Protetores ajustados, florete na mão, pés em “L”, com o da frente apontando para o adversário e o de trás em um ângulo de 90°. Tudo isso passa como um “checklist” na cabeça de uma criança quando ela está se preparando para um novo jogo na pista elétrica. A voz do professor, que costuma cuidar de cada detalhe, se torna um guia para os pequenos se aventurarem no universo das espadas.
Em um esporte de combate em que não é permitido o contato corporal, o autocontrole vira um trunfo de pontuação alta. Esse foi justamente um dos motivos que fizeram Humberto Vaz e sua esposa matricularem o filho primogênito Antônio, de 9 anos, nas aulas de esgrima do Grêmio Náutico União (GNU).
Durante a semana, pelas manhãs, antes de ir para a escola o menino treina na sede Moinhos de Vento. “A gente iniciou ele na esgrima pelos benefícios da coordenação motora, de disciplina, e estamos tendo bons resultados com ele tanto fora como dentro do clube”, explica. Para o pai, o intuito é proporcionar um lazer na vida de Antônio e não forçá-lo a ser um atleta profissional. “No dia a dia e dentro das competições, a gente tem um cuidado para motivar ele mesmo na derrota. Não ficamos fomentando a questão da vitória porque é na verdade uma diversão para a criança, mas que no fundo vai enchendo ele de disciplina e de habilidade”, conta.
O esportista mirim Antônio Vaz pratica esgrima no GNU desde abril deste ano. Um jogador calmo e que gosta de usar o barulho do seu pé na pista como estratégia para avançar sobre o seu adversário. Mesmo tentando manter a tranquilidade, o menino percebe os desafios do esporte. “Eu acho mais difícil quando estou jogando com meus colegas que são da categoria mais velha. Uso todas as técnicas que os professores me dão, como o ‘afundo’. Assim, não dou tanta bola para o nervosismo”, diz.
Para Emerson Corrêa, técnico que atua há 31 anos na modalidade, a esgrima é algo que faz parte da infância porque remete aos filmes de heróis, guerreiros, mas que na prática exige muita disciplina. “É um esporte que está no imaginário da criança. Ao mesmo tempo é muito técnico e tem questões táticas muito importantes. Então, talvez o maior desafio seja a criança tentar entender o que está fazendo”, explica o professor.
Esporte e confiança
Uma das vantagens de se testar quando ainda é criança, independentemente dos resultados, é saber lidar com pressões. Arthur Dreyer Ramos, 11, pratica esgrima já há cinco anos. O menino soma mais de dez competições na carreira e explica que o esporte trouxe benefícios também fora das pistas elétricas. "Eu vejo que outras pessoas que não fazem esportes ficam mais nervosas quando tem um público observando e, como eu já fiz vários campeonatos, eu consigo ter um resultado melhor”, explica.
Outra vantagem é somar conquistas pessoais e passar a acreditar mais em si. Quando Giovanna Souto, 10, começou a conhecer os floretes, admitiu que ficava apreensiva porque todos os colegas eram meninos e estavam mais avançados. Porém, encarou o desafio. “Às vezes (jogar com os meninos) até nos ajuda mais, porque a gente acaba aprendendo com eles outras habilidades”, destaca. A jovem também deixou uma dica para quem deseja praticar a atividade.
“A gente tem que confiar na máscara, ela vai nos proteger. Eu já tive vergonha de usar o toque-toque e eu tinha vergonha de botar ele no peito, mas eu acho que a gente não deve ter vergonha das coisas, porque todo mundo que joga usa e isso faz parte do esporte”, explica.
O cuidado com o psicológico dos alunos é uma das maiores preocupações dos professores e técnicos do GNU. “A nossa intenção é que eles conheçam outros lugares, outras crianças e para que tenham a oportunidade de se botar à prova”, esclarece Corrêa. Para a equipe técnica, os campeonatos, ainda que não sejam o objetivo principal, são motivadores.
*Com supervisão de Carlos Corrêa