Interlagos não é Mônaco, mas o palco do GP do Brasil inspira quase tanta tradição quanto o famoso principado da Fórmula 1. Depois de muitas especulações sobre a saída da categoria, uma reforma de R$ 160 milhões e um contrato até 2020 procuram manter o Mundial no autódromo de São Paulo. Este domingo terá a 45ª edição de uma prova marcada no automobilismo como rápida, histórica e imprevisível. E também por decisões de título. Caso Nico Rosberg vença Lewis Hamilton, será o sétimo piloto a se tornar campeão no país.
A fama de imprevisível não é à toa. Das 34 corridas já realizadas em Interlagos, apenas em 12 oportunidades o pole-position foi o vencedor. O percentual, de cerca de 30%, é um dos menores que já receberam a Fórmula 1 na história. Além disso, a chuva sempre é um fator para embaralhar o grid. Às vésperas de fazer sua última corrida no traçado, o brasileiro Felipe Massa saboreia cada metro da sua “casa” no esporte a motor. “É o lugar onde cresci, onde lembro de ver das arquibancadas Ayrton Senna e Nelson Piquet, sonhando em estar lá com eles”, destacou o piloto em entrevista coletiva. E “Massinha” chegou lá, vencendo duas vezes o GP do Brasil, igualando os dois tricampeões.
Por sinal, quem manda em Interlagos são os brasileiros. Apesar das recentes “vacas magras”, os pilotos da casa ainda são os maiores vencedores por essas bandas. São nove vitórias no total, contra oito de Alemanha e França. Apesar da vitória de um argentino na corrida inaugural de 1972 (Carlos Reutemann), botamos ordem na casa com três seguidas de Emerson Fittipaldi (1973 e 1974) e José Carlos Pace (1975).
Depois, o GP mudou para o Rio de Janeiro e Nelson Piquet venceu duas em Jacarepaguá (1983 e 1986), com direito a dobradinha ao lado de Ayrton Senna na última delas. Senna demorou para “desencantar” na frente da torcida, mas no retorno da prova a São Paulo venceu em 1991 e 1993. Após a apoteose com invasão da torcida, que carregou Senna nos braços, foram 13 anos até Felipe Massa ganhar em 2006 e repetir a dose em 2008, quando quase faturou o título. Na ocasião, Lewis Hamilton passou o alemão Timo Glock na última curva, da última volta, e garantiu os pontos que precisava para faturar o caneco. Campeão por um minuto, Massa absorveu a situação pelo lado positivo. “O jeito que eu perdi foi o melhor possível, pois eu venci a corrida. Muitas coisas aconteceram antes na Ferrari. Quebra de motor vencendo na Hungria, a mangueira de combustível em Cingapura...”
Oito anos depois, Hamilton volta a decidir um campeonato no GP do Brasil, mas dessa vez a vantagem é toda de Nico Rosberg. Uma vitória do alemão encerrará a temporada e o britânico precisa chegar à frente do companheiro de Mercedes para levar a decisão para a última corrida, em Abu Dhabi. Para complicar, o tricampeão inglês nunca venceu em Interlagos. “Eu não sei bem como nunca venci aqui, eu tento todos os anos. Esse ano vou tentar mais forte ainda”, relatou Hamilton. Rosberg, que venceu as últimas duas edições descarta favoritismo, contudo. “Começamos do zero. Essas vitórias passadas não vão me ajudar dessa vez.”
Foram seis títulos definidos no GP do Brasil. O espanhol Fernando Alonso de Renault superou Kimi Raikkonen e Michael Schumacher, em 2005 e 2006. Raikkonen deu o troco em 2007. Em 2008, foi a vez de Hamilton contra Massa e, em 2009, Jenson Button fechou a conta contra Rubens Barrichello, na incrível Brawn GP. Sebastian Vettel foi o último a definir o título, com a Red Bull em 2012.
Mas, se vencer, Rosberg poderá ser o último campeão de Interlagos? A dúvida surgiu várias vezes nos últimos meses e um asterisco no calendário oficial da FIA para 2017 gera preocupações. A empresa organizadora do evento, Interpub, reitera que não há chances de a festa acabar a curto prazo: “Não existe condição legal para o rompimento do contrato com a empresa promotora, cuja validade vai até 2020.” A reforma iniciada em 2014 faz parte desse acordo e foi entregue neste ano. As obras em Interlagos consumiram R$ 160 milhões em investimentos. Toda a cobertura asfáltica foi renovada, áreas de escape aumentadas e as instalações dos boxes ampliadas.
Além de 2020 é que começam as dúvidas. O novo prefeito de São Paulo, João Doria, pretende vender o complexo automobilístico e garantiu que fará licitações já no primeiro ano de mandato. Durante o contrato com a Formula One Management, um eventual comprador ficará obrigado a realizar o GP, mas depois disso, as negociações seriam entre os novos donos e a Fórmula 1, sem influência da prefeitura.
GP do Brasil poderá definir campeão da temporada neste domingo
Em prova imprevisível, Nico Rosberg tem chances de se tornar sétimo campeão em Interlagos