Esportes

Dos antigos campinhos dos bairros às escolinhas de futebol

Processo de formação de jogadores passa por mudanças

Dos antigos campinhos dos bairros às escolinhas de futebol
Dos antigos campinhos dos bairros às escolinhas de futebol Foto : Ricardo Giusti
Ao comparecer a uma partida da Copa Ipiranga Sub-20, que ocorreu no campo do Sesc, em Porto Alegre, até o dia 18 de dezembro, a sensação é a de presenciar um esporte paralelo ao futebol profissional, e não apenas anterior a ele. A competição reuniu 20 equipes, 15 brasileiras e cinco estrangeiras – Penãrol e Nacional, do Uruguai; Atlético Rafaela, da Argentina; Universidad, do Chile; e Toluca, do México. No gramado, os jogadores não são mais apenas meninos com um sonho, mas atletas com contrato, empresário, salário e patrocinador. E, na arquibancada, são assistidos por agentes e observadores críticos, que anotam e analisam cada jogada e movimentam todo um mercado de jovens promessas.

É em meio a este público atento, formado por profissionais locais e vindos de fora do Brasil, que, durante a partida entre Palmeiras e Universidad, encontramos o coordenador de Captação do Internacional, Felipe Gil. Formado em Educação Física, ele teve uma passagem de três anos pelo Figueirense e, há dois anos e meio, exerce esta função no Colorado, na qual coordena uma equipe que conta com dois profissionais em São Paulo, um no Rio de Janeiro, um em Goiás e outro para Paraná e Santa Catarina. Neste novo modelo de formação de jogadores, Gil é um dos principais responsáveis pela chegada de um menino a um grande clube e percebe que o processo mudou muito ao longo dos anos. “Está cada vez mais profissional até o mercado dos menores”, comenta.

Lembra de um tempo, muito antes de vir a trabalhar com isso, em que bastava ir a algum espaço público para ver os grandes talentos. Mas não é mais assim. Ele acredita que esta mudança se deva pelo futebol ser um reflexo da sociedade. Aos 34 anos, recorda também que, quando era criança, jogar bola na rua até anoitecer era algo corriqueiro, experiência que hoje, devido à violência, dificilmente seria permitida pelos pais. Por isso, quem tem interesse no esporte acaba procurando as escolinhas.

Há, ainda, uma questão legal que contribuiu para que este cenário mudasse. Os antigos olheiros que ofereciam um talento descoberto na rua para um clube diminuíram, pois não é mais permitido nenhum ganho financeiro em caso de assinatura de um contrato com um jovem. Isto agora só ocorre em transferências entre clubes. Por isso, além dos profissionais de captação fora do Estado, Gil explica que o Inter tem três clubes de formação no Interior como parceiros.

No Grêmio, o setor de formação conta atualmente com cerca de 1,2 mil meninos dos 5 aos 15 anos. Eles são divididos entre a escolinha, a seleção da escola e a área de formação, que vai dos 9 aos 13 anos e leva às categorias de base do clube. Dentro do centro de treinamento, eles têm toda a estrutura física, técnica e profissional à disposição. No caso dos guris que estão no grupo prestes a integrar a base, há atletas vindos de diversos estados e alguns já têm até contrato com marcas fornecedoras de materiais esportivos.

Mesmo os mais novos recebem uma ajuda de custo, com um valor mínimo de R$ 50,00. Segundo o educador físico e coordenador técnico William Mikhailenko, a ideia é que estes recursos ajudem na criação de uma educação financeira nestes meninos. Se um atleta de 11 anos, por exemplo, que ganha R$ 100,00 quer uma chuteira que custa R$ 500,00, ele sabe que vai ter que treinar por cinco meses para comprá-la. Desta forma, o clube entende que isso ajuda, quando o jogador se tornar profissional, a tomar decisões conscientes com o seu dinheiro.

Desde 2006 à frente da formação tricolor, Mikhailenko diz que vê uma forte mudança nas origens dos meninos que chegam ao clube, hoje vindos mais de outras escolas de futebol e até de futsal, e que isso provoca mudanças na própria maneira de jogar. “A gente vê a diminuição de muitos campos e com isso diminui o repertório, o número de atividades que o menino tinha fora da escola de futebol”, avalia. E complementa ao dizer que, devido a isso, muitas vezes percebe-se na criança um repertório motor e cognitivo para a prática do esporte mais baixo do que se via anos antes.

O coordenador técnico atribui isso, também, a mudanças socioeconômicas, culturais e até tecnológicas. O contato virtual, por WhatsApp ou Facebook, diminuiu o pessoal e, com ele, muitas brincadeiras da infância que fazem parte da formação do repertório motor. Por isso, hoje, a própria escola precisa recriar atividades lúdicas para conseguir inserir o treinamento de futebol. Com os pequenos de 5 anos, por exemplo, os profissionais da formação dão foco para a psicomotricidade e coordenação para conseguir fazer uma iniciação no esporte. Este trabalho vai até os 9 anos, quando se tem um ponto de corte e se consegue perceber os talentos já sendo formados.

Mesmo assim o lúdico não é deixado de lado para que não se perca o prazer de jogar. Começa-se, então, a recriar situações antes vistas na rua, como dois contra dois, três contra três, com goleiras de variados tamanhos. “E, principalmente, todos os nossos treinamentos são muito focados na tomada de decisão, na questão cognitiva, que a gente entende que é uma exigência do futebol moderno hoje”, completa Mikhailenko.

Esse poder de decisão, segundo o supervisor Cristóvão Caetano, hoje se sobressai ao talento bruto. O também coordenador de formação Daniel Otto comenta que o processo de seleção mudou muito e que hoje o clube costuma buscar atletas em escolas e em projetos sociais específicos em cada localidade. Além disso, os dois supervisores observam que, ano após ano, o aproveitamento de meninos vindos de regiões periféricas e menos favorecidos economicamente tem diminuído. Em uma conta rápida, percebem que, entre todas categorias que antecedem a base, aproximadamente 4% são de famílias abaixo da classe média.

Como os profissionais do rival, o coordenador de captação do lnter vê uma mudança drástica no cenário urbano e social, que é a principal responsável pela forma de acesso de jovens às grandes equipes. “O que mudou basicamente é a questão de os meninos anteriormente ficarem nas ruas jogando bola e normalmente os olheiros passavam nos bairros e traziam para os clubes. Hoje, esses meninos estão cada vez mais indo para as escolinhas, para os projetos sociais”, diz. Mas, ainda segundo ele, dentro destas iniciativas existem pessoas capacitadas com quem o Inter e os outros times costumam ter contato.