Não era simplesmente um setor do Beira-Rio, era uma experiência. Por longos 35 anos, a Coreia foi o local mais democrático do estádio e palco das manifestações mais genuínas por parte dos torcedores. Cada jogador que já pisou no gramado principal, cada dirigente que já despachou em alguma sala do Gigante sabe que o torcedor colorado que assistia às partidas no espaço, de pé e mais perto do que qualquer outro, era diferente. Não por acaso, mesmo 15 anos depois do seu fechamento, a Coreia ainda é vista com carinho por muitos que já passaram pelo clube.
Os documentos relativos à inauguração do estádio indicam que quando a capacidade do Beira-Rio era de 110 mil torcedores, a Coreia podia receber um total de 18 mil colorados, abrigados – todos de pé – ao longo de nove degraus de oito por 46 centímetros cada. De início, o setor era chamado de “Subgerais” ou, a versão mais conhecida, “Populares”.
Apenas um fosso separava o setor do gramado | Foto: JUAN CARLOS GOMES/CP MEMÓRIA
No entanto, o nome acabou sendo modificado pelo torcedor, com versões distintas entre si. Uma utilizava as confusões que ocorriam no setor para comparar com o permanente conflito entre as Coreias do Norte e do Sul. Outra, praticamente oposta, lembrava que o setor era tão pacífico que não havia uma divisão entre uma torcida e outra mesmo nos clássicos Gre-Nal, em referência neste caso a uma zona desmilitarizada entre as duas Coreias.
Seja qual for a origem do nome, para quem jogou no Beira-Rio, a relação com o setor é especial. “É muito diferente do que é hoje. A gente tinha um relacionamento muito bom, uma identidade com aquele pessoal. Havia todo um carinho porque a gente sabia da dificuldade daquele torcedor estar ali”, lembra o ex-lateral e hoje técnico Luiz Carlos Winck, referindo-se ao perfil mais humilde do torcedor, para o qual muitas vezes, mesmo o ingresso no setor sendo mais barato, ainda assim era um sacrifício ter aquele dinheiro. “Aquele era um torcedor mais pobre, que não xingava o clube. Reclamava de um ou outro jogador, mas empurrava o time até o final sempre. É um diferencial que hoje em dia não existe mais”, corrobora o ex-vice de futebol Luiz Fernando Záchia.
Setor podia receber até 18 mil torcedores | Foto: OLIVIO LAMAS/CPMEMORIA
Para o ex-goleiro Taffarel, ídolo colorado na segunda metade dos anos 1980, a proximidade do setor com o campo trazia junto outro aspecto. Ao invés do grito uníssono da torcida que vinha das arquibancadas inferior ou superior, no caso da Coreia, era possível identificar com exatidão quem dizia o que. “Dava para ouvir direitinho o que o torcedor falava”, diverte-se o hoje preparador de goleiros da Seleção Brasileira.
O fechamento da Coreia aconteceu em 2004, por ordem do Ministério Público do Estado, baseado no Estatuto do Torcedor, que entrou em vigor no ano anterior e obrigava que os estádios oferecessem setores apenas com lugares sentados.