Esportes

Especial: o grande salto de Débora

Amazona supera obstáculos da vida e sonha com The Best Jump

Problema de concentração exige mais esforço de Débora na hora de decorar a ordem de salto dos obstáculos
Problema de concentração exige mais esforço de Débora na hora de decorar a ordem de salto dos obstáculos Foto : Samuel Maciel / CP
Por Carlos Corrêa

Serrano nunca foi um animal selvagem, muito longe disso. Mas assim como alguns roteiros imprevisíveis, talvez o comportamento um pouco fora do comum naquele dia fosse preciso para que tudo se encaixasse mais adiante. Era 1999 e uma criança tímida olhava, encantada, o cavalo. No sítio do tio, em Encruzilhada do Sul, pediu para montá-lo. Não era a primeira vez e, portanto, estava acostumada. Só que desta vez foi surpreendida por um arroubo da natureza. Serrano empinou e ela caiu.

A queda de 15 anos atrás serve de certa forma como uma metáfora da própria vida da menina. Débora Saut, hoje aos 27, nasceu com microcefalia, uma condição em que o tamanho da cabeça da criança é menor do que a média, o que pode ocasionar comprometimento intelectual. Só que da mesma forma como se levantou daquele tombo sem maiores consequências, ela superou todos os obstáculos que apareceram pelo caminho e hoje, contra todas as apostas, participa de provas de equitação. Tem, tanto como sonho quanto como perspectiva, disputar no ano que vem a categoria amadora do The Best Jump, o evento mais importante no Estado na modalidade.

O tombo de Serrano não causou nenhuma lesão, mas levou tempo para ser digerido. “Fiquei um tempo sem querer montar”, revela Débora. Foram quase dez anos longe das selas e dos estribos. Até que a família comprou uma fazenda em Cambará do Sul e ela foi, junto com o pai, Álvaro, procurar alguns animais. Quase de imediato, a paixão pelos cavalos voltou de forma arrebatadora: “Eu sempre quis aprender a perder o medo e saltar. Era o meu sonho”. A caçula dos Saut foi incentivada no novo esporte, mas o caminho ainda era longo. Carmen, a mãe, lembra que nas primeiras aulas, a filha atravessava a pista e não fazia o circuito determinado. “Ficava pensando se ela iria conseguir. Tinha receio de que se frustrasse”, lembra.

A preocupação materna era justificada. No caso de Débora, a microcefalia fornece poucas pistas visíveis do ponto de vista físico. A beleza da garota, no entanto, não esconde algumas dificuldades permanentes até hoje, entre as quais a de ter uma capacidade de concentração muito pequena. Na infância, tudo parecia ainda mais complicado, a começar pelo fato de lidar com a cruel honestidade das outras crianças. Débora sempre frequentou o colégio normalmente, mas era avaliada de forma distinta, dado o seu caso. Até o dia em que os demais alunos reclamaram de supostos privilégios a ela, como ter a chance de terminar uma prova em casa. A situação dela então foi trazida à tona. “Eu sempre tive consciência de que era diferente. Sempre tentava o meu máximo, mas me sentia mal. Eu sempre era a última a entregar os trabalhos. Não a primeira, a segunda, a terceira, era sempre a última. Até então ninguém sabia de nada, mas estava ali na cara o tempo todo. Mas esse dia foi um alívio, porque antes eu sempre ficava com medo que  um dia fossem descobrir. Agora não tinha mais nada para esconder”, relembra, sem conter o choro.

Ela então para, sorri ainda com os olhos cheios d´água, limpa uma lágrima e emenda: “Eu hoje vejo que tenho condições de ser uma pessoa normal. Superei tudo. Sou ciente de que ainda tenho problemas de atenção, mas estou aqui, né”? E está mesmo. Além de treinar três vezes por semana, a amazona ainda complementa os treinamentos com a parte física em uma academia, tem aulas de violão e trabalha, auxiliando instrutores de equoterapia ou mesmo dando aulas de equitação para as estagiárias.

O problema de concentração ganha ares maiores na medida em que Débora pratica um esporte no qual é preciso decorar a ordem de salto dos obstáculos em questão de minutos. Logo em uma das primeiras competições, no final de 2008, ainda com pouca instrução, Débora cumpriu o objetivo inicial e zerou o circuito sem nenhuma falta. Para sua surpresa, no entanto, não ouviu a tradicional música que toca quando um cavaleiro ou amazona encerra a prova sem nenhuma falta. Cabisbaixa, desceu do cavalo e sentou-se embaixo de uma árvore, sem esconder a decepção. A poucos metros dali, um instrutor comentava com seus alunos: “Viram o que ela fez de errado? Ela terminou a prova muito rápido. Não tinha controle nem do cavalo, nem do traçado em algumas curvas”. Álvaro estava logo atrás dele. Ao invés de tirar satisfações com o rapaz, o pai da garota tomou outra decisão. Poucos dias depois, levou a filha no Centro Hípico Recanto do Pinheiro, em que Régis Pujol, o instrutor das críticas dava aula. Começava ali uma parceria que ia mudar a vida de Débora. “Ele chegou um dia e me contou todo o histórico. Ela parecia tímida, chegou como se não fosse conseguir. Aí eu disse pra ela ‘nós vamos conseguir’ e logo vi o brilho nos olhos da Débora. Hoje, ela tem milhares de amigos que nem sabem a história de vida que ela tem. É uma pessoa que evoluiu muito graças ao esporte”, conta, orgulhoso, Pujol, que treinou a garota por três anos.

O crescimento da amazona passou a surpreender a todos. Os troféus começaram a aparecer na mesma medida em que a altura dos obstáculos e a posição no ranking aberto de escolas hípicas do Estado foram subindo. Paralelamente, o relacionamento com os cavalos foi mostrando outra evolução, essa muito mais importante. Aos poucos, a timidez e o nervosismo foram dando lugar à confiança e à maturidade. “O cavalo foi um divisor de águas na vida da Débora. Quando você domina um animal de 400 kg, você está pronto para tomar as rédeas da própria vida”, conta a mestre e doutoranda em Psicologia Renata Zamo, que acompanha a garota desde 2011 e responsável por um método que facilita a memorização do circuito pela menina: desenhar. “Eu fico olhando a posição dos obstáculos e contando nos dedos mesmo, depois pego uma folha de papel e desenho. Se não dá tempo, desenho na areia, mas sempre dou um jeito de desenhar”, revela a amazona.

O projeto de disputar o The Best Jump segue firme e forte. Na verdade, a decisão do instrutor Cláudio Goggia, com quem treina há dois anos, foi de não acelerar o processo e definir a participação em 2015 para melhorar o entrosamento com o cavalo Cyrano e Débora ter tempo de melhorar em alguns aspectos técnicos. “Estamos preparando ela para competir de igual para igual. Ela tem cavalo para isso, tem condições, mas como estamos tratando de dois seres vivos, a gente não pode permitir que qualquer erro aconteça, ainda mais em uma prova tão importante como o The Best Jump. Com calma e tranquilidade vamos alcançar o sucesso com ela”, explica Goggia. Ela conta desde já os dias para montar em Cyrano e dividir a pista com os melhores cavaleiros do país: “O The Best Jump é um sonho para mim. É uma prova que atrai pessoas do mundo inteiro, pessoas importantes, sabe? É o top top. Ainda quero estar lá junto com elas”.

No ano que vem, Débora, no ano que vem.



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