O Grêmio, há exatos dez anos, reescreveu o seu conceito de imortalidade. Protagonizou, naquele 26 de novembro de 2005, um dos feitos mais heroicos do esporte. A Batalha dos Aflitos ficará marcada nos personagens daquele fim de tarde em Recife, quando o Tricolor venceu o Náutico por 1 a 0 e retornou à Série A. O feito seguiu junto com cada um deles pela década seguinte por todos os quatro cantos do planeta. Seja na Bulgária, Inglaterra, Portugal, Uruguai ou, obviamente, no Brasil.
A bucólica Lovech, incrustada no meio da Bulgária, 150 km distante da capital, Sófia, e com apenas 36 mil habitantes, provavelmente conhecia o futebol brasileiro apenas pela Seleção e os seus craques. Até janeiro de 2010. Ao ser contratado pelo time local, o Litex Lovech, Galatto levou junto uma história com todos os contornos de lenda. “Foi uma viagem longa até lá. No aeroporto, lá pela quarta pergunta, me questionaram do jogo. Pensei na hora: ‘até aqui eles sabem’”, conta o goleiro. A façanha, logicamente, despertava a curiosidade. Uma delas até incomum. A possibilidade de Djalma Beltrami estar comprado pelo Náutico. “Eles queriam saber se era tudo aquilo, se o vestiário era pequeno, se tinha a sirene, como a federação brasileira permitia um vestiário assim. Eles ficaram espantados. Me perguntaram se o árbitro estava comprado”, acrescenta.
O destino, por pouco, caprichosamente não reeditou o principal duelo daquele 26 de novembro: Galatto x Ademar. O lateral que desperdiçou o segundo pênalti havia chegado seis meses antes à Bulgária para jogar no Cherno More. Em abril de 2010, as equipes se enfrentaram. O ex-jogador do Náutico, no entanto, ficou de fora. “Quando a gente foi se enfrentar, rolou algumas brincadeiras dos brasileiros. Ele estava machucado e comentaram que ele estava com medo de me encarar”, recorda o camisa 1. O goleiro ficou apenas alguns meses no Leste Europeu e na virada da temporada, foi para o Málaga. A partida de 2005 serviu de cartão de visitas para a ida à Espanha “O treinador era o português Jesualdo Ferreira. Me conhecia da Batalha dos Aflitos e gostava do meu biotipo”, destaca. Na chegada à Espanha, também foi indagado sobre o feito de dez anos atrás.
Palestra na Uefa
Comandante daquele Grêmio, Mano Menezes, há alguns meses, abriu a sua palestra no curso de treinadores da Uefa falando da Batalha dos Aflitos. Para surpresa de muitos, o ex-técnico da Seleção Brasileira era quem dirigia o time que com sete venceu outro com 11. “Queriam saber como tinha acontecido, como chegou naquele ponto, como tinha ficado o time em campo. Acho que o que aconteceu naquele dia não tem nada a ver com tática. Maior admiração é por a gente ter resistido a todas adversidades”, ressalta.
Antes disso tudo, os relatos da partida já haviam desembarcado na Inglaterra com Lucas Leiva, em Liverpool, e Anderson, em Manchester. O volante entrou no segundo tempo e virou lateral-esquerdo nos minutos finais. Um ano e meio depois, trocou o azul pelo vermelho do Liverpool. A história foi junto e atraía curiosos. “Mostrei o DVD para alguns amigos ingleses fora do futebol. Meu professor de inglês quis ver. Eles acharam inacreditável o que aconteceu”, conta. O meia-atacante foi contratado na mesma janela, no meio de 2007, pelo Manchester United. Alguns meses depois, quando conquistou a titularidade, o jornal inglês The Guardian dedicou praticamente um quarto da matéria especial sobre ele falando da Batalha dos Aflitos.
De volta aos aflitos
Mais comum foi ecoar nos vizinhos sul-americanos. Natural de Montevidéu, Lipatin recebeu telefonemas de conterrâneos abismados com a notícia. Seja de amigos ou jornalistas. “É difícil narrar o jogo para quem não viu”, diz o atacante. No Brasil não seria diferente. Nunes foi jogar justamente no Náutico. O elenco já havia sido reformulado. Permaneciam lá o pessoal de apoio no vestiário e Kuki como integrante da comissão técnica. “Eles brincaram comigo, de como a gente tinha ganho”, relata. Paulo Odone recebeu um agradecimento especial de um colega. “O presidente do Sport, Luciano Bivar, me disse: "Eu ia ser o único a ficar na Segunda Divisão. Não ia poder sair na rua", descreve. A Batalha dos Aflitos ficará marcada para sempre nos personagens daquele 26 de novembro.
"Eu teria fracassado como técnico", diz Mano
O drama gremista durou exatamente 24 minutos e 51 segundos. Do pênalti em função da bola ter batido na mão de Nunes no chute de Ademar, até a histórica defesa de Galatto, quase aos 60 minutos, o tempo demorou a passar nos estádio dos Aflitos. Neste período, a equipe foi empilhando jogadores expulsos. O pânico aumentava. A esperança esvaía-se cada vez mais e ganhava força a tese da retirada da equipe de campo, para a briga seguir nos tribunais.
“Em meio à confusão, eu procurei, e felizmente encontrei, o Paulo Odone e disse que duas pessoas seriam as responsáveis por aquilo: eu como treinador e ele como presidente. Se abandonássemos, certamente perderíamos. Perderíamos com honra, mas perderíamos”, relata Mano Menezes. A chance de vencer era ínfima. “Muitas pessoas queriam que eu tirasse o time de campo. Essa era uma decisão solitária do presidente. Não poderia descer do avião em Porto Alegre na segunda divisão por ter fugido”, conta Odone.
E se o final fosse outro? Se o pênalti entrasse? Ou, mesmo se Galatto tivesse defendido, mas não saísse o gol do Anderson e o Náutico marcasse 1 a 0? O clube e os personagens daquele dia estavam fadados a ficarem marcados para a história. “O Grêmio era uma massa falida. Se apequenaria”, opina o ex-mandatário gremista.
Mano sabe que a sua carreira poderia ter sido encerrada naquele dia. “Naquele momento você não tem oportunidade de ter medo, mas tenho a exata noção que se não tivéssemos subido eu seria considerado como o cara que não teve comando de grupo, que deixou a coisa chegar naquele estágio. Não tenho dúvida que era bem provável que teria fracassado como técnico”, diz. Nunes certamente também ficaria marcado. “Não tinha esse medo, mas você fica com aquele pensamento: ‘Não poderia ser com outro? Tinha que ser comigo?’”, reflete hoje o jogador. Para o bem dos gremistas e dos envolvidos, Galatto defendeu o pênalti e Anderson fez o gol.
Sem pistas sobre o pênalti
Reza a lenda que Ademar nunca mais voltou a bater um pênalti na vida. Também jamais havia batido um até então. Sem ninguém do Náutico se apresentando para bater, coube ao lateral-esquerdo que cavou a infração o desafio de encarar a tarefa. Não bastasse todo o peso nas costas, Galatto ainda não tinha nenhuma informação para lhe ajudar.
“O Chiquinho (Francisco Cersósimo, preparador de goleiros) me disse que estava todo mundo tenso, para não definir antes. Me falou que o Ademar era canhoto, nunca tinha batido pênalti e que por isso não tinham informações de como batia”, conta o goleiro. Surgiam, naquela hora, os mais diversos pitacos atrás do gol. “Tinha um fotógrafo atrás falando: "Esse cabra nunca bateu". Outro dizia que ele ia chutar no lado direito, outro no esquerdo”, completa. O temor era ficar paralisado: “Tinha medo de não ter reação”.
No Náutico, todo mundo se absteve da responsabilidade. Os dois batedores, Bruno Carvalho e David, já haviam sido substituídos. Danilo Cruz, em tese o terceiro na fila, foi caminhando rumo ao meio do campo. “Uma pergunta que eu faço é que se eu não fosse, quem iria?”, disse Ademar em uma rara entrevista sobre o assunto, em 2012, para o Jornal do Commercio de Recife – o procurou o atleta, que não quis falar sobre o jogo.
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