Diversas câmeras colocadas ao redor do gramado, replay rodado 25 vezes, uma lupa computadorizada ou um drone. Nenhum dos equipamentos, controlados ou não por humanos, é capaz de mostrar o que não aconteceu.
Ao contrário, sim, eles podem não mostrar o que aconteceu. Ou seja, a expressão “o jogo do campo é diferente do jogo da tv” serve para justificar a complexidade de se apitar uma partida, mas não para atestar que não se tratam exatamente da mesma coisa.
“O jogador do Grêmio antecipa, mas o jogador defensor primeiro faz o contato com a bola e há esse contato com o jogador do Grêmio por ele ter tentado antecipar a bola. Mas quem chuta a bola é o jogador do Juventude. Segue com a decisão do campo. É uma jogada limite”.
A fala acima é de Douglas da Silva, VAR de Grêmio 2 x 1 Juventude sábado passado na Arena a respeito do lance mais polêmico do confronto envolvendo Monsalve, do Tricolor e Abner, do Ju. É o trecho mais relevante da conversa dele com Jonathan Pinheiro, o juiz do jogo.
“Sempre foi (orientação aos árbitros) e sempre vai ser promover a justiça desportiva. Utilizem todos os recursos para a melhor tomada de decisão. (…) Resumindo: Não se briga com a imagem”.
A fala acima é de Leandro Vuaden, chefe da comissão de árbitro da FGF na entrevista convocada pelo presidente da entidade Luciano Hocsman três dias depois do jogo e seus desdobramentos. Vuaden foi questionado quase ao final da coletiva por um repórter da Radio Ijuí sobre o lance mais comentado do fim de semana.
Há aspectos em comum no comportamento do árbitro VAR e no do ex-árbitro chefe do árbitro VAR. O primeiro deles é que ambos, por óbvio, viram e reviram as mesmas imagens inúmeras vezes. Rigorosamente as mesmas imagens pelos mesmos ângulos e com a mesma trilha sonora dos áudios.
Outro aspecto é que, pela obrigação de se manifestarem sobre o que viram em virtude da posição que ocupam, os dois se limitaram em determinado momento a frases incompletas, abrindo assim margem para interpretação. Daí não da regra do jogo, mas da conduta adotada.
A descrição do lance pelo VAR, pelo menos pelo conteúdo do material divulgado, não avança para oferecer ao juiz de campo a chance de rever aquilo que ele havia visto (e já interpretado) uma única vez bem mais próximo dos jogadores.
A escolha das palavras descritivas do VAR no caminho da legalidade da ação retirou do apitador a hipótese deste reconsiderar sua decisão. Se apontaria depois para a cal ou não são outros 500.
Porém, pelo monitor, Jonathan Pinheiro veria o que Douglas da Silva viu e reviu em câmera lenta, aproximada e em tempo real, mas que não constou no seu relato. Que a direção e a velocidade da bola são diametralmente opostas ao movimento e a força empregada pelo defensor. Informações ocultadas por toda a cabine que referendeu a decisão tomada a olho nu de quem estava no calor do jogo.
Decisão essa que se desconhece ainda ser diferente ou a mesma que pensa Leandro Vuaden de posse do que ele enxergou de ângulos que nunca teve a chance de ter visto quando apitava mundo afora muito antes do nascimento do VAR.
No entanto, perguntado sobre a jogada e a tomada de decisão de seus subordinados, escolheu manter acesa a curiosidade do público. Prefriu não opinar claramente a respeito. Deixou no ar para livre interpretação do que disse. E do que não disse. A entrevista está no YouTube onde há imagens e áudios comprovando.