Contada pelos vitoriosos, a Batalha dos Aflitos é a cereja do bolo de uma campanha gremista recheada de amarguras. Da estreia com derrota em Brasília para o Gama, dirigente e jogadores dispensados logo na largada, passando pelos 4 a 0 da Anapolina, a venda de Anderson em meio ao campeonato para o Porto, de Portugal, até uma crise na reta final entre o técnico e um dos heróis do título e por aí vai.
O ponto de vista dos derrotados tem menor eco por absoluta imposição de como as histórias são contadas. Não só as do futebol. O Nordeste, de tanta importância social, cultura e política no Brasil, manteve a imagem de povo sofrido nas duas pontas da tabela de classificação da Segundona em 2005.
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O Santa Cruz terminou a primeira fase na liderança isolada e o Náutico entre os oito classificados para os quadrangulares, mas Bahia e Vitória foram rebaixados para a Série C. Ou seja, eram os pernambucanos a manter o sangue nordestino circulando na reta final.
O Grêmio viajou sete vezes ao Nordeste durante a competição. Duas no quadrangular final, sendo a última para decidir a classificação no Recife, onde dois estádios separados por dois quilômetros eram palco das duas partidas. Nos Aflitos, Grêmio x Náutico e no Arruda, Santa Cruz x Portuguesa. Ambos os donos da casa dependiam apenas de si para subir.
Fora a imprevisibilidade matemática dos quatro poderem se classificar, havia o ingrediente justamente de um estado, no caso o de Pernambuco, de certa forma emanado por duas de suas forças, uma vez que o Sport ficou pelo caminho. E em Porto Alegre, nos jogos do Olímpico, a atmosfera dentro e fora do estádio seria reproduzida contra o time de Mano Menezes lá. Ainda mais no jogo final.
O foguetório devolvido na porta de hotel, o ônibus da delegação hostilizado na chegada, dificuldade para aquecer antes do jogo, o pênalti contra no primeiro tempo, a expulsão no segundo tempo, o placar paralelo desfavorável. Nada disso parecia interferir em uma narrativa de uma partida crucial e nervosa por si só como centenas do mesmo feitio. Até tudo sair do controle. Neste caso, para o Grêmio.
Para o Náutico, porém, em nenhum momento as rédeas do destino estiveram tanto em suas mãos quando na marcação do segundo pênalti, a apenas dez minutos do fim. Eis onde termina um jogo dentro de suas circunstâncias e começa outro sem precedentes. A bola não entra no gol sozinha. É preciso chutá-la fora do alcance do goleiro.
“Foi o momento mais incrível que eu vi no futebol. Ninguém queria pegar a bola para bater. Apenas o Ademar teve coragem. Foi surreal”, recorda Fernando Alves, comentarista da Rádio Jornal do Commercio, de Recife, que estava trabalhando nos Aflitos naquele dia.
Àquela altura dos acontecimentos, o Santa Cruz retornava à Primeira Divisão depois de quatro anos intermináveis. Seus 63.978 torcedores vibravam com o 2 a 1 de virada sobre a Lusa. No gramado, a euforia foi ainda maior.
“Arrumaram uma taça qualquer lá. O Carlinhos Bala deu volta olímpica e tudo com ela”, relembra Iranildo Silva, repórter da Rádio Clube de Pernambuco presente no Arruda e que um ano depois passou a exercer o cargo de assessor de imprensa do Santinha. “A torcida achou que era campeão. Foi o maior rolo do mundo e uma m… para todo mundo. O assunto da jornada não foi o acesso do Santa Cruz e sim o Náutico. Ninguém falou do Santa Cruz. O assunto foi o vexame do Náutico. Raiva total do Náutico!”, desabafa.
No vestiário dos times vencedores da tarde, sentimentos opostos. No Grêmio, o caminho do inferno ao céu durou poucos minutos. No Santa, por outro lado, da glória do título ao constrangimento por uma festa incompleta, ainda que com o objetivo alcançado. “Triste não. A gente lamenta não ter sido campeão. A gente sabe que pelo lado profissional era importante, mas o vice da Série B é o único que é importante”, disse o abalado treinador Givanildo Oliveira, personagem marcante do futebol pernambucano conhecido como o “Rei do Acesso”.