a mesma profissão dos pais. Hoje no Conselho Federal de Educação Física, ela conta que ainda está digerindo a magnitude de participar de uma Copa do Mundo.
“Ainda não caiu a ficha. Recebi uma visita de uma mulher que veio aqui (na secretaria) porque queria me conhecer. Disse que me seguia no Instagram e tinha se inscrito para ser voluntária. Outra vez, vieram aqui dois senhores que queriam se inscrever para o voluntariado. Então essa troca com as pessoas está sendo muito gratificante. Eu criei o ‘Diário da secretária na Copa’ em uma brincadeira, mas se eu não faço tem gente que me cobra”, relata rindo.
No entanto, reconhece que a Copa Feminina pode ser o catalisador de uma mudança na forma como as pessoas veem o esporte feminino. Parte desse trabalho está em seminários e workshops para que professores de educação física de Porto Alegre trabalhem o futebol e o futsal nas escolas. A implementação de núcleos para o desenvolvimento do futebol feminino na capital gaúcha também está na pauta da secretaria. “Quando a gente fala em impacto, o que a gente quer é empoderar as meninas para que elas joguem. Esse é o legado da Copa.”
O primeiro Centro de Desenvolvimento do Futebol Feminino saiu do papel em 2024, com recursos do Governo Federal. Segundo a secretária, todas as cidades-sede tinham acesso aos fundos para executar o projeto, mas Porto Alegre foi a única a tirar a ideia do papel. O próximo objetivo é retomar o projeto, desta vez com cinco núcleos espalhados pelo município.
‘CLUBE DO BOLINHA’
A Copa de 2027 pode até ser de futebol feminino, mas a vasta maioria por trás das decisões ainda é composta por homens. No lançamento da marca, em janeiro deste ano, a maioria das pessoas que passaram pelo palco do evento eram homens, com Formiga e Cristiane entre as raras exceções. Segundo a secretária, nas mesas de reunião o cenário é parecido. “Essa é uma virada de chave que ainda precisa acontecer: colocar as mulheres como protagonistas. Se você for ver quem realmente está à frente da Copa Feminina, a maioria é de homens.”
Recentemente, uma foto tirada em uma reunião do ministro do Esporte, Paulo Henrique Cordeiro, com representantes dos clubes das Séries A e B repercutiu nas redes. Embora a maior parte da conversa fosse sobre o futebol masculino, o fortalecimento das modalidades femininas também foi pauta do encontro, que não contou com a presença de nenhuma mulher.
AINDA UM ESPAÇO OCUPADO POR HOMENS
“O esporte ainda é um espaço muito masculino, muito machista”, desabafa Débora. “No Conselho Federal de Educação Física, por exemplo, são 27 conselheiros, um para cada estado, mas apenas sete são mulheres. Lembro que quando estava na secretaria do Esporte eu ouvia muito: ‘O que uma mulher quer com esporte? Não deve saber nada de futebol’.”
Como secretária da Copa Feminina, no entanto, afirmou ter sido bem recebida por todos os executivos da Fifa, do Governo Federal e da CBF com quem tratou sobre o Mundial até o momento. Débora foi a Miami acompanhar as operações da Fifa Fanfest em um dia de jogo e contou com todo o apoio da entidade para entender o funcionamento dos bastidores do torneio.
INSISTÊNCIA POR MAIS DECISÕES
“Eu não queria entrar na Fanfest quando estava tudo bonito e funcionando”, brinca. “Gosto de entender como as coisas funcionam. Eles me deixaram ver como eram as coisas antes do evento abrir, quando só tinha staff. Foi uma experiência muito importante para entender como fazer as coisas aqui.”
A secretária também “batia ponto no escritório da Fifa”, no Rio de Janeiro, para tentar trazer uma semifinal a Porto Alegre, o que acabou não se concretizando. “Se a gente não ia ter a semifinal, não ia ser por falta de tentativa minha. Sempre que eu ia ao Rio resolver alguma questão da Copa ou do Conselho de Educação Física eu aproveitava para passar lá, porque quem não é visto não é lembrado”, conta. “Eu chegava lá, e o Thiago (Januzzi, diretor executivo de operações da Copa Feminina) já sabia que eu queria a minha semifinal.”
Porto Alegre receberá sete partidas do Mundial, sendo seis da fase de grupos e uma das oitavas de final, com jogos entre 26 de junho e 12 de julho. “Para a secretaria, a Copa acaba quando soar o último apito do jogo das oitavas. Claro, ainda vamos estar em clima de Copa e com toda a prestação de contas para fazer. Mas espero conseguir ir à final, já que na abertura vamos estar focados nos nossos preparativos.”