Quando criança, no recreio da escola, ou mais tarde como adulto em uma mesa de bar, sempre foi comum a brincadeira surgir entre amigos. Isso porque o ritual para ela acontecer é bastante simples: dois braços, uma mesa e uma vitória é decretada em segundos. Assim, durante muito tempo, a queda de braço - ou luta de braço - foi vista apenas como um passatempo e nem de longe levada a sério. No entanto, atualmente, o esporte vem se estruturando no Brasil como uma modalidade de alto rendimento e atraindo diversos amantes.
Um deles é gaúcho e vive na Região Metropolitana de Porto Alegre, mais especificamente em Gravataí. Quando começou a praticar atividade física em uma academia perto de casa há três anos, o jovem Luciano Baron, hoje com 17 anos, não podia imaginar que encontraria o que chama hoje de esporte do coração. Mas foi justamente em um dos seus treinos normais do dia a dia, que seu instrutor observou o possível potencial de Luciano para a queda de braço.
"Ele viu que eu tinha uma força boa na academia para a minha idade e me convidou para ir treinar junto com ele luta de braço", conta Luciano. Desde então não parou mais. Sempre acompanhado pelo pai, Marcos Baron, logo no ano que começou, em 2022, com apenas 14 anos, disputou o Campeonato Gaúcho e levou para a casa o que seria o primeiro dos nove títulos de Luciano na competição regional.
No entanto, apesar do bom resultado, o jovem só passou a levar a sério a prática depois que disputou o Campeonato Brasileiro da modalidade em 2023, disputa em que foi campeão três vezes.
"Lá eu encontrei diversos atletas, com diferentes níveis, pude trocar experiência com todos eles, porque na verdade a queda de braço, embora seja um esporte de força bruta, é um esporte muito família, todo mundo se apoia, se ajuda, e isso é muito legal", destaca Luciano.
Como funcionam as disputas
Por ser uma prática milenar, a queda de braço ganhou diferentes regras que são aplicadas nas competições. Entre elas está, como é comum no meio esportivo, a divisão por idade, categorias de peso, sexo, além de claro, a escolha da mão usada, direita, esquerda ou até mesmo as duas (em momentos diferentes, é claro). Além das mais comuns, a modalidade também soma pequenas características nas disputas, como a altura das mesas, que têm um tamanho definido, e a exigência de que a mão livre esteja sempre em contato com um pino anexado à mesa.
Os detalhes da posição dos braços também são importantes. No começo do combate cotovelos, antebraços, punhos e mãos precisam estar bem alinhados, em um momento já considerado importante para a luta. Isso porque, a adaptação da pegada dos dedos é estratégico para obter confiança logo no início do embate.
"São vários detalhes. Existem também as faltas. Por exemplo, eu não posso projetar meu ombro para baixo do nível da mesa quando meu adversário estiver no ataque porque para ele me ganhar vai ter que quebrar o meu braço, e aí é falta. Se eu forçar o braço dele para fora da mesa durante a luta, também é considerado falta. Então, tudo o que implica levantar vantagem no duelo pode ser considerado falta", explica Luciano. "Depois de duas eu sou automaticamente eliminado", completa.
Ainda, caso as mãos se soltem mais de uma vez durante o duelo, elas são amarradas por uma espécie de fivela para dar mais segurança aos atletas.
Força é importante, mas sempre aliada a técnica
Embora o objetivo principal da disputa seja óbvio, ou seja, forçar o braço do oponente até bater na mesa, ela não é o que rege quem irá vencer o duelo. Luciano conta que sua preparação também tem uma parte totalmente voltada para treinos de velocidade e reflexo. A explicação é que, segundo ele, o atleta que domina mais a parte técnica da queda de braço geralmente tem mais chance de vencer o duelo. Atualmente na categoria +90kg, Luciano já oscilou entre outras, justamente para se adaptar melhor às competições.
"Muitas lutas eu ganhei principalmente por conta da minha velocidade. Porque se meu adversário é maior e eu colocar só força, provavelmente ele vai ganhar de mim por ter o braço muito grande, então a técnica ajuda com tudo, inclusive a eu sentir menos dores no meu braço depois de duelar", destaca o atleta.
Luciano confessa que quando começou não dava importância ao reforço muscular na academia e o foco na técnica. No entanto, admite que a mudança nos treinos, aliada a um trabalho de fisioterapia, foi essencial para a prevenção de lesões. Apesar do alto rendimento e da participação em diversas competições, Luciano nunca sofreu nenhuma lesão grave.
"Eu convivo com dores no cotovelo, que são normais por conta do apoio na mesa, e depois de alguma competição eu fico com cansaço no braço, que também é normal. Mas de um ano e meio para cá diminuiu muito por conta desse trabalho mais técnico, então ajuda demais", afirma.
Sonho de disputar o Mundial
Os bons resultados no cenário nacional impulsionaram Luciano a estabelecer uma meta mais ambiciosa: disputar o Campeonato Mundial de Queda de Braço. Consagrado como o atleta com o braço direito mais forte no Estado, Luciano teve sua estreia em uma competição internacional neste ano. No último mês, o gaúcho viajou para a Argentina para disputar o Pan-Americano de Luta de Braço e trouxe para casa mais duas medalhas para a coleção, uma de prata e outra de bronze.
No entanto, o principal empecilho para a realização do sonho é a questão financeira. Até o momento, Luciano não conta com nenhum patrocínio, o que dificulta as viagens para as competições. Marcos Baron, pai do atleta, que o acompanha em todas as disputas, explica que a participação no Pan-Americano só foi possível por conta de uma ajuda de custo da academia que Luciano treina.
"Eu falei para eles que estávamos passando por uma fase delicada, porque já tínhamos custeado uma viagem para São Paulo, e eles prontamente nos ajudaram. Foi a primeira vez que nós tivemos um patrocínio mais expressivo e faz total diferença", conta Marcos. "É complicado, as competições acontecem muito perto, e aí bancar algo no exterior acaba ficando inviável", completa.
Por este motivo, o sonho de representar o Brasil no Mundial deste ano, na Bulgária, terá que ser adiado. A ideia da família é buscar um apoio financeiro para conseguir disputar o torneio na Argentina no ano que vem porque, segundo Luciano, a Confederação Brasileira de Luta de Braço (CBLH) ainda não arca com os custos dos atletas.
O gaúcho, que atualmente trabalha como barbeiro, projeta um dia viver totalmente do esporte, além de ser reconhecido na queda de braço mundial, como tantos outros atletas que teve a oportunidade de conhecer.
"Atualmente o leste europeu é a maior potência na queda de braço, por isso batemos tanto na tecla de ter mais incentivo nesse esporte aqui no Brasil. São poucos atletas brasileiros que conseguem representar o país lá fora, principalmente por conta dos custos, e por isso é importante um apoio do governo, um incentivo. Então, eu vou seguir treinando para quem sabe um dia conseguir estar entre os maiores do mundo", finaliza Luciano.