Jorge Fossati abriu o jogo. Durante 90 minutos, ele conversou com a reportagem do Correio do Povo em sua residência, em um dos bairros mais elegantes de Porto Alegre, sem escolher tema. Falou sobre tudo. Foi uma entrevista franca, aberta, sem os formalismos de uma coletiva. Acompanhado de perto por um maço de cigarros, cuia de chimarrão e garrafa térmica, o treinador admitiu momentos de intranquilidade. Revelou tristeza e diz que pode deixar o cargo durante o recesso da Copa. "Temos de aproveitar essa pausa para pensar. Tanto eu como a direção temos de analisar tudo o que aconteceu", disse. A seguir, os principais trechos da entrevista, concedida instantes após Fossati assistir o quarto jogo seguido do Estudiantes.
Libertadores
"O time está em um bom nível, para o meu gosto. Mas ainda não no nível que é possível estar. A razão dos problemas que enfrentamos é a quantidade exagerada de jogos que não permitem mais horas de treino. Falta a automatização das ações para que as individualidades cresçam. E isso a gente só vai ter com tempo de treino."
Estudiantes
"É o melhor ou está entre as três ou quatro melhores equipes da América. Não sou eu quem digo isso. É a imprensa. Mas trata-se de um time parecido com o Inter. Nenhum dos dois dá show de bola, mas são times sérios, sólidos, organizados, que jogam com humildade e têm convicção do que estão fazendo em campo. Eles não ficam vermelhos se tiverem de mandar a bola para fora do estádio e não dão espetáculo como o Santos. O Inter vai no mesmo caminho."
Relações com o grupo
"O tempo vai deixando essa questão melhor, pois os jogadores vão me conhecendo e eu vou conhecendo melhor os jogadores. As palavras que se usa para falar com um, de repente não são apropriadas para falar com outro. Mas o importante é deixar bastante claro que eu não formo o time titular com base nas afinidades que temos."
Estrangeiros X Brasileiros
"Não há divisões no vestiário. O que há são afinidades normais entre eles, que nada têm a ver com o lugar onde nasceram. O Kleber e o Andrezinho são quase gêmeos (risos). Onde um está, o outro também está. Mas isso não quer dizer que não se dão bem com o D''Alessandro ou o Bolívar, por exemplo."
Objetivos
"Cada um de nós tem objetivos individuais que quase sempre são diferentes. Afinal, eles (os jogadores) estão em diferentes etapas da vida. Não podemos pensar que o Walter busca o mesmo que o Kleber, por exemplo. São indivíduos distintos. Mas cada um desses objetivos pessoais está subordinado ao objetivo coletivo. Se eles priorizassem o individual, ficaria impossível. A gente não chegaria a lugar algum."
Altos salários
"Acima do dinheiro que cada jogador ganha, está a ambição pelo êxito. O dinheiro é a consequência do êxito profissional. E isso depende do grupo. Se eu ver alguém desmotivado, vou mandar ir para casa: ''Não estraga tudo o que você conseguiu. Deixe uma imagem boa e vai para casa''. Mas não vejo nenhum jogador do Inter nessa situação. Não há ninguém acomodado. Pelo contrário, os mais experientes puxam o grupo para cima e dão o exemplo."
Críticas
"Não vou fazer demagogia. Já vivi pressão como essa aqui no Inter, afinal treinei a seleção do Uruguai. O que eu ainda não tinha percebido nos lugares nos quais trabalhei é a cultura de ler negativamente as coisas. E tudo tem mais de uma leitura. Nas coletivas de imprensa, pelo menos 90% das perguntas são pelo lado negativo. Cheguei a pensar que tinham retirado a palavra ''parabéns'' do dicionário de português."
Futuro
"Não posso dizer que estou feliz, pois estaria mentindo. Vim para o Brasil como um dos desafios mais importantes da minha carreira. Vim e estou aqui para vencer e para mostrar meu trabalho. Poucos ou nenhum estrangeiro conseguiu isso aqui. Mas a diretoria tem autocrítica, assim como eu. Temos de aproveitar essa pausa para pensar. Tanto eu como a direção temos de analisar tudo o que aconteceu até aqui."
Fossati: Não posso dizer que estou feliz
Técnico colorado diz que pode deixar o cargo durante recesso da Copa